Reprodução/Universidade de Lisboa
Reprodução/Universidade de Lisboa

Estudantes portugueses oferecem pedras para colegas atirarem em alunos brasileiros

Cartazes na Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa incitam violência contra estudantes do Brasil; grupo de estrangeiros faz manifestação contra xenofobia

Luciana Alvarez, Especial para o Estado / Portugal

29 de abril de 2019 | 18h41

LISBOA – Um cartaz xenófobo contra estudantes brasileiros abriram uma crise nesta segunda-feira, 29, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (UL), a mais tradicional instituição de formação de advogados de Portugal. Os dados oficiais apontam que, dos 5.488 alunos da Faculdade de Direito, 1.227 são brasileiros.

Um grupo de estudantes portugueses colocou um cartaz oferecendo pedras grátis para atirar em alunos brasileiros. "Grátis se for para atirar a um zuca (que passou à frente no mestrado)", dizia o cartaz sobre uma caixa com pedras. Zuca é uma gíria para se referir a brasileiros. Estudantes estrangeiros prometem uma grande manifestação na porta da faculdade na quinta-feira, 2 de maio, para pedir medidas contra a xenofobia.

Na tarde desta segunda, a estudante brasileira Flora Almeida, que faz mestrado em Direito Fiscal na UL, viu a suposta brincadeira. “Primeiro, fui falar com eles, questionar, mas me disseram que era uma piada. Então tirei foto, para mostrar nos grupos que faço parte. Depois até quiseram me ‘explicar’, mas eu disse que precisavam se explicar para a direção da faculdade.”

A direção da faculdade pediu a retirada imediata do cartaz e divulgou uma nota que, apesar de reafirmar o respeito da instituição à “diversidade cultural, étnica e de proveniência”, dizia que a faculdade convive com “a autocrítica, o humor e a sátira”, sem citar medidas disciplinares.

O caso, contudo, chegou até o reitor da universidade, António Cruz Serra, que anunciou à agência Lusa a instauração de um processo disciplinar. A direção da faculdade de Direito marcou para a manhã de terça-feira uma reunião com os representantes discentes dos brasileiros.   

“Este é mais um episódio de xenofobia de portugueses contra alunos estrangeiros. Os ânimos ficaram acirrados hoje, mas estamos satisfeitos com a resposta da Universidade”, afirmou Elizabeth Matos Lima, aluna de mestrado da instituição e presidente do Núcleo de Estudos Luso-Brasileiros (Nelb). 

Estudantes brasileiros queixam-se da discriminação também por parte de docentes. “Teve um professor que humilhou uma turma inteira, dizendo que os brasileiros não eram comprometidos, que só querem viajar e passear. Felizmente ele acabou suspenso”, relatou um aluno. 

Histórico

Elizabeth explica que a tensão entre portugueses e brasileiros tem sido crescente, sobretudo nos últimos dois anos, por causa de um forte aumento da presença de alunos de mestrado e doutorado vindos do Brasil.

"É comum que nas turmas de mestrado, de 15 alunos, de 10 a 13 sejam brasileiros", conta. Segundo ela, professores da graduação da faculdade local são muito rigorosos nas notas. Na seleção para o mestrado e doutorado, na análise do histórico escolar, os brasileiros em geral têm notas muito superiores e ficam com as vagas. A universidade é pública, mas cobra mensalidade. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.