REUTERS/Amanda Perobelli
Mais de 2,8 milhões deixaram de fazer a prova neste domingo  REUTERS/Amanda Perobelli

Medo do vírus, trabalho, falta de aula e luto: as faces da abstenção recorde no Enem

Após pressão pelo adiamento, mais da metade dos candidatos faltaram no primeiro domingo do exame; ministro da Educação celebrou resultado: 'Foi um sucesso para quem fez'

Ilana Cardial e Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 11h00

Realizado em meio à segunda onda da covid-19, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nunca teve tão pouca participação desde que a prova se tornou, em 2009, a principal porta de entrada para o ensino superior. Mais de 2,8 milhões de inscritos deixaram de fazer o exame no último domingo. O número, gigantesco, revela histórias de desalento de Norte a Sul, em um país que tem fracassado na gestão da Saúde e da Educação na pandemia.   

Rostos pretos, brancos, molhados de suor ou de lágrimas são a cara da abstenção do Enem. Os ausentes no exame são jovens como o Ruan, de 22 anos, que trabalhava como motoboy no Rio enquanto outros da mesma idade faziam a prova. Ou têm história parecida com a da Larissa, de Belford Roxo (RJ), que perdeu a paz depois de enterrar a tia, infectada com a covid-19, e agora vê os avós no hospital.

Muitos tiveram medo de se contaminar, caso da Manuela, de Juiz de Fora (MG), ou não puderam ir porque já estavam doentes, como o Danilo, de Parauapebas (PA), a cerca de 530 quilômetros de Belém. E teve até quem tentou fazer a prova, mesmo com medo, percorreu quase duas horas em um ônibus, mas encontrou as salas lotadas e acabou impedido de entrar - história do Tiago, em Curitiba.

A segurança do exame, em meio à pandemia, foi questionada na Justiça, mas o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC), conseguiu manter as datas da prova. Após o 1º dia de aplicação, a Defensoria Pública da União (DPU) fez novo pedido para que as provas do próximo domingo sejam adiadas e para que o exame seja reaplicado a todos os ausentes, mas a solicitação foi novamente negada.

No último domingo, 17, o ministro Milton Ribeiro afirmou que o Enem “foi um sucesso”, mesmo com índice de abstenção nunca visto. "Para os alunos que puderam fazer a prova, foi um sucesso", disse. Já Priscila Cruz, do Todos pela Educação, classifica o último domingo como um fracasso. “O Enem é mais um triste episódio de um Ministério da Educação incompetente, omisso e alheio à realidade da educação, dos estudantes e da pandemia no Brasil.” O Estadão ouviu cinco jovens que deixaram de fazer a prova no último domingo. Veja os relatos a seguir.

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‘Minha tia morreu de covid-19. Aquilo acabou comigo’, diz jovem que desistiu do Enem

Larissa Paiva, de 19 anos, quer ser advogada, mas o luto suspendeu o sonho da faculdade

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 11h00

Quando criança, Larissa Paiva, de 19 anos, viu a mãe quase ser presa em um supermercado depois de ter roubado arroz e feijão para alimentar os filhos. A família não tinha o que comer e, naquele dia, uma advogada que passava pelo estabelecimento intercedeu pela mulher, pagou as compras e um táxi. “Depois disso, pensei: ‘Preciso ser advogada e fazer o que ela fez’. Daí veio o maior desejo da minha vida.”

Larissa começou o ano animada a estudar para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), mas a morte de uma tia para a covid-19, o luto pela perda de amigos e a internação dos avós com a mesma doença a afastaram do caminho. “Não tenho cabeça, meu psicológico está abalado”, diz a jovem de Belford Roxo, na Baixada Fluminense.  Leia a seguir o relato:

Meu maior sonho é entrar em uma faculdade, dedico a maior parte da vida para isso. No início do ano, estava estudando para o vestibular, muito animada, até que veio a covid-19. Meu salário foi reduzido e tive de parar o pré-vestibular que estava custeando. Em março, minha tia morreu de covid (uma das 28,2 mil vítimas da doença no Estado). Ela tinha 42 anos, deixou filho e marido. Quem teve de dar a notícia e cuidar de tudo fomos eu e minha prima. Foi um baque. Aquilo acabou comigo.

Tentei estudar por conta própria em casa, ver vídeos, mas sozinha é muito difícil. As coisas estavam ficando cada vez mais complicadas, tinha ainda o medo, porque minha mãe trabalha fora. E o luto. Perdemos amigos, conhecidos, vizinhos. Tivemos de montar uma estratégia para cuidar do meu primo, agir na esperteza e com rapidez. A gente chorava, secava e falava: ‘Vamos agir’.

Eu ainda queria fazer a prova, até que, em janeiro, minha avó e meu avô foram para o hospital com a covid. Eles estão internados e sem previsão de alta. Não temos contato. Ali percebi que eu não tinha mais estrutura para fazer o Enem com as minhas perdas. Não tenho cabeça, meu psicológico está abalado e são muitas informações.

Me sinto frustrada, inútil, quero tentar, mas não consigo, parece até que não tenho força de vontade. Meu sonho é estudar Direito porque, quando eu era pequena, não tínhamos nada em casa para comer e minha mãe foi a um supermercado para pegar comida - não roubou nada de bom, só arroz e feijão. Um segurança arrastou minha mãe para um galpão e arrasou com ela, levaram para o meio do mercado e falaram que chamariam a polícia.

Eu era muito pequena e comecei a chorar até que veio uma moça que falou que era advogada e defendeu minha mãe, pagou as compras e um táxi para voltarmos para casa. Depois disso, pensei: preciso ser advogada e fazer o que ela fez. Daí veio o maior desejo da minha vida. Vou ficar pior quando a nota de todo mundo que fez o Enem sair, eu vir as pessoas entrando em uma universidade e cair a ficha de que não vou conseguir esse ano.  

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‘Abri mão do Enem, eu tinha de trabalhar’, diz motoboy no Rio

Enquanto a prova era aplicada no domingo, Ruan Felipe Costa Machado, de 22 anos, fazia entregas

Ilana Cardial, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 11h00

Ruan Felipe Costa Machado, de 22 anos, começou 2020 decidido a retomar os estudos. Inscreveu-se no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela primeira vez e frequentou as aulas de um cursinho popular até quando pôde. Com a pandemia, porém, o morador do Complexo da Maré, na zona norte do Rio, teve de deixar o plano de lado mais uma vez.

Não foi possível encaixar as aulas online com o emprego de motoboy, que garante a renda para manter a casa onde vive com a mãe e a pensão das duas filhas, prestes a fazer três anos. No domingo, 17, enquanto a prova acontecia, Ruan percorria as ruas do Rio para fazer entregas. Leia a seguir o relato:

No começo de 2020, resolvi que voltaria a estudar. Lembrei do cursinho popular do CEASM, o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (pré-vestibular comunitário em que Marielle estudou), e fui. O pessoal me ajudou bastante. O que eles fazem ali é surreal, com muito amor e carinho. Infelizmente a pandemia me quebrou. Estudei até março, mas, quando as aulas online começaram, nunca batiam com meu horário livre.

Pego serviço das 12 horas às 23 horas. E não ia parar de trabalhar para assistir às aulas online, porque, infelizmente, se eu não trabalhasse, iam faltar coisas em casa. E nunca que vou deixar isso acontecer.

A minha mãe é diarista, fez uma cirurgia e estava 'encostada'. A gente foi se mantendo com o que tinha. Ano passado, trabalhei em restaurante e como entregador iFood de bike até conseguir meu emprego de motoboy. Eu pagava aluguel de R$ 600 em uma moto e pago a pensão das minhas filhas. Com a pandemia, a creche fechou, e eu e a mãe delas tivemos de pagar também alguém para cuidar das meninas enquanto a gente trabalha.

Eu tenho de trabalhar para poder viver um pouco melhor e dar um pouco do melhor para as minhas filhas (elas têm 3 anos). E quanto mais tu 'trabalha', mais tu 'recebe'. Pelo menos esse ano, abdiquei de estudar e abri mão do Enem. Não tive como estudar. Eu tinha de trabalhar.

Terminei o ensino médio em 2018, quando nasceram as gêmeas. Em 2020, consegui isenção no Enem e seria a primeira vez que eu ia tentar fazer a prova. Na época da inscrição, queria cursar Educação Física. Hoje em dia, quero algo voltado para Artes. Eu tenho o sonho de ser rapper, de viver da arte e da música.  

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‘Tinha tudo para dar certo, mas não deixaram fazer’, diz estudante barrado no Enem

Tiago Felipe de Souza, de Curitiba, percorreu 1h40 em um ônibus para ser impedido na porta da sala

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 11h00

Tiago Felipe de Souza, de 23 anos, poderia imaginar todo tipo de problema que teria no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), menos este: ser impedido de entrar porque a sala já estava lotada. Por falta de planejamento sobre a capacidade das classes, ele e dezenas de estudantes foram barrados em Curitiba quando já estavam nos locais de prova. Agora, não sabe se vai conseguir a reaplicação e a única prova de que compareceu ao exame é uma folha A4 preenchida à mão por uma funcionária. “Estou refém de um papel.”  Leia a seguir o relato:

Saí com antecedência de casa, fui de ônibus fazer o Enem e levei 1h40 para chegar ao local de prova (em Curitiba). Entrei até a porta da sala, chegaram a pegar meu documento e então avisaram de um problema: que atingiu 50% da capacidade da turma e teriam de me dispensar. A única coisa que anotaram foi meu nome e CPF em uma folha de A4 - agora estou refém de um papel.

Lá fora, mais alunos falaram da mesma situação, que enfrentaram fila no colégio e foram barrados. Eles estavam desesperados. Quando você está estudando, cria planos de tirar boa nota, tem a tensão do preparo, você está ansioso. O Enem é uma prova complexa. Receber essa notícia faz desabar o mundo, fiquei bem perdido. Minha única solução era ir para casa porque fomos orientados a sair do prédio. Tinha tudo para dar certo, a estrutura é que não me deixou fazer.

Foi tudo de última hora. Eles tinham de estar preparados para ter uma outra sala. Sinto que estamos perdidos por todos os lados, na educação e na saúde. Isso é reflexo de tudo o que está acontecendo. Foi total falta de informação e planejamento e agora o que nos resta é aguardar essa segunda prova e me esforçar de novo para ver como as coisas vão acontecer.

Quero fazer um curso na área de Comunicação em uma universidade pública, mas nada garante que vou conseguir fazer essa prova. O ministro falou que a prova foi um sucesso. Eu pergunto: ‘Um sucesso para quem? Para eles que aplicaram para metade dos participantes?’ Vejo como uma tragédia. 

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‘Vejo que o Enem poderia ter decidido meu futuro’, diz jovem que desistiu por medo da covid-19

Manuela de Oliveira Verli, de Juiz de Fora, optou por não colocar a vida dos pais em risco

Ilana Cardial, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 11h00

Aos 18 anos, Manuela de Oliveira Verli, sonha em estudar Turismo. Mesmo inscrita, não realizou o Enem por medo de contaminação da covid-19. Moradora de Juiz de Fora (MG), Manuela se assustou com o aumento do número de casos e optou por não arriscar a sua vida e a de seus pais, que são do grupo de risco. Para ela, o Enem deixa o sentimento de frustração e a dúvida: “E se eu tivesse conseguido passar?”. Leia a seguir o relato:

Desisti da prova por causa da covid-19. Meus pais são do grupo de risco e eu não queria colocar a minha vida e a deles em risco. Meu pai tem problema do coração e diabete, e minha mãe tem aneurisma. Esse seria meu primeiro Enem. Sou de escola pública e estava estudando por conta própria. Não é a mesma coisa que um cursinho ou uma escola particular, mas eu estava tentando o meu melhor e por isso fiquei frustrada por não fazer.

Foi uma escolha minha e não me arrependo. A minha vida e a dos meus familiares sempre vão vir em primeiro lugar, mas ainda tem aquele gostinho de frustração, de estar jogando uma oportunidade no lixo. Duas semanas antes da prova, eu já estava sentindo medo e preocupação. Na semana do Enem, me perguntei se deveria ir. Aumentaram os casos na minha cidade, teve aquela situação em Manaus e eu percebi que não valia a pena.

Sou muito ansiosa com essas coisas de futuro. Tem aquela coisa de que ‘se eu não fizer agora, não vou ter chance nenhuma’. Conversei com minha mãe e meu irmão, que me acalmaram, e bati o martelo no sábado de que não iria.  É uma decisão difícil? É. Eu estou perdendo a isenção e a chance de ver como funciona. Eu ainda tinha esperanças que adiassem. No dia da prova, fiquei indignada, com raiva e muito frustrada, mas vi que fiz a escolha certa. É frustrante ver que o futuro do País é tratado desse jeito.

É um sonho meu fazer faculdade e estou tentando conseguir. Vejo que essa é a prova que poderia decidir o meu futuro ou, pelo menos, poderia ter arrumado meu futuro mais cedo. Fica a questão: ‘E se eu tivesse conseguido passar?’.

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‘Tive o cuidado de falar não’, diz jovem infectado dias antes do Enem

Danilo Ferraz, de 18 anos, descobriu a covid-19 na semana do exame e não cogitou fazer a prova contaminado

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 11h00

Enquanto o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) era aplicado no domingo, 17, Danilo Ferraz, de 18 anos, assistia à aprovação das vacinas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pela televisão. Inscrito para fazer a prova, ele não pôde ir porque descobriu estar infectado com a covid-19 na semana do exame. Em Parauapebas, interior do Pará, onde mora, a ocupação de leitos de UTI no SUS chegou a 90% e o jovem se preocupa: “Hoje estou bem, amanhã não sei.” Leia a seguir o relato:

Comecei a ter sintomas da covid-19 cinco dias antes do Enem. Minha mãe trabalha na área da saúde (é técnica em Enfermagem) e precisou fazer o teste porque também estava com sintomas. Quando saiu o resultado dela, e deu positivo, fiz o exame também. Descobri que estava contaminado e precisei entrar com um processo para pedir a reaplicação.

Meus sintomas foram muito leves, uma dor de garganta, e só depois que fiz o teste é que senti febre. Agora perdi paladar e olfato. Fiz cursinho durante o ano e não foi muito fácil porque estava tudo a distância, mas eu estava tentando me preparar da melhor forma. Quero prestar Medicina.

Foi frustrante ter covid porque estava tão perto do Enem, mas eu tive o privilégio de fazer o teste o mais rápido possível, em uma clínica particular. No dia do Enem, quando deu meio-dia, pensei: 'O que eu faço agora?' Estava todo mundo fazendo a prova. Mas nunca cogitei prestar o exame contaminado, colocando outras pessoas em risco. Tive o cuidado de falar não.

Estamos vendo em Manaus a problemática da falta de oxigênio, vemos que está caótico e temos medo de apresentar um quadro mais grave. E esse medo persiste, a gente não está curado. Hoje estou bem, mas amanhã não sei.  

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Análise: Fracasso na aplicação do Enem é triste episódio de um MEC incompetente e omisso

Presidente-executiva do Todos Pela Educação diz que não faltaram alertas e questionamentos sobre a qualidade dos protocolos para o exame

Priscila Cruz *, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 11h00

Com aglomerações, superlotações, alunos barrados e o dobro de abstenções frente a outros anos, o Enem 2020 esteve longe de ser um sucesso, como disse o ministro da Educação, Milton Ribeiro. O fracasso na aplicação desse Enem é mais um triste episódio de um Ministério da Educação incompetente, omisso e alheio à realidade da educação, dos estudantes e da pandemia no Brasil.

Não faltaram alertas e questionamentos sobre a qualidade dos protocolos que o MEC e o Inep disseram ter garantido. Apontamos, por exemplo, que a 10 dias da aplicação do exame, segundo o Painel do Orçamento (Siafi 08/01/2021), o MEC pagou apenas 1,1% dos R$178,5 milhões de verba extra para a realização das avaliações na pandemia. Embora 81,5% desse valor tenha sido empenhado, isso não garante a adequada execução do contrato.

No segundo dia de prova, MEC e Inep têm o dever de garantir a plena execução das medidas de segurança sanitária a todos os estudantes. E, graças ao caos que geraram, agora precisam realizar novas edições urgentes do Enem para os estudantes que não puderam participar.

É fundamental transparência: a sociedade precisa saber a dimensão dos prejuízos causados e ter acesso aos contratos firmados para a realização da prova - assuntos alvo de solicitações via Lei de Acesso à Informação já feitas pelo Todos Pela Educação.  

* É presidente-executiva do Todos Pela Educação

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