Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

‘Abri mão do Enem, eu tinha de trabalhar’, diz motoboy no Rio

Enquanto a prova era aplicada no domingo, Ruan Felipe Costa Machado, de 22 anos, fazia entregas

Ilana Cardial, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 11h00

Ruan Felipe Costa Machado, de 22 anos, começou 2020 decidido a retomar os estudos. Inscreveu-se no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela primeira vez e frequentou as aulas de um cursinho popular até quando pôde. Com a pandemia, porém, o morador do Complexo da Maré, na zona norte do Rio, teve de deixar o plano de lado mais uma vez.

Não foi possível encaixar as aulas online com o emprego de motoboy, que garante a renda para manter a casa onde vive com a mãe e a pensão das duas filhas, prestes a fazer três anos. No domingo, 17, enquanto a prova acontecia, Ruan percorria as ruas do Rio para fazer entregas. Leia a seguir o relato:

No começo de 2020, resolvi que voltaria a estudar. Lembrei do cursinho popular do CEASM, o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (pré-vestibular comunitário em que Marielle estudou), e fui. O pessoal me ajudou bastante. O que eles fazem ali é surreal, com muito amor e carinho. Infelizmente a pandemia me quebrou. Estudei até março, mas, quando as aulas online começaram, nunca batiam com meu horário livre.

Pego serviço das 12 horas às 23 horas. E não ia parar de trabalhar para assistir às aulas online, porque, infelizmente, se eu não trabalhasse, iam faltar coisas em casa. E nunca que vou deixar isso acontecer.

A minha mãe é diarista, fez uma cirurgia e estava 'encostada'. A gente foi se mantendo com o que tinha. Ano passado, trabalhei em restaurante e como entregador iFood de bike até conseguir meu emprego de motoboy. Eu pagava aluguel de R$ 600 em uma moto e pago a pensão das minhas filhas. Com a pandemia, a creche fechou, e eu e a mãe delas tivemos de pagar também alguém para cuidar das meninas enquanto a gente trabalha.

Eu tenho de trabalhar para poder viver um pouco melhor e dar um pouco do melhor para as minhas filhas (elas têm 3 anos). E quanto mais tu 'trabalha', mais tu 'recebe'. Pelo menos esse ano, abdiquei de estudar e abri mão do Enem. Não tive como estudar. Eu tinha de trabalhar.

Terminei o ensino médio em 2018, quando nasceram as gêmeas. Em 2020, consegui isenção no Enem e seria a primeira vez que eu ia tentar fazer a prova. Na época da inscrição, queria cursar Educação Física. Hoje em dia, quero algo voltado para Artes. Eu tenho o sonho de ser rapper, de viver da arte e da música.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.