Werther Santana/ESTADÃO
Werther Santana/ESTADÃO

Volta às aulas presenciais na rede municipal de SP tem clima de 'fase de testes'

Ansiedade tomou conta de pais e alunos na Escola Municipal de Educação Infantil São Paulo, na Vila Clementino

Gonçalo Júnior, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2021 | 11h07

SÃO PAULO - Com o “coração apertado” e preparados para uma “fase de testes”, milhares de pais enviaram seus filhos para 3,5 mil escolas da rede municipal de São Paulo, 92% do total, na retomada das atividades presenciais nesta segunda-feira, 15. O retorno será gradual e facultativo. As escolas só poderão receber 35% dos estudantes, com rodízio entre os alunos e a manutenção do ensino remoto para os que não estiverem na escola. Na escola, valem as regras que já foram incorporadas à rotina da pandemia, como distanciamento físico e "não" às aglomerações. 

As escolas da cidade suspenderam as aulas presenciais em 23 de março de 2020 por conta da pandemia da covid-19. Desde lá, as instituições só puderam receber alunos para atividades extracurriculares. A rede municipal retoma as atividades presenciais duas semanas após o retorno das escolas privadas. Ao todo cerca de 1 milhão de estudantes estão matriculados em quatro mil estabelecimentos de ensino. 

O secretário municipal de Educação Fernando Padula afirma que o momento ainda é de incerteza, mas acredita que as escolas vão preencher o número permitido de 35%. Pesquisa no portal da secretaria municipal com 591 mil famílias aponta que 66% dos pais são favoráveis ao retorno

Aqueles que preferirem não frequentar o ambiente escolar devem fazer as atividades na plataforma Google Sala de Aula ou em outros meios disponíveis. “Nós ainda vivemos um momento de incerteza. Talvez alguns pais ainda aguardem um pouco para mandar os alunos, mas temos o porcentual de 66% que são favoráveis ao retorno”, diz o secretário.

O porcentual de ocupação de 35% será mantido pelo menos até o final de fevereiro, quando a pasta fará uma reavaliação juntamente com a Secretaria de Saúde. Atualmente, a capital vive a fase amarela do Plano São Paulo de flexibilização e, portanto, poderia receber até 70% dos alunos. 

Em caso de alcance do número máximo de interessados por turno, terão prioridade as crianças com maior idade, irmãos matriculados na mesma unidade e crianças em situação de vulnerabilidade. Na educação infantil, não haverá revezamento. Essa organização ficará a critério de cada unidade. 

De acordo com a Prefeitura, 530 escolas devem retomar as atividades presenciais entre os dias 22 de fevereiro e 1º de março por falta de serviços de limpeza. De acordo com a secretaria, novos contratos emergenciais foram assinados na sexta-feira, 12. Outras 50 escolas passam por reformas para receber os alunos durante a pandemia. Essas 580 ainda não retomaram as aulas presenciais nesta segunda, mas realizam atividades online. 

'Uma mão lava a outra'

O Estadão acompanhou o primeiro dia de aula presencial na Escola Municipal de Educação Infantil São Paulo, na Vila Clementino, zona sul da cidade. Dos 147 alunos matriculados, apenas 53 podem assistir às aulas nas salas. Na entrada das crianças, os pais não puderam acompanhá-los, como de costume, por causa dos protocolos de segurança. Mas não teve o choro habitual dos primeiros dias. O engenheiro civil Alecsandro Oliveira, de 43 anos, disse que ele e o filho, Alecsandro, de 4 anos, estavam ansiosos pelo retorno.

Para acolher os alunos, a escola instalou um equipamento de som na entrada. A música não poderia ser mais apropriada: “uma mão lava a outra”. Depois da medição de temperatura, os alunos foram aos lavatórios, acompanhados pelos professores. A escola possui totens em miniatura para uso do álcool em gel. Os bancos de pedra na entrada ganharam círculos azuis, que marcaram onde cada um deveria se sentar para manter o distanciamento. Na sala de aula, as carteiras que antes recebiam quatro alunos agora só tinham um. Janelas e portas abertas. Na hora do intervalo, o desafio da professora era manter o distanciamento. Cada aluno abria o braço para medir a distância do coleguinha.

O primeiro dia está sendo apenas de testes para o enfermeiro Jeferson Rodrigues dos Santos, pai do Felipe, de 5 anos. “Vamos observar esses primeiros dias”, afirmou o profissional de saúde que trabalha na linha de frente contra o coronavírus. Para Laura Rais, que está desempregada, o desafio vai ser manter a filha, Giovana Rais, de 6 anos, com a máscara no lugar certo. “Ela queria vir de todo jeito, mas acho que vai ser difícil”, diz a mãe. Embora a escola ofereça atividades entre 8h e 16, todos os pais ouvidos pelo Estadão afirmaram que vão buscar o filho mais cedo. "É um risco consciente. Nós conversamos muito com ele e vamos observar nestes primeiros dias", diz o professor Douglas Vieira, que precisou conversar por vários minutos com o Thomas, de 4 anos, antes de deixá-lo no portão da escola. "A gente fica com o coração apertado, mas era a hora de voltar", completa. 

O retorno está sendo feito sem parquinho. Como os brinquedos da escola são confeccionados em ferro, o que dificulta a higienização, na explicação do diretor Eneas Mesquita, as atrações ao ar livre estão fechadas. "Vamos usar o espaço para exercícios de corpo e movimento. É um aprendizado para todos", diz o educador. Até a alimentação mudou: o self-service que utilizava legumes produzidos na própria horta da escola agora virou o famoso "prato feito". As crianças fazem três refeições na escola. 

Outras escolas vivem uma fase de adaptação em relação à quantidade de alunos que irá receber nos próximos dias. A Escola Municipal de Ensino Fundamental Dr. José Dias de Vieira, que acolhe 678 alunos de várias comunidades da zona sul, entre elas, a de Paraisópolis, recebeu apenas 60 estudantes no período da manhã nesta segunda-feira - pelas regras atuais, ela poderia receber 125. O motivo foi a dificuldade de comunicação com as famílas, pois nem todas têm acesso à internet. Quando a notícia da retomada presencial se espalhar, a diretora Maria Cecília Carlini teme que a escola receba mais alunos do que sua capacidade permite por período. "As famílias dependem bastante do apoio da escola, não só educacional, mas também dos cuidados e da alimentação", diz a diretora. "Como os alunos não têm acesso às informações pela internet e nem sempre sabem do rodízio, como eu vou fazer para selecioná-los na porta da escola?", questiona.  

Em greve

Parte dos professores da rede está em greve desde a semana passada e pede que as aulas continuem a distância. A categoria alega que não há estrutura suficiente para receber os estudantes presencialmente. 

As cinco entidades de representação dos professores da rede municipal - Sindicato dos Professores e Funcionários Municipais de São Paulo (Aprofem); Sindicato dos Educadores da Infância (Sedin); Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep); Sindicato dos Especialistas de Educação do Ensino Público Municipal de São Paulo; e Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem) - anunciaram a paralisação no último dia 10.

Os educadores pedem, entre outras coisas, que seu trabalho continue remoto e que haja vacinação para todos os profissionais de educação. Também reivindicam testagem em massa, equipamento de proteção individual “de qualidade” e suporte social às famílias dos estudantes.

Outra reclamação dos docentes se refere à falta de apoio para os alunos que realizam atividades on-line. Seis meses após o anúncio da compra de 465 mil tablets para auxiliar os alunos na educação à distância, a Prefeitura ainda não entregou os equipamentos. Segundo a secretaria da Educação, todos serão entregues até o final de abril. A promessa inicial era que os tablets já tivessem sido entregues em dezembro. 


 

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