André Costa Nascimento
André Costa Nascimento

Nathalia Molina, Especial para O Estado

26 Junho 2018 | 03h00

Quando chegou ao fim do ensino médio no ano passado, André Costa Nascimento sabia bem onde queria fazer faculdade: nos Estados Unidos. O aluno de Valinhos, no interior paulista, já tinha experimentado o ambiente universitário americano em dois programas de verão. Com uma história completamente diferente, a advogada Renata Padrão tinha quase dez anos de formada e pós-graduação em Direito Civil Constitucional quando decidiu fechar seu escritório no Rio para fazer mestrado em Londres.

De modos distintos, os dois ilustram bem a procura crescente de brasileiros por programas em universidades estrangeiras. “O interesse por graduação, pós e MBA tem crescido nos últimos oito anos. Mas temos sentido um aumento mais expressivo desde 2015”, afirma Daniela Ronchetti, diretora operacional da FPP Edu-Media, empresa organizadora das feiras de intercâmbio EduExpo e EduCanada, com edição confirmada no segundo semestre em oito cidades brasileiras.

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Agências consultadas pelo Estado confirmam a tendência de crescimento do intercâmbio universitário. Embora o curso de idioma seja o produto mais vendido pelas empresas, programas em faculdades vêm conquistando estudantes, como aponta a Pesquisa Selo Belta 2018, realizada com dados de 2017 pelo grupo Mobilidade Acadêmica, do Departamento de Pesquisa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). A cada edição, a graduação sobe no ranking dos dez tipos de intercâmbio mais vendidos pelas empresas: do 8º lugar em 2015 para o 6º no ano passado. A pós-graduação stricto sensu (mestrado ou doutorado) aparece pela primeira vez na lista, no 10º lugar; lato sensu (incluindo MBA) ocupa a 9ª posição.

“Só vejo vantagens (no intercâmbio universitário). Estudar numa instituição que tem outra visão de mundo, ter acesso a laboratórios de ponta, leva a uma formação bem mais elaborada”, afirma Maura Leão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Intercâmbio (Belta), que responde por 75% do mercado de educação internacional no Brasil e que anualmente encomenda a pesquisa.

Preços competitivos. Para a diretora da Experimento Intercâmbio Cultural, Patrícia Zocchio, os valores cobrados no exterior contribuem para o crescimento. “O aumento se dá, principalmente, pela procura por uma experiência internacional de qualidade, além dos preços competitivos e da flexibilidade na escolha das matérias.” Segundo a Experimento, no exterior há valores próximos aos cobrados por instituições renomadas no Brasil: MBA na Glasgow Caledonian University, em Londres, desde 10 mil libras o programa (ou média de R$ 4.420 ao mês) e graduação na University of South Florida, em Tampa, apartir de US$ 15 mil o ano (ou cerca de R$ 4,9 mil por mês).

A vice-presidente do Student Travel Bureau (STB), Christina Bicalho, destaca que a segurança nos destinos estrangeiros também influencia na tendência. “Notamos que muitas famílias do interior, que antes mandavam seus filhos estudarem na capital, estão fazendo essa conta e optando pelo custo-benefício de uma universidade no exterior. Além de qualidade de ensino, é possível desfrutar de um ambiente seguro e da possibilidade de conquistar bolsas em universidades internacionais.”

++ Depoimento: ‘Voltei mais maduro e com visão objetiva’

Curso completo. Em busca dessa formação de excelência, André, o estudante de Valinhos do início da reportagem, escolheu sem titubear a graduação nos Estados Unidos. “Fui atrás de mais 12 universidades, mas queria mesmo a Carnegie Mellon University.” Aos 18 anos, começa em agosto a cursar Ciências da Computação na instituição da Pensilvânia. “Essa faculdade não é fácil. Eu tinha muita dúvida se iria passar”, conta o aluno, que teve apoio da Crimson Education, consultoria especializada na preparação de alunos para a candidatura em universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido. “O processo é bem longo. A Crimson me ajudou com as redações que mandei. Treinaram entrevistas comigo.”

Presente em 15 países, a Crimson chegou ao Brasil em agosto do ano passado, mas a gerente da operação no País, Laila Parada Worby, conhece bem o mercado nacional. Morando aqui há seis anos, Laila já passou pela Fundação Estudar (organização sem fins lucrativos que, entre seus programas, oferece bolsas para graduação e pós) e pelo Colégio Etapa, onde montou o escritório de orientação internacional para ajudar alunos à procura de faculdade no exterior. “As famílias estão se sentindo muito inseguras sobre o futuro do Brasil. Não querem que a formação abra portas só aqui, mas que esses alunos possam trabalhar lá fora”, afirma. “Tem ainda a questão da internacionalização do mercado de trabalho. Antigamente era suficiente ser fluente em inglês.”

A presidente da Belta também acredita que a situação econômica do País levou os brasileiros a investirem no curso no exterior. “Na crise, você não pode ficar parado, tem de ir atrás. Quando a economia retomar, a pessoa já está preparada”, diz. Um intercâmbio universitário traz de volta ao Brasil uma pessoa não apenas com um currículo melhor, mas também mais preparada emocionalmente, defende Maura. “Com a experiência de morar fora da sua cultura, o estudante desenvolve a parte de inteligência emocional, vira um profissional mais resiliente.”

Todos esses motivos — preço comparado a instituições renomadas do Brasil, diferenciação no currículo, crise econômica e experiência de vida — fizeram a carioca Renata largar tudo para fazer mestrado em Direito em Londres, na University of Westminster. “Paguei 13 mil libras o curso todo. Pesquisei na Inglaterra e no Brasil, e custava o mesmo”, diz a advogada de 32 anos, que resolveu tudo sozinha, do visto à universidade. “Não achei esse curso de resolução de conflitos no Brasil. Queria focar, do início ao fim, nesses métodos de mediação. Na minha opinião, é o futuro. A Justiça está abarrotada de processos.”

Na turma de 15 pessoas, havia dez nacionalidades. “Isso é maravilhoso, é um enriquecimento cultural. Você aprende a conviver com as diferenças. Todo mundo deveria fazer um curso fora.” Já na fase da dissertação, ela lembra dos desafios que encarou desde setembro de 2017. “Meu mestrado é full time, são dois anos em um. A carga de estudo é pesada. São muitas atividades e avaliações”, explica. “Você mora na biblioteca, tem mais horas lá do que de aula”.

++ Direito aliado a conhecimentos tecnológicos

Áreas e países. Mas os campos mais procurados pelos brasileiros para intercâmbio universitário ainda são Business, Marketing e Tecnologia, segundo Daniela. A diretora operacional da FPP Edu-Media conta que vem crescendo a participação de instituições estrangeiras nas feiras EduExpo e EduCanada. “O mercado brasileiro continua sendo o mais importante da América Latina, o que mais manda estudantes.”

Com o intuito de conquistar mais alunos aqui, chegou ao Brasil em junho a Spiible, startup australiana que trata de cursos no país da Oceania. No site, o aluno pode comparar opções e ler avaliações de outros estudantes. A startup ajuda ainda com a burocracia (pedido de visto e matrícula) e com a logística (voo e hospedagem).

Todo suporte ao estudante é oferecido também pela Campus France, agência governamental francesa com escritórios em cinco cidades brasileiras, que promove o ensino superior no país europeu. A anuidade em universidades públicas da França varia entre 200 e 400 euros, e nas privadas custa de 7 mil a 20 mil euros anuais, nas áreas de Engenharia, Artes e Gastronomia, por exemplo.

“Os Estados Unidos têm maior demanda, porém a Europa vem atraindo muitos brasileiros”, diz Humberto Costa, diretor de Universidades da CI Intercâmbio e Viagem. “Vejo países como Portugal e Argentina crescendo devido ao custo das universidades e de vida.” Graduação ou pós no Porto sai a cerca de 3 mil euros por ano.

De olho no interesse de brasileiros pelas universidades portuguesas, a Travelmate, franquia de intercâmbio, acaba de abrir um escritório no Porto. “Vimos a necessidade de atendimento presencial em destinos onde a procura por intercâmbio e programas de ensino superior é maior”, explica Maurício Buerger, responsável pela expansão da rede. Em cidades do exterior, a Travelmate mantém escritórios ainda na canadense Winnipeg e na australiana Brisbane, mas vende cursos para outros países também, como os Estados Unidos.

3 PERGUNTAS PARA... Maura Leão, presidente da Belta

1. Os países mais procurados por brasileiros para intercâmbio de uma forma geral são Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Irlanda. Para universidades, são os mesmos destinos?

Os Estados Unidos acabam liderando, eles se promovem no ensino superior há muito tempo. Apesar de o custo da universidade americana acabar sendo superalto, existe opção de bolsa e o país tem por volta de 4,7 mil universidades. É muita opção. Os outros países têm bem menos. O Canadá, por exemplo, deve ter cerca de 170 universidades. Os Estados Unidos são um país para ensino superior que ainda enchem os olhos dos brasileiros.

2. Como uma agência de intercâmbio pode ajudar o brasileiro a entrar em uma universidade no exterior?

Para concretizar o sonho de estudar fora, o aluno tem de juntar a vontade com a chance de poder fazer. Aí entra o papel do consultor. Se a pessoa tem ajuda, já sabe que tem de ter 110 pontos no Toefl (sigla em inglês para Teste de Inglês como Língua Estrangeira), por exemplo, para entrar nas três faculdades que quer.

3. Os processos de admissão em universidades mudam muito de acordo com o curso e o país?

Não é nada que vá ser extremamente diferente. Os próprios países têm interesse em receber estudantes, não querem criar impedimentos. A receita que o aluno internacional gera para o país é superalta. Então é mais ou menos padronizado: histórico escolar, nível de inglês adequado e provas. Aí que entra a principal diferença. Se for na área de Exatas, tem exames específicos, por exemplo. 

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O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 03h00

“Antes da pós, estudei inglês por 14 semanas pois não me sentia confortável em entrar direto nas aulas. Depois, fiz duas pós-graduações e um estágio no ano passado. A primeira foi em International Business Operations and Management, e a segunda, em Project Management. O estágio fiz em uma empresa de fusões e aquisições.

Nunca tinha feito intercâmbio. Minhas viagens ao exterior foram de férias. Tenho 46 anos, sou formado em Ciências Contábeis e tenho MBA em Gestão Financeira e Controladoria. Já tinha ideia do lugar e dos cursos, mas a STB foi determinante no processo de decisão, não só para mim, também para minha esposa. Sem contar a parte burocrática com a UC Irvine, que eles fizeram tudo. Só precisamos assinar o contrato e mandar os documentos.

A experiência (de fazer pós no exterior e levar a família) está sendo muito boa. No começo, é sempre um desafio, em relação à língua, à cultura, aos relacionamentos, à escola. Mas traz recompensas. Depois da adaptação, vem a fase gostosa de exploração. Começamos a conhecer a região e aproveitar o que tem de melhor: praia, montanhas, neve e parques de diversão.

O maior benefício que vejo, depois de quase dois anos aqui, é o ambiente seguro em que vivemos. Também tivemos a oportunidade de mostrar para nossos filhos, Julia, de 14 anos, e Vitor, de 8 anos, a importância dos estudos para a formação educacional e profissional. Passamos momentos divertidos como sairmos todos juntos com mochila nas costas para ir à escola.

Todos estão adaptados. Minha esposa também está estudando. Como é dentista no Brasil, precisa voltar para a universidade para validar o diploma. Decidimos ficar nos Estados Unidos, pois entendemos que podemos oferecer aos nossos filhos uma vida melhor do que no Brasil. Estamos morando em Irvine e estou trabalhando. Apliquei para uma autorização de trabalho chamada OPT (Optional Practical Training), que faz parte do programa de estudos. A ideia é você ter a oportunidade de pôr em prática o que aprendeu. O OPT dura 12 meses.” 

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O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 03h00

“Tenho 22 anos e faço intercâmbio desde os 13 anos. Durante o ensino médio, usei todas as férias para aprimorar idiomas e desenvolver habilidades profissionais e acadêmicas. Em 2010, fui para o Canadá com a escola; em 2011, fiz um mês e meio na Ross School, nos Hamptons de Nova York, de artes digitais, criação de vídeos e muita atividade física; em 2012, fui para Barcelona e Valência estudar espanhol; em 2013, fiz curso em Stanford com um projeto de sustentabilidade.

Estudei Administração e escolhi trancar a faculdade para fazer intercâmbio de seis meses nos Estados Unidos em 2016: quatro em um curso de business na High Point University, na Carolina do Norte, e o restante em Nova York, estudando inglês para o mercado de trabalho. Sempre tive vontade de estudar e trabalhar em diferentes países porque o grande aprendizado quando viajamos é o de lidar com outras culturas. Já participei de debates com pessoas com diferentes valores que não conseguiram fechar negócio por divergências de cultura. Outro grande aprendizado tem a ver com a grande zona de conforto que a maioria dos estudantes de escolas privadas vive. O intercâmbio faz com que a pessoa se torne mais independente, seja proativa e saiba lidar com os problemas por conta própria.

Antes de viajar, eu fiquei com muita dúvida sobre que país escolher. Fui para os Estados Unidos porque me identifiquei com a faculdade, mas a Europa é um lugar onde pretendo ainda fazer uma pós ou um curso especializado. Fiz toda a minha viagem e a documentação pela Experimento. Eu não tinha nem decidido o destino do intercâmbio quando fui à agência. Falei sobre meus gostos e o que esperava da viagem para meu consultor e ele me passou opções de lugares.

Os primeiros quatro meses fiquei em acomodação estudantil. Foi uma experiência muito bacana pois sempre vemos em filmes essas faculdades com fraternidades e o clima de faculdade americana é muito único. Nos dois últimos meses, fiquei em um dormitório de estudantes no Brooklyn, que mudou muito nos últimos anos e se tornou um bairro descolado.

Contando todos os ‘intercâmbios’ que fiz, são quase dois anos. Eles foram muito importantes para meu crescimento acadêmico e humano. Aprender com outras pessoas e culturas faz muita diferença no mercado de trabalho. O intercâmbio me tornou uma pessoa mais madura e interessante. Voltei para o Brasil com uma visão mais objetiva do que queria para a vida profissional. Hoje trabalho em uma empresa de big data e temos contato com pessoas de vários países. As oportunidades são muitas no mercado para quem está preparado para transformá-las em resultado.” 

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