Vinicius Amstrong/Estadão
Vinicius Amstrong/Estadão

Contra xenofobia, estudantes brasileiros em Portugal distribuem flores e poesias

Universitários em Lisboa e Porto fazem manifestações três dias após cartaz sugerir apedrejamento de mestrandos

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

02 de maio de 2019 | 18h14

LISBOA – Três dias após estudantes portugueses da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (UL) terem feito um cartaz xenófobo sugerindo que se atirassem pedras em mestrandos brasileiros, estudantes brasileiros em Portugal fizeram manifestações contra a xenofobia, distribuindo flores e poesias. Os atos aconteceram na própria UL e também na Universidade do Porto, no norte do país. 

Na segunda-feira, em um corredor da faculdade, o grupo satírico denominado Os Marretas colocou um cartaz sobre uma caixa de pedras com os dizeres "Grátis se for para atirar a um zuca (que passou à frente no mestrado)". Zuca é uma gíria para se referir a brasileiros.

No mesmo dia, estudantes brasileiros denunciaram o ato à direção da faculdade, que mandou retirar o cartaz. O caso ganhou grande repercussão e chegou até o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, que divulgou uma nota de repúdio à ofensa. O embaixador brasileiro em Portugal também entrou em contato com a UL pedindo explicações.

Como forma de se manifestarem contra a xenofobia, dezenas de alunos brasileiros da UL se reuniram na tarde desta quinta-feira na Faculdade de Direito, oferecendo flores em vez de pedras. "Ficamos muito tristes com o que aconteceu, mas foi um grupo pequeno que fez isso. De forma geral, somos bem recebidos", afirmou Elizabeth Matos Lima, aluna de mestrado e presidente do Núcleo de Estudos Luso-Brasileiros (Nelb), que representa os estudantes do Brasil na UL. 

Alguns estudantes brasileiros da Universidade do Porto também promoveram um ato para chamar a atenção contra xenofobia no ambiente universitário. Eles encheram um caixa com poesias de artistas brasileiros para distribuir a professores e outros alunos da universidade. "Cheguei aqui faz três meses e não senti nenhum acolhimento por parte dos portugueses. Não me aceitam para trabalhos em grupo, não me ajudam quando tenho alguma dificuldade burocrática", conta Jacqueline Rezende, que estuda Sociologia. "Mas o ato de hoje surtiu um efeito positivo, eles se aproximaram, se interessaram pela nossa cultura".

Resposta

Até o momento, a Faculdade de Direito da UL apenas instaurou um inquérito administrativo para apurar o caso. "Vamos acompanhar de perto, mas a direção está se mostrando inclinada a dar uma resposta firme", afirmou Elizabeth, do Nelb. Na terça-feira, foi feita uma reunião entre direção da faculdade, os autores do cartaz e alunos brasileiros, na qual havia sido acertado que eles se retratariam. Os integrantes dos Marretas divulgaram ontem um extenso comunicado no qual dizem reconhecer que a xenofobia é um problema "real e gritante" e "expressam a sua admiração pelos alunos luso-brasileiros e brasileiros que ergueram a sua voz para lutarem contra a xenofobia". Eles, contudo, não se retratam,  alegando que houve uma "interpretação errônea" do ato.

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