ALEX SILVA/ESTADAO
Crianças poderão voltar a partir de 4ª feira  ALEX SILVA/ESTADAO

O que você precisa saber sobre a volta às escolas em São Paulo

Colégios reabrem as portas quarta-feira na capital paulista com atividades extracurriculares, como idiomas, música e esportes

João Ker e Larissa Gaspar, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 05h00
Atualizado 08 de outubro de 2020 | 09h41

Escolas da capital paulista poderão abrir as portas para receber alunos em atividades presenciais a partir de quarta-feira, 7. Apesar de a Prefeitura ter autorizado apenas as atividades extracurriculares, como aulas de idiomas, de música e de esportes, o movimento vem sendo acompanhado com atenção: será a primeira vez em sete meses que os estudantes terão contato físico com colegas e professores. 

A retomada vai ocorrer de forma gradual, dentro do plano definido pela Prefeitura de São Paulo. Nesta primeira fase, está permitida a volta de apenas 20% dos alunos das redes pública e privada do ensino básico. Os alunos do ensino superior também ficam liberados para reiniciar as aulas regulares. 

Na próxima etapa, prevista para ocorrer a partir de 3 de novembro, estaria liberada a volta de aulas regulares no ensino básico. A mesma data foi definida por enquanto para a retomada das aulas no ensino fundamental da rede estadual. 

“Uma coisa importante de entender é que esse fechamento prolongado, além de consequências mais diretas de acesso às aulas remotas, gerou problemas à saúde mental, à segurança alimentar e ao convívio social”, avalia Ítalo Dutra, chefe de educação da Unicef no Brasil. 

O órgão da ONU para defesa do direito das crianças acaba de lançar um guia com orientações para o retorno do setor. “A eficácia dessa retomada depende do engajamento por parte das famílias e das crianças.”

A adesão a essa retomada depende de cada instituição, que terá autonomia para decidir se abrirá ou não as portas. 

As famílias também poderão decidir se querem as crianças no colégio. Ou não. 

Para ajudar os pais e os responsáveis que optaram pela volta às aulas, o Estadão preparou um guia com dicas que vão desde a higienização do material escolar ao cuidado com questões emocionais das crianças. E também está respondendo aos questionamentos dos leitores em perguntas enviadas pelas redes sociais. Confira abaixo.

Como reintroduzir a atividade escolar na rotina? 

Para o pesquisador em neuropsicologia Paulo Sérgio Boggio, do Mackenzie, os pais precisam ouvir os filhos. “Após tanto tempo de quarentena, os complicadores são a capacidade de regulação emocional e o quanto é possível controlar as emoções e o impacto delas nas ações.”

Como explicar a necessidade de distanciamento social sem causar medo?

A palavra-chave é o equilíbrio, aponta Boggio. “Se os pais colocarem uma carga pesada de informações negativas, podem induzir o estresse. Por outro lado, se a informação não chegar da forma correta, aumenta a possibilidade de a criança se infectar”, afirma. “A mensagem tem de ser de acordo com a idade.” 

É preciso fazer teste de covid-19 antes da volta?

Não é necessário, diz Fausto Flor Carvalho, chefe do departamento de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Ele explica que o teste mais eficiente, o RT-PCR (swab nasal e oral), é caro e agressivo para crianças. 

A carteira de vacinação precisa estar em dia antes do retorno?

Sim. O melhor é que a criança tome a dose mesmo que já tenha passado o prazo, porque isso permite ao clínico diferenciar o diagnóstico no surgimento de um sintoma.

Como posso observar o surgimento de sintomas?

“A maior parte das crianças não tem sintomas”, lembra Carvalho. “Então, o acompanhamento é complexo.” Os possíveis sintomas são a coriza e a diarreia, além da febre. 

Que cuidados a criança deve tomar no transporte para a escola?

Carvalho indica o uso de máscara para crianças a partir de 2 anos, além de álcool na entrada e na saída. É recomendável que veículos usem apenas de 30% a 40% de sua lotação e deixem as janelas abertas.

É preciso enviar máscaras próprias? Quantas?

Outros países têm orientado que as crianças troquem de máscara a cada duas horas e lavem as mãos com água e sabão ou passem álcool em gel no mesmo intervalo. “No Brasil, sabemos que nem todos têm condições financeiras de fazer isso. Então, o ideal é usar uma máscara na ida para a escola, outra durante a aula e trocar por uma nova na hora de voltar”, explica Carvalho. 

Meu filho pode tirar a máscara em algum momento?

Idealmente, não. Ainda assim, é possível que algumas crianças tenham dificuldade de ficar o tempo todo com a máscara. Nesses casos, é aconselhável que, se ela for retirada, isso ocorra em espaço aberto. 

Como evitar que ele coce os olhos e coloque a mão na boca ou no rosto?

“É importante que os pais já trabalhem isso antes da volta à escola”, diz Carvalho. Ele explica que é preciso que professores redobrem a atenção com crianças entre 2 e 6 anos.

Com que frequência ele deve higienizar as mãos?

O ideal seria fazer isso a cada duas horas. Ou sempre que tocar no rosto, além de no início e no fim da aula. 

Ele pode se sentar com amiguinhos?

Não. Os professores vão precisar ser criativos nas atividades que antes eram feitas em dupla ou grupo e para impedir que se aproximem para brincar. Na Coreia do Sul, por exemplo, os professores deram asas de anjos para as crianças, para ajudá-las a manter a distância de 1,5 metro. 

Há risco em pedir material escolar emprestado?

A recomendação é que cada um tenha o seu material. Quando não houver essa possibilidade, é preciso passar álcool antes e depois do uso. Ao chegar em casa, o material deve ser lavado com água e sabão ou exposto ao sol. 

A merenda da escola é segura? 

“Se tiver oportunidade de levar o lanche, é preferível. Mas sabemos que muitas crianças dependem da refeição escolar”, observa Marcelo Otsuka, da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ele diz que é preciso que as responsáveis pela merenda sejam treinadas e que haja rodízio no refeitório.

Como identificar crises de ansiedade? 

Segundo Boggio, alguns dos sintomas de ansiedade e pânico mais comuns são: tensão no corpo, falta de comunicação, semblante assustado, aumento na transpiração e nos batimentos cardíacos.

É verdade que a crianças não pegam e não espalham o vírus?

Não, as crianças também são contaminadas, mas nelas os casos são geralmente pouco graves. “São raros os sintomas graves e mesmo risco de óbito em crianças. Elas podem se infectar e transmitir. Elas têm um papel importante a depender da exposição delas à covid-19”, explica o professor Dr. Alexandre Naime Barbosa, chefe da Infectologia da UNESP e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. 

Quais são os principais riscos do retorno às aulas?

O aumento da probabilidade de se infectar pelo coronavírus. “Há uma repercussão do ponto de vista individual, em que a própria pessoa fica doente, quanto do entorno dessa pessoa. Há menos crianças sintomáticas e com probabilidade de doença grave. A principal preocupação seria a criança transmitir o vírus para outras pessoas”, explica o médico infectologista André Bueno. De acordo com ele, caso a transmissão aconteça, é muito mais difícil impedir o contágio no nível domiciliar. A Prefeitura de São Paulo está conduzindo testes sorológicos em professores e alunos da rede municipal para tentar mitigar esse problema. 

E para os professores e funcionários?

Ainda há o risco de transmissão no ambiente escolar e a possível evolução para formas mais graves da doença, sobretudo aqueles com maior faixa etária e com comorbidades. “O cenário de volta tem que considerar os riscos e promover a volta em momento de baixa circulação do vírus e os protocolos de segurança pelas escolas. As escolas da rede pública têm uma chance maior de não seguirem as medidas de segurança com o rigor necessário, com equipamentos de proteção individual, reposição de recursos humanos. É um cenário mais difícil que em escolas privadas”, completa o médico infectologista André Bueno.  Para mitigar os riscos, a Prefeitura de São Paulo está conduzindo testes sorológicos em professores e alunos da rede municipal. 

Qual o papel das crianças nesse cenário?

Em crianças menores de 12 anos, principalmente, há uma baixa adesão às medidas de proteção. “Como fazer que uma criança de 6 anos use máscara, não tenha contato físico com outras crianças, não coloque as mãos no rosto e lave as mãos com frequência? As crianças são potenciais amplificadores da covid-19, podendo contaminar a família e os próprios educadores”, ressalta o infectologista Alexandre Barbosa

Com qual frequência os materiais escolares, carteiras e etc devem ser higienizados?

A higienização com álcool 70% deve ocorrer após o contato com cada criança. 

A distância segura nas escolas continua 1,5m?

Sim, segundo infectologistas a distância de segurança ideal é de pelo menos 1,5m de distância entre as crianças e entre as carteiras na sala de aula.

Minha professora que ministra a aula remota estará comigo no retorno presencial?

Isso depende de cada escola e de cada situação pessoal do professor, como se pertence ou não ao grupo de risco. Se o profissional não tiver a possibilidade de retomar as atividades neste momento, um outro professor se encarregará das atividades presenciais. Segundo Vanini Mesquita, orientadora pedagógica do Colégio Santa Maria no Ensino Fundamental de sua unidade, além de estar com a professora titular no ensino remoto, os alunos terão a oportunidade de encontrá-la no contraturno também com atividades de acolhimento, considerando as habilidades socioemocionais.

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Escolas privadas da capital reabrem depois de 200 dias com pais divididos

Expectativa é de que mais de 80% das instituições particulares voltem a ter atividades presenciais na quarta-feira em São Paulo, mas 40% das família não devem levar filhos

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 14h00

   

SÃO PAULO - Depois de mais de 200 dias fechadas, as escolas da capital abrem na quarta-feira com pais divididos e expectativa pela volta esperada e temida ao mesmo tempo. As estimativas são de que mais de 80% das instituições particulares reabram e 40% das famílias não levem seus filhos. A Prefeitura de São Paulo autorizou apenas atividades presenciais extracurriculares em outubro e a previsão de aulas ficou para 3 de novembro.

Atrapalhadas pelas regras governamentais confusas e enfrentando perda de alunos durante toda a pandemia, as escolas particulares se desdobram para agradar a quem vai estar lá presencialmente e a quem continuará em casa.

“A equação não fecha, ninguém pode perder, quem está no presencial ou no online, mas o professor é o mesmo”, diz a diretora da Escola Projeto Vida, na zona norte da capital, Monica Padroni. Para ela, não faz sentido a volta se a professora titular das crianças menores não estiver na escola para recebê-las. Os docentes vão então passar a comandar a aula remota da escola e não de casa, e serem substituídos em alguns momentos presenciais por auxiliares.

Uma mãe de outra escola reclama justamente da falta da professora da filha na volta à escola, muito aguardada pela família. “A impressão que dá é que estão privilegiando quem vai ficar em casa”, conta ela, que pediu para não ter seu nome publicado.

Para ela, a abertura das escolas terá um “benefício profundo” para crianças de todas as classes sociais, principalmente as que sofrem com abuso, violência, desnutrição. “Na escola, a criança experimenta outros papéis, se relaciona com o diferente. Para mim, o tempo que falta até o fim do ano é muito relevante.” No entanto, ela diz que se sente taxada de “elitista e não comprometida com o coletivo” por outros pais que são contra a volta. “Tentando agradar aos dois lados, a escola pode acabar desagradando a ambos.”

Outra mãe sente o contrário. “A maioria quer voltar. Eu nem abro mais a boca no grupo de mães para não ser apedrejada”, conta ela, que também não quer o nome revelado para não causar mal-estar na escola. “Está sendo montada uma operação de guerra, crianças com máscaras, escola gastando muito dinheiro, para quê? O que vão aprender agora?”, indaga. Ela tem dois filhos adolescentes em uma escola de elite da zona oeste e não vai enviá-los às atividades presenciais até que “tudo volte ao normal”.

A publicitária Ana Carolina Franco, de 43 anos, diz que vai esperar pela vacina para mandar os dois filhos. “O perigo está aí. A pessoas estão loucas, acham que é só por álcool em gel e tudo bem.”

Entre as 24 instituições de elite que fazem parte da Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), 100% declararam em pesquisa da entidade que vão reabrir no dia 7. Em 33%, os alunos estarão na escola 2 vezes por semana e em 29,2%, mais de 3 vezes. A maioria dos estudantes ficará entre 2 e 4 horas nas instituições por dia.

Estimativa do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp) fala em 80% das escolas abertas na capital na semana que vem. Algumas, segundo a entidade, não consideraram vantajosa a retomada apenas para as atividades extracurriculares porque poucos pais se interessaram.

“Eu acho que é um suicídio, porque a pandemia deve adentrar o próximo ano e se a escola não começar logo com as aulas híbridas vai ficar para trás”, diz o presidente do Sieeesp, Benjamim Ribeiro da Silva. Uma das que optaram por continuar só online é o Colégio São Domingos, na zona oeste. Segundo o diretor Silvio Pinto, “os riscos relativos à pandemia são muito sérios para que se abandone o isolamento social”.

Confusão de regras

Os projetos de retorno foram elaborados com urgência na semana passada porque a norma da Prefeitura sobre o que poderia ser feito em outubro só saiu há oito dias. Como o Estadão adiantou, as escolas particulares só podem receber 20% dos alunos por dia e não têm limite de horas para funcionar. As instituições aguardavam há meses uma definição de reabertura. O Estado tinha autorizado a volta já em setembro, com 35% dos alunos. Elas começaram a se organizar e, alguns dias depois, a Prefeitura informou que não permitiria o retorno, deixando mais uma vez em suspenso a decisão.

“Eu já fiz tanta versões de horários possíveis de como voltar que agora só acredito no dia 7 quando os alunos estiverem chegando”, brinca a diretora pedagógica do Colégio Bandeirantes, Mayra Lora. Na escola, os alunos vão ficar 3h20 por dia em quatro aulas de reforço, de Português, Matemática e Inglês. Não haverá intervalo para que eles circulem o menos possível.

No Colégio Oswald de Andrade, as crianças menores farão atividades de brincadeira, rodas de conversa, oficinas de artes e devem ir para a escola duas vezes por semana. Os maiores terão esportes no contraturno e aulas online no horário habitual. A instituição pediu que os pais inscrevessem seus filhos para as atividades de outubro para organizar melhor as bolhas (grupos pequenos para evitar transmissão). Segundo a diretora geral do Oswald, Andrea Andreucci, 60% inscreveram os filhos. O índice é o mesmo dos que pretendem voltar no Santa Cruz e no Dante.

“A decisão das famílias está muito ligada à segurança que a escola demonstra”, diz Andrea. Segundo ela, a primeira coisa que os professores farão ao receber os alunos é explicar a situação. “Não podemos ignorar o momento, mas vamos sentar e conversar sem traumas, sem assustar.”

As escolas de educação infantil são as que registram maior intenção de volta das crianças, principalmente porque o ensino online não é recomendado nem eficaz. Na Recreio, no Alto de Pinheiros, 75% dos pais disseram que vão mandar seus filhos. As famílias foram chamadas inclusive para os grupos de trabalho sobre o retorno.

“Os pais tiveram consciência maior de como está sendo para a escola planejar no escuro, com respostas do governo que chegam em cima da hora e problemas financeiros”, diz Carolina Arantes, de 36 anos, mãe de Inácio, de 5. Para ela, fazer parte do grupo ajudou a ter mais confiança na volta. Boa parte das escolas perdeu a maioria de seus alunos de menos de 4 anos por não haver obrigatoriedade de matrícula e, segundo estimativas do Sieeesp, 30% delas fecharam as portas na pandemia.

Muitos diretores revelam ansiedade para a volta, com uma sensação de recomeço em um contexto inesperado. Para Andrea, do Oswald, o sentimento é de todos envolvidos com educação. “Existe uma vontade enorme de todo mundo, famílias, professores e funcionários, de entrar na escola, de voltar à vida, mas também muito medo e angústia.”

Na rede estadual, só 10% vão retomar as atividades agora

As escolas da rede pública da capital abrirão em menor número do que as particulares. Entre as estaduais da cidade somente 100 de 1.086 vão retomar as atividades presenciais na quarta-feira. Já a Prefeitura afirmou que ainda não tem um número fechado de quantas escolas municipais resolveram abrir. 

A volta em outubro é voluntária para escolas, pais e professores. A Prefeitura só autorizou na cidade atividades extracurriculares, como música, artes, recreação e reforço de Matemática e Português.

No restante de São Paulo, em municípios que autorizaram, as escolas estaduais foram abertas em setembro para esse tipo de atividade e permanecerão assim em outubro para estudantes do ensino fundamental. Os alunos de ensino médio já poderão ter aulas agora em outubro.

As escolas públicas enfrentam resistência dos professores para reabrir – que alegam medo de contaminação e pouca estrutura para manter protocolos. Estado e Prefeitura alegam que compraram EPIs, kits de higiene e equiparam escolas

Depoimentos

Karyna Rossetto, advogada: ‘Minhas filhas asmáticas vão'

"Sempre fui a maior defensora de toda a precaução, minhas duas filhas são asmáticas, de ficar no respirador. A gente só sai para fazer o básico, não vê amigos, família. Eu dizia que elas só iriam para a escola se tivesse vacina. Mas o tempo foi passando, seis meses é muito tempo para duas pré-adolescentes ficarem trancadas no quarto. Uma delas voltou à natação e vi como se sentiu muito melhor. Acho agora que o prejuízo físico e emocional está sendo muito maior do que vir talvez a ficar doente se for para a escola. Por isso mudei de ideia e elas vão... ver as amigas, que é o mais importante neste momento. Já estão animadas só de falar em ir, arrumando as coisas."

Gisele Goller, pedagoga:  ‘Estou em um grande dilema’

"O Diogo, de 3 anos, foi um bebê chiador, com bronco espasmos. Mas fomos à escola fazer uma visita esta semana e chorei de vê-lo feliz lá, interagindo. Estou em um grande dilema. A minha filha mais velha, de 9 anos, quer ir, mas também teme prejudicar o irmão. E eu vou privar a mais velha, que nunca tomou antibiótico na vida? Não me preocupo com conteúdo, mas a escola é o lugar de encontrar outras pessoas, exercitar tolerância, respeito, coletivo. Estou vivendo minuto após o outro, tem hora que estou mais segura, outras não. Me preocupa muito o quadro dele, mas ele iria se fortalecer podendo ter outras experiências do que só ser um menino de apartamento."

Carolina Verginelli, advogada: ‘Não vale a pena arriscar'

"Meus filhos de 9 e 13 anos se adaptaram muito bem ao ensino remoto, não acho que a qualidade diminuiu. Estamos muito isolados, trabalhamos em casa, e eles têm convivência com meus pais. Não acho que vale a pena, por causa de 2 meses de escola, arriscar pegar a doença e também perder a convivência familiar. O meu filho mais velho diz que não voltar agora é dar sua contribuição para não espalhar o vírus. A mais nova oscila, fala que quer ver as amigas. A melhor amiga dela vai voltar e talvez tenha de enfrentar um problema, mas não penso em recuar. Respeito quem quer retornar, mas falta tão pouco para acabar o ano. Em 2021 tenho fé de que vamos começar a vacinar."  

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Alunos relembram último dia de aula, ainda em março, e falam de expectativa para volta

Depois de quase sete meses sem aulas, estudantes relatam saudade da escola; capital tem retorno de atividades extras em instituições de ensino a partir desta quarta-feira, 7

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2020 | 14h00

Os últimos dias de aula antes do fechamento das escolas e universidades por causa da pandemia do novo coronavírus, ainda no mês de março, foram marcados por vários sentimentos entre os alunos: incerteza, incredulidade, medo de contaminação e uma esperança de que tudo se resolveria em algumas semanas. Ninguém sabia direito o que era covid-19 e a palavra pandemia foi inserida abruptamente no cotidiano das pessoas. Depois de quase sete meses sem aulas, a saudade da vida estudantil é o sentimento mais comum entre alunos de escolas públicas e privadas de regiões distintas de São Paulo ouvidos pelo Estadão. Tem gente até com vontade de acordar cedo.

O fim da saudade vai seguir cronogramas diferenciados. Algumas escolas recomeçam as aulas nesta quarta-feira, dia 7outras decidiram aguardar mais uma semana e voltam apenas no dia 13 e a rede municipal só retorna em novembro. Existem instituições, como as universidades estaduais, por exemplo, que só vão retomar as aulas presenciais no ano que vem.

As lembranças específicas do dia da despedida antecipam o cenário de angústia que se instalaria nas instituições de ensino por causa da quarentena. O primeiro impacto foi a imagem das salas vazias, conta Manuela Nahas, estudante do 3º ano do Ensino Médio. "Poucas pessoas foram à escola e as salas estavam vazias. Muita gente ficou no pátio, conversando e tentando entender a situação", diz a aluna de 18 anos do Colégio Nossa Senhora das Graças, no Itaim Bibi, zona oeste, que retoma as aulas no dia 13. 

Aluna do 9º ano da Escola Municipal do Ensino Fundamental Raimundo Correia, em São Miguel Paulista, na zona leste da cidade, Raissa afirma que as pessoas foram "sumindo" aos poucos. "Pouca gente foi no último dia. As pessoas já estavam com medo. Os professores disseram que haveria aula no outro dia, mas falaram que não era bom para a gente ir porque era muito perigoso", diz a aluna de 15 anos. "Eu me lembro que a professora estava resfriada e não queria que ninguém chegasse perto dela. Ela estava com muito medo".

Giovanna Laroca Ciambra, outra aluna do último ano do Ensino Médio, diz que tudo parecia irreal. "Nada parecia verdade. Eu percebia todo mundo pensativo, só incertezas, inclusive entre os professores", diz a integrante do Colégio Equipe, também na zona oeste. "A última aula que tive foi de inglês. A professora botou músicas dos anos 80, falou sobre a adolescência dela no interior e disse para a gente não deixar o medo nos dominar", relembra a estudante que também voltará às aulas na semana que vem. 

Os relatos individuais estão inseridos na luta das autoridades contra a pandemia nas escolas. Em todo o Brasil, cerca de 44 milhões de crianças e adolescentes tiveram de deixar as salas de aula. Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) definiu a interrupção gradual das aulas na rede estadual no dia 16 de março. Foi o sinal vermelho para o funcionamento de 5,1 mil escolas que atendem 3,5 milhões de alunos. O governo recomendou a adoção da medida pelas escolas particulares para reduzir a circulação de pessoas e prevenir a transmissão do novo coronavírus.

Após cerca de seis meses, o retorno às escolas começou no dia 8 de setembro com atividades de reforço e acolhimento em alguns colégios da rede estadual e em instituições particulares nos municípios que autorizaram a reabertura. A previsão de retorno das aulas presenciais com conteúdo pedagógico é dia 7 de outubro, quarta-feira. No caso da capital, a Prefeitura de São Paulo autorizou a volta às escolas, tanto na rede pública quanto particular, na mesma data, mas só com atividades extracurriculares, como esportes, música e línguas. O retorno presencial está previsto para 3 de novembro.

A volta é polêmica. Delimitado por dezenas de medidas sanitárias, o retorno é considerado importante por especialistas em educação para garantir a aprendizagem e evitar a evasão. Essa retomada, porém, sofre resistência por parte dos pais e dos professores, além de uma parcela dos médicos, que vê risco de aumento do contágio. Há ainda a pressão das escolas particulares, principalmente as de educação infantil, que registram queda nas receitas.

Universidades

As principais lembranças dos estudantes universitários se referem à interrupção no processo de formação. A estudante de Direito Náryma Sanchez de Almeida, de 19 anos, nem chegou a ter o último dia de aula no câmpus da Mooca da Universidade São Judas. "Eu percebia muitas pessoas assustadas. Várias instituições discutiam a paralisação, mas não sabíamos que seria tão rápido. Numa segunda-feira, as aulas foram paralisadas", conta a aluna do 4º semestre. "Embora as aulas on-line sejam de qualidade, sinto muito falta das aulas presenciais".

Aos 21 anos, Gibson Souza, aluno do 8º semestre de Enfermagem da Universidade Anhembi Morumbi, teve de interromper o estágio obrigatório nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) da Ponte Rasa, Reunidas e em Teotônio/Planalto. As atividades foram retomadas no fim de setembro e a reposição será feita no início do ano que vem.

A retomada nas universidades está indefinida. As principais instituições estaduais (USP, Unesp e Unicamp) iniciaram um retorno gradual a partir das atividades administrativas e de pesquisa. Na USP, as aulas de graduação e de pós-graduação no segundo semestre continuarão a ser ministradas de forma remota, medida que deve ser adotada pelas demais. A PUC informa que "ainda não tem uma definição sobre a data de retomada das atividades presenciais". Já a Universidade Mackenzie enviou uma nota indicando que "está retornando de forma escalonada com as aulas práticas/laboratoriais".

Saudade

A palavra "saudade" surge em praticamente todos os relatos dos estudantes, sejam universitários ou do Ensino Médio. "Sinto falta de estar perto das pessoas, das atividades em grupos, de rir e conversar. Sinto falta de pequenas coisas, até daqueles alunos que falam demais quando respondem a uma pergunta em sala", brinca Enzo Simonato de Almeida, 17 anos, aluno do 3° ano do Ensino Médio no Centro Educacional Pioneiro, na zona sul, e que ainda não tem uma data definida para voltar às cadeiras da escola. 

Alguns estudantes sentem falta até de acordar cedo, pequeno "drama" para os adolescentes. É o caso da Manuela Nahas. Ela gostava de acordar às 6h30 para que a mãe a levasse de carro até o colégio, distante 15 minutos do seu endereço no Jardim Paulista. "Gosto muito do ambiente escolar", diz a estudante de 18 anos que participava do grêmio estudantil, coletivos e grupos de teatro da escola. Raissa concorda. Ela acordava às 5h45 para se arrumar com calma e caminhar por uns 20 minutos até a escola em São Miguel Paulista. Os portões se fechavam às 7h10. Sem as aulas presenciais, ela acorda por volta do meio-dia.

"Na situação que vivemos hoje, oposta à nossa rotina, nós vivemos de reminiscências boas e ruins. Os fatos negativos passam por um filtro depois de algum tempo e chegam para nós de forma amainada", diz Gerson de Moraes, filósofo e professor da Universidade Mackenzie.

O pensador aposta que esse fenômeno vai se repetir com a própria pandemia. "Hoje, existe grande insatisfação com o isolamento. Com o tempo, nossa memória deverá construir uma narrativa mais positiva, com as coisas novas que fizemos, por exemplo. Isso deve acontecer por meio de flashes e também pela memória coletiva, as lembranças compartilhadas que ajudam a formar a memória individual."

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