Taba Benedicto/ ESTADAO
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Enem 2020: Candidatos são barrados na hora da prova por superlotação de salas

Estadão revelou que planos de aplicação envolviam espaços com proporção de alunos acima da prevista pelo governo

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 15h32
Atualizado 17 de janeiro de 2021 | 22h51

Candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foram barrados na entrada de locais de prova neste domingo, 17. Estudantes de pelo menos três Estados disseram que os aplicadores alegaram superlotação de salas. Isso ocorreu após questionamentos na Justiça sobre a capacidade do governo federal de garantir o distanciamento de alunos durante o teste. O Estadão revelou que as os planos incluíam salas com até 80% de ocupação, acima dos 50% previstos pelo Ministério da Educação (MEC).

Dezenas de alunos que fariam o Enem na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foram orientados a voltar para casa. Houve formação de filas e funcionários da Cesgranrio, fundação que organiza a aplicação do exame, fizeram uma lista com os nomes de quem não pôde entrar nas salas com a promessa de que poderiam realizar o teste em fevereiro.

Na terça-feira, 12, a UFSC comunicou o Inep e a Cesgranrio sobre o risco de lotação das salas e questionou o plano de aplicação das provas, com 80% de ocupação. Segundo a universidade, a condição para ceder espaços no câmpus localizado no bairro Trindade era um limite máximo de 40% de ocupação das salas.

Na sexta, 15, a instituição reformou o comunicado e emitiu uma nota alertando para risco de aglomeração e permanência de muitas pessoas em um único espaço por longo período. “A responsável na portaria explicou que hoje às 10h30, a capacidade máxima mudou para 50% por sala. Então, muita gente não conseguiu entrar e a prova vai acontecer junto com Manaus, talvez em fevereiro. E eles ao invés de avisar isso, deixaram todo mundo aglomerado na fila”, contou o candidato Marlon Jacinto, de 23 anos, que faria a prova no Centro Socioeconômico, da UFSC.

Ele disse que os fiscais anotaram o CPF dos impedidos de entrar e disseram que o Inep entraria em contato informando uma nova data para a realização da prova. O estudante de Direito da UFSC, Gregory Fernandes, de 21 anos, relatou situação semelhante. Ele faria o Enem apenas para testar seus conhecimentos no Centro de Comunicação e Expressão da UFSC Trindade, mas foi impedido de entrar ao chegar no local da aplicação.

“Se a gente chegasse na sala e já estivesse lotada pelos parâmetros adotados, eles barravam a gente na porta. Eles disseram que a minha sala já estava preenchida”, contou. A recomendação que o estudante recebeu foi para esperar as notas oficiais do MEC sobre o caso ocorrido na universidade e uma nova data para realização da prova. 

O problema se repetiu no prédio da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, um dos locais de Porto Alegre que mais recebem estudantes para prestar o exame. Helena Meira, de 19 anos, chegou à sala onde deveria fazer a prova às 12h40, 20 minutos antes dos portões se fecharem. Entretanto, não pôde realizar o exame porque foi informada por um dos fiscais que o limite de pessoas da sala tinha sido extrapolado.

Pega de surpresa, ela se mostrou preocupada em não poder realizar a prova. "Me disseram que eu teria de ligar para o 0800 e informar que não pude fazer a prova, e então remarcar para fevereiro." Para Helena, a fiscal garantiu que ela não receberia falta, e não seria impedida de prestar o Enem em outra data. "Fui pega de surpresa, pois cheguei com antecedência e mesmo assim não pude fazer a prova", relata a jovem.

A superlotação das salas virou até caso de polícia em Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, onde cerca de 30 estudantes barrados registraram boletim de ocorrência sobre o problema. "Entrei em pânico, comecei a chorar. Quando saí na rua, tinha um monte de estudante chorando, apavorado. Eu também estava muito mal e ninguém estava entendendo nada do que estava acontecendo", contou Anna Carolina Lau, de 19 anos.

"(Os aplicadores) falaram que até ontem (sábado) à noite estavam contando que seria 80% de ocupação e receberam ontem à noite do Inep que seria 50% de ocupação, por isso não conseguimos entrar. Me preparei para a prova, acordei às 7 horas da manhã porque estava nervosa, e recebi a notícia de que meu ano inteiro até agora não está valendo para nada."

Em Curitiba, a aluna Giuliani Carta, de 18 anos, foi impedida de realizar a prova, mas conseguiu reverter a situação, após informar o pai, o advogado Osmar Carta, de 48, sobre o que havia acontecido. “Tão logo ela me comunicou, eu entrei em contato com o responsável para saber de quem havia partido essa orientação ou se entregariam algum documento que comprovasse sua presença'', disse Carta. 

Segundo ele, outro colaborador que estava acompanhando as provas conseguiu remanejar Giuliani para outra sala. “Infelizmente casos assim geram um nervosismo a mais para os estudantes”, concluiu.

Escola de SP tem sala cheia, diz estudante

Em outros casos, os estudantes não foram impedidos de entrar nas salas, mas fizeram provas em espaços cheios, sem possibilidade de distanciamento mínimo recomendado para conter o coronavírus. Um cartaz na Escola Estadual Caetano de Campos, no centro da capital paulista, indicava a recomendação de manter distanciamento de dois metros.

Mas não foi isso o que ocorreu na sala estudante Ellen Rezende, de 19 anos. Os aplicadores colocaram nas salas número de carteiras abaixo do de inscritos para aquele local, de modo a garantir o distanciamento. Na maioria das salas, o número de carteiras foi suficiente já que muitos alunos faltaram. A classe de Ellen, porém, encheu.

"Foram chegando mais alunos até que a sala encheu e tiveram de colocar mais carteiras. Tinha gente do meu lado, à frente e atrás. Faltaram ainda 8 pessoas. Foi um absurdo", disse. A sala estava prevista para 33 estudantes. "Eu queria sair o mais rápido possível, não estava aguentando ficar na sala com muita gente."

A classe tinha 27 pessoas, incluindo os dois aplicadores e, segundo Ellen, não foi possível manter distância nem de um metro entre as carteiras. 

Presidente do Inep diz que não houve problemas sanitários

Em coletiva de imprensa neste domingo, o presidente do Inep, Alexandre Lopes, afirmou que não houve problemas sanitários em nenhum local de aplicação. Sobre os alunos barrados, ele afirmou que os casos ocorreram em 11 locais de provas das cidades de Florianópolis, Curitiba,  Londrina (PR), Pelotas (RS), Canoas (RS) e Caxias do Sul (RS).  

Disse ainda que os estudantes que se sentiram prejudicados podem solicitar a reaplicação da prova na Página do Participante. As atas das salas de aula serão avaliadas pelo instituto. 

"Em relação a alguns relatos de pessoas que foram até o local de prova e não conseguiram fazer, foram 11 locais de provas, dos 14.447. Nenhum participante será prejudicado. Qualquer particpante que se sentiu prejudicado, em qualquer lugar do Brasil, pode, a partir de 25 de janeiro, solicitar a reaplicação em 23 e 24 de fevereiro", disse./ FÁBIO BISPO, EDUARDO AMARAL, ILANA CARDIAL, JÚLIA MARQUES, LUIZ CARLOS PAVÃO e VINÍCIUS VALFRÉ

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