Bruna Grassi| UC
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Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2018 | 03h00

Quando pôs os pés em Portugal, Ludmilla Blaschikoff, de 26 anos, tropeçou na língua. Mas não demorou para que a jovem, de Manaus, se acostumasse ao chiado do sotaque lusitano. Quatro anos após cruzar o Atlântico, a estudante, uma das primeiras brasileiras a entrar em um curso superior no país com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), comemora o fim da graduação em Biologia e já engatou um mestrado. 

Ludmilla viu os corredores da Universidade de Coimbra, onde fez a licenciatura, se encherem de conterrâneos. “No início, os portugueses tinham mais curiosidade de conversar comigo porque não era comum ter brasileiros na universidade. No último ano, já não via muito esse interesse.”

A percepção da jovem pode ser traduzida em estatísticas. Em três anos, o número de brasileiros em cursos de graduação em Portugal cresceu 31%, segundo dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, órgão do governo português. No ano letivo de 2016/2017, último dado disponível, foram 4.901 ingressantes brasileiros em instituições de ensino superior portuguesas para licenciaturas (como são chamadas os bacharelados) ou mestrados integrados (cursos de 5 anos, como os de Engenharia e Arquitetura). 

O número só não é maior do que o registrado no ano letivo de 2012/2013, quando o Brasil, que ainda não estava em crise, exportou centenas de estudantes ao país pelo Ciência sem Fronteiras, do governo federal. Em 2013, Portugal foi excluído do programa, o que fez com que o número despencasse. Hoje, brasileiros são maioria entre estrangeiros em Portugal - mais até que os vizinhos espanhóis. 

A facilidade de ingresso - com a nota do Enem - ajuda a explicar o fenômeno. Em 2014, um decreto português passou a regulamentar a entrada de estudantes estrangeiros para cursos completos de graduação no país. E, depois disso, o Brasil faz parcerias com universidades de Portugal para que o desempenho no exame seja usado como critério de seleção. 

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), hoje 31 instituições portuguesas consideram a nota do Enem em pelo menos parte do processo de seleção e outras sete pleiteiam o acordo. Desde 2014, mais de 1,8 mil usaram o teste para se tornarem alunos de graduação no país europeu. 

A tradicional Universidade de Coimbra, a portuguesa com mais brasileiros, celebra. Joaquim Ramos de Carvalho, vice-reitor para relações internacionais, diz que a presença de estrangeiros enriquece a vivência universitária. “É estratégico ter uma população estudantil internacional residente. (Quem estudou na) universidade nos últimos quatro anos teve oportunidade de encontrar estudantes de 126 países diferentes, 9% deles brasileiros.” 

Para Luis Ferreira, vice-reitor da Universidade de Lisboa para relações internacionais, o convênio com o Enem “promoveu maior exposição do ensino superior português no Brasil.” 

Oportunidade. Aluno do 3.º ano do Colégio Etapa, na zona sul de São Paulo, Lucca Pagnan, de 17 anos, quer estudar Engenharia no exterior e coloca Portugal no topo da lista de preferências. “Lá, consigo usar uma prova de fácil acesso, que é o Enem, para ter qualidade de vida e de ensino.” Antes mesmo de fazer o exame, ele estuda os sites das instituições e participa de feiras organizadas pelo colégio. “Quero entrar na Universidade do Porto”, conta. 

O idioma, a menor duração dos cursos - alguns levam só três anos - e a porta de entrada para o mercado de trabalho na Europa também motivam brasileiros a migrar. E, apesar de haver cobrança de anuidades mesmo nas universidades públicas em Portugal, o curso pode sair mais em conta do que uma faculdade particular brasileira. 

Um ano de um curso de Engenharia no Brasil, por exemplo, custa, em média, R$ 13,3 mil, segundo o Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior. Em faculdades de ponta de São Paulo, o valor sobe para R$ 30 mil. Já na Universidade do Porto (U.Porto), onde Lucca quer estudar, a anuidade é de 3 mil euros (R$ 12,7 mil). 

A U.Porto dá 50% de desconto para brasileiros, mas há instituições que cobram até o triplo para quem não é da União Europeia. O brasileiro com cidadania de um país do bloco tem direito ao valor mais baixo. 

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Estudantes brasileiros em Portugal elogiam estrutura, mas reclamam de ‘panelas’

Alunos encontram boas escolas, mas falta de debate em sala e pouco contato com portugueses incomoda

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2018 | 03h00

Habituada às greves na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Brenda Brito, de 25 anos, tinha pelo menos uma certeza quando começou a estudar Comunicação na Universidade do Algarve (UAlg), no sul de Portugal, em 2016: a de que o curso terminaria no tempo certo. Brenda voltou a fazer o Enem após desistir da graduação em Arquitetura na UFPB e, com a nota, conseguiu uma vaga na instituição portuguesa. 

“Em estrutura, a universidade é muito boa. Tem restaurante universitário, cadeiras em dia.” Mas Brenda vê diferenças na metodologia das aulas - com menos debates - e dificuldade de integração entre brasileiros e portugueses. “Fazemos trabalhos de grupos com brasileiros. Os portugueses são fechados”, diz. 

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Fillipe Maya, de 19 anos, estudante do 1.º ano de Bioengenharia na Universidade do Porto, no norte do país, tem percepção parecida. Na turma de 80 alunos, é um dos cinco brasileiros e se relaciona mais com os conterrâneos e estrangeiros não portugueses.

Também sente o distanciamento na relação entre professores e alunos. No início do curso, estranhou a cobrança de cálculo, que não aprendeu no ensino médio. “Ofereceram curso de nivelamento nas primeiras semanas para conseguirmos acompanhar”, lembra. 

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Apesar dos desafios, o estudante, do Tocantins, elogia a universidade e destaca a segurança na cidade. Embora tivesse nota suficiente para cursar Engenharia de Petróleo na Universidade Federal Fluminense (UFF), ele escolheu a experiência internacional e não se arrepende. “Minha mãe até falou: ‘Mesmo mais longe, fico mais tranquila que você esteja em Portugal do que no Rio.”

Reitor da UAlg, o professor Paulo Águas destaca a oportunidade de contato multicultural na instituição. “Todos os anos, a UAlg organiza uma semana de acolhimento para os estudantes internacionais.” 

Vice-reitora da Universidade do Porto para as Relações Externas e Cultura, Fátima Marinho define os estudantes brasileiros como empenhados e diz que a instituição “tenta integrá-los, fazendo-os sentir em casa.”

Critérios. A escolha de uma universidade no exterior deve ser precedida de muita pesquisa. É o que defende Andrea Tissenbaum, especialista em educação internacional e autora do Blog da Tissen, no site do Estado. “(Os alunos) têm de entender quem está dando aula no lugar para onde querem ir e o que esse lugar traz de inovação.” 

Para ela, Portugal tem áreas fortes como Direito, Engenharia, Arquitetura, Economia, Business, Literatura e Sociologia. E outras nem tanto, como Design, Publicidade e Propaganda e Marketing. “Não é por ser estrangeiro que é melhor do que o nosso. Temos excelentes graduações no Brasil.”  

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