Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Enem 2020: Aplicadores recebem plano de sala com 30 alunos e ocupação acima da prevista pelo Inep

Gestores também relatam solicitação de salas para nº de estudantes superior ao ideal para garantir distanciamento; Justiça negou adiar prova prevista para o domingo

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 11h00

Aplicadores do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) relatam planos de ocupação superior a 30 estudantes nas salas onde a prova será realizada neste domingo, 17. Um dos comunicados aos quais o Estadão teve acesso, por exemplo, inclui a previsão de alocar em uma escola 32 candidatos em espaços com capacidade para 40 alunos - redução abaixo do patamar de 50% prometido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC). Os colaboradores relatam insegurança com os protocolos para evitar a transmissão do coronavírus. Com 5,7 milhões de candidatos, o Enem teve a segurança sanitária questionada na Justiça

A reportagem ouviu aplicadores dos Estados de Amazonas, Rio, Pará, Minas, Rio Grande do Sul e Piauí em sigilo, além de secretários da Educação de três Estados. Uma cláusula na contratação para aplicar a prova proíbe o detalhamento dos procedimentos a terceiros. A reportagem também teve acesso a trocas de mensagens entre aplicadores e coordenadores locais e ao manual dos chefes de sala e fiscais de prova.

Nos últimos dias, o Inep tem destacado que vai garantir o distanciamento entre candidatos nas salas, mas não respondeu às perguntas do Estadão sobre a ocupação de salas. Nesta quinta, o presidente do Inep, Alexandre Lopes, disse em entrevista ao Uol que as salas de aplicação terão "20, 30 pessoas". "Quem fez (vestibular da) Unicamp e USP sentou em sala com 20,30 pessoas. Assim como vai fazer o Enem em sala de 20, 30 pessoas." A Fuvest determinou ocupação de 40% das salas e a Unicamp dividiu os inscritos em dois dias. 

Em um dos casos, em Manaus, uma jovem que participaria da aplicação do exame abandonou o serviço após a coordenadora do local de prova indicar que as salas com capacidade para 40 alunos seriam usadas por 32. O documento com a distribuição dos alunos por sala foi compartilhado no grupo de aplicadores na internet depois que alguns colaboradores, preocupados com os protocolos, questionaram sobre a ocupação das salas. Nesta quinta-feira, 13, Justiça Federal barrou a aplicação da prova no Amazonas por causa do avanço de infecções e mortes no Estado. 

Em outro, o coordenador de local de prova no interior do Piauí afirmou à representante da escola, uma servidora pública responsável por apoiar os fiscais no dia do exame, sobre a impossibilidade de garantir o distanciamento entre os candidatos. “Sugeriram 2 metros de distanciamento, mas vai ser impossível, porque colocaram 32 alunos por sala", disse ele, em mensagem à colaboradora compartilhada com a reportagem. 

Ela não pensa em desistir do apoio ao exame no próximo domingo, mas diz ter receio. “Minha preocupação é com as pessoas dentro das salas de aula”, afirmou. Segundo conta, as salas da escola pública onde trabalha não comportam 32 pessoas com o distanciamento de 2 metros recomendado. O manual dos chefes de sala indica que as carteiras devem ser organizadas “com espaço frontal e lateral de dois metros entre elas, para respeitar as regras de distanciamento social”. 

Ao Estadão, o secretário de Educação do Rio Grande do Norte, Getúlio Marques, afirmou que diretores de escolas cedidas para o exame procuraram a gestão estadual e relataram solicitação de classes para 30 alunos. “Algumas comunicações que chegaram da Cesgranrio (empresa que faz a aplicação da prova) pediram para (diretores de escola) preparar logística para sala com 30 alunos. E colocamos essa dificuldade, de que com 30 alunos a nossa legislação nem permite", diz ele, em referência às normas em vigor, que restringem reuniões ao máximo de 15 pessoas, para reduzir o risco de contágio pela covid. 

O plano de retorno das aulas em fevereiro na rede estadual do Rio Grande do Norte também prevê 15 alunos, no máximo, nas salas de aula. Segundo Marques, o Inep "alega que historicamente há uma abstenção de cerca de 27%”. Na sexta-feira, 8, Marques encaminhou ofício ao MEC pedindo o adiamento do exame. Na edição passada, o Enem registrou ausência de 23,1% candidatos no primeiro domingo de provas. 

O titular da Educação na Bahia, Jerônimo Rodrigues, também fez essa solicitação em dezembro. Segundo ele, as salas de aula da rede comportam em torno de 40 alunos. “Ouvi de uma escola do município de Camaçari (a 40 km de Salvador), a possibilidade de colocar 32 estudantes", disse o secretário ao Estadão. Entendemos que vai haver aproximação entre um estudante e outro." Os Estados não participam da escolha de salas ou definições logísticas sobre o exame, mas escolas da rede podem ser usadas para o Enem. 

Outro secretário, ouvido pela reportagem sob condição de anonimato, também diz que aplicadores em seu Estado receberam solicitação para salas com 25 a 30 alunos. A justificativa dada aos colaboradores pelos responsáveis pela aplicação da prova, de acordo com ele, é que a abstenção alta iria garantir o distanciamento em sala. 

Em comunicados oficiais, o Inep estima que serão usadas 205 mil salas, em 14 mil pontos de aplicação neste ano. Em 2019, o Enem foi aplicado em 145 mil salas de aplicação, em cerca de 10 mil locais de prova. O número de inscritos na prova saltou de 5,1 milhões para 5,7 milhões.

Nesta semana, secretários de Saúde e entidades científicas se manifestaram pedindo o adiamento do exame, sob o argumento de que há risco para a saúde e de que a prova está marcada em um momento de agravamento da pandemia no País. Um ofício encaminhado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) destaca que "as salas devem ter cerca de 50% de ocupação, o que deve significar uma média de 30 alunos por sala" e que a permanência por mais de cinco horas neste ambiente aumenta o risco de transmissão. 

Dúvidas sobre máscaras

Outros aplicadores ouvidos pelo Estadão dizem não saber o número de alunos nas salas onde vão aplicar a prova nem como será feita a medição do distanciamento - eles esperam esclarecimentos no próprio domingo, 17. “A escola deste ano é a mesma em que trabalhei em anos anteriores. Acho a sala pequena para o desafio do distanciamento, e as janelas não são tão grandes”, disse a chefe de sala em uma escola estadual em Ananindeua, no interior do Pará. 

“Espero que sejam menos de 30 alunos. Isso é o que mais me deixa angustiado”, comentou um jovem, que vai participar da aplicação em uma faculdade particular em Porto Alegre. Também há dúvidas sobre as máscaras. Os fiscais e chefes de sala terão de trocar a proteção facial três vezes, às 11h30, às 14h30 e às 17h30. Eles devem receber máscaras, mas não sabem o modelo.

“Espero que sejam cirúrgicas ou N 95. De toda maneira vou levar as minhas”, disse uma chefe de sala, em um município do norte de Minas. Os candidatos também têm de ir de máscara, mas terão de retirá-las rapidamente na entrada da sala para identificação. Será permitido comer dentro do local de prova. 

Quem vai trabalhar na prova passou por capacitação online de 20 horas no total. Os módulos deste ano incluem instruções sobre a covid. Em relação à ventilação da sala, o documento indica como tarefa dos aplicadores “quando for possível, abrir as portas e janelas das salas, para priorizar a ventilação natural, e mantê-las abertas durante toda a aplicação”.

Os aplicadores têm receio de que nem todos compartilhem os mesmos cuidados antes das provas. “Acho que o curso foi todo baseado no senso comum de que estávamos isolados”, diz a jovem do interior mineiro. Nas vésperas do exame, ela recebeu a informação de que colegas de aplicação estariam em festas no fim de semana. “Não estou segura de ir.” Não é prevista a testagem dos profissionais que participam da aplicação nem medição de temperatura dos candidatos na entrada da prova. 

Procurados para comentar sobre a ocupação das salas do Enem e sobre o motivo da previsão de 32 estudantes em salas com capacidade para 40 alunos, o Inep e o MEC não responderam. O Estadão também questionou se o órgão conta com a abstenção de candidatos para garantir o distanciamento ou se esse distanciamento será respeitado mesmo em escolas sem registros de faltas de estudantes, mas não obteve resposta. A reportagem não conseguiu contato com a Cesgranrio. 

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