Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Alegria e desconfiança marcam volta às aulas presenciais na rede estadual de SP

Escolas chegaram a abrir em setembro e outubro, mas recebiam poucos alunos; agora, terão até 35% dos estudantes, porcentual que pode aumentar nas próximas semanas

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 14h37

Com alegria por parte das crianças e desconfiança de pais e professores, escolas estaduais de São Paulo reabriram para aulas presenciais nesta segunda-feira, 8. As unidades foram fechadas em março do ano passado, chegaram a abrir em setembro e outubro, mas recebiam poucos alunos. Agora, terão até 35% dos estudantes, porcentual que pode aumentar nas próximas semanas.

Pela manhã, meninos e meninas testavam os protocolos sanitários na Escola Estadual Raul Antônio Fragoso, em Pirituba, que recebeu nesta segunda 121 alunos, dos 123 previstos para ir ao colégio. Um professor de Educação Física ensinava o distanciamento estendendo o braço, enquanto encaminhava os alunos de volta para a sala de aula.

Na hora do intervalo, as professoras com máscaras de pano e face shield pediam aos alunos para lavarem as mãos. As crianças abaixavam as máscaras na altura do queixo para comer. E a euforia, às vezes, dificultava o distanciamento.

Mostrando as duas máscaras de pano sobrepostas no rosto e a face shield, o diretor Deilson Fonseca, da Escola Estadual Padre Manoel da Nóbrega, na Freguesia do Ó, garantia que os protocolos estavam sendo cumpridos. Por volta das 11h40, ele se despedia dos alunos após o primeiro dia de aulas presenciais na rede estadual.

Ele não nega ter receio do retorno, mas tenta tomar o máximo de cuidado. "Medo eu tenho, mas me cuido. E pego no pé dos professores para usarem máscaras", disse Fonseca, enquanto um carro de som do sindicato dos professores passava pela escola chamando para a greve. Segundo Fonseca, não houve adesão à paralisação na escola onde trabalha e só docentes do grupo de risco faltaram. 

Nesta segunda-feira, sete escolas estaduais amanheceram fechadas antes mesmo de reabrir para aulas presenciais após casos de contaminação pelo coronavírus. Na semana passada, as unidades passaram a receber professores poara atividades de planejamento e alunos, para a entrega da merenda escolar. Um dos casos é de uma unidade em Ermelino Matarazzo, na zona leste, que teve duas pessoas com confirmação da doença e outras sete pessoas com sintomas. 

Larissa, de 10 anos, comemorava a volta às aulas após 11 meses, mesmo sem ter reencontrado as amigas, que ficaram em uma turma diferente do rodízio estabelecido para o retorno. "Foi legal. Até consegui terminar de escrever um texto", contou a menina, que só teve aulas de Língua Portuguesa nesta segunda-feira.  

Para garantir ocupação máxima de 35%, as escolas escalonaram os alunos. Em alguns casos, os estudantes frequentam a escola durante toda a semana e passam as duas semanas seguintes no ensino remoto. Em outros, vão à escola apenas alguns dias na semana.

Para Larissa, foi complicado estudar algumas matérias pela aula remota no ano passado. "Difícil aprender como arredondar os números e a ordem dos planetas", disse. O pai da menina não escondia o medo. "A expectativa é das piores, dado o cenário da pandemia, mas sei que a escola tem uma gestão diferenciada e montou um esquema de retorno", falou o empresário Adailton de Castro, de 50 anos.

A comerciante Luciane Hito, de 45 anos, não hesitou. Por volta das 13 horas, Antonella, de 8 anos, entrava na escola, correndo. "Ela está radiante", diz a mãe. No ano passado, a menina estudava em uma escola particular, que até conseguiu dar aulas remotas, mas não com a mesma qualidade. Luciane acabou transferindo a menina para a rede pública. "O pai dela acha que a escola nunca deveria ter parado."

Pela janela  - já que a reportagem não pode entrar na escola -, era possível ver uma classe com apenas duas crianças e marcações nas carteiras para garantir o distanciamento. De máscara, a professora tentava explicar aos estudantes o que eram pessoas sintomáticas e assintomáticas. Também contava por que a máscara protege do coronavírus, um bichinho que "voa" em direção às pessoas quando a proteção não é usada. 

Na secretaria da escola, pais faziam fila às 13 horas para entender como será o retorno presencial e alguns apontavam desinformação.

Papéis em um mural indicavam a distribuição das turmas presenciais, mas Edineide da Franca, de 36 anos, não queria nem saber disso. "Vim aqui saber se o retorno é obrigatório porque não quero levar minha filha."

Sophia, de 7 anos, teve dificuldades na aprendizagem. Segundo a mãe, a menina lia um texto completo e agora já não consegue mais. Também diz sentir saudades do ambiente escolar. Edineide, no entanto, tem medo de que Sophia seja infectada pelo coronavírus na escola e passe a doença para a família. Por isso, barrou o retorno, pelo menos até que vacina cubra uma parcela maior da população. 

"As escolas não têm funcionários, faltam muitas coisas, não tenho garantia", diz a mãe, hipertensa.  Ela reclamava também de dificuldades de acesso ao Centro de Mídias, plataforma usada pelo governo de São Paulo para transmitir as aulas. Segundo conta, teve o acesso negado este ano, problema que não ocorria no ano passado. Outra mãe também apareceu na secretaria da escola para relatar a mesma situação. 

Já Luiz Dimas, de 59 anos, foi até a escola para saber quais os dias marcados para o retorno de Clayton, de 10 anos. Segundo o pai, a aula pela internet foi difícil e o menino não conseguiu aprender muita coisa - percepção que Clayton confirma sacudindo as duas mãos, para cima e para baixo, para dizer que a aula remota foi "bem mais ou menos".

"Quero voltar para ver meus amigos", diz o menino, que descobriu nesta segunda seu novo turno na escola, animado. "Ele tem de retornar porque em casa não acompanha as aulas pelo YouTube, mas deviam vacinar primeiro os professores", diz o pai. "Vamos ter de entregar nas mãos de Deus."

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