Wilson Dias/Agência Brasil
Wilson Dias/Agência Brasil

MEC vê erro em 6 mil provas do Enem e estende prazo de seleção para faculdade

Inep disse ter revisado resultados de todos os 3,9 milhões de candidatos; apesar de problemas, governo manteve para esta terça abertura do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que reúne vagas em universidades públicas. MPF quer suspender início das inscrições

Isabela Palhares e Vinicius Valfré, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2020 | 17h33
Atualizado 20 de janeiro de 2020 | 22h04

SÃO PAULO E BRASÍLIA -  O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), disse nesta segunda-feira, 20, ter achado erros nas notas de 5.974 candidatos. Segundo o órgão, foram revisados os resultados de todos os 3,9 milhões de participantes. Apesar do problema, o governo decidiu manter para esta terça-feira, 21, a abertura das inscrições no  Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que reúne vagas no ensino superior público, mas com um prazo mais longo. Já o Ministério Público Federal (MPF) quer suspensão do Sisu até correção das falhas. 

Com a reavaliação das notas, cerca de 80% desse grupo afetado pelo problema ficou com notas maiores, informou à imprensa o presidente do Inep, Alexandre Lopes. Os novos resultados já estão disponíveis para consulta na página do candidato - em alguns casos, a diferença entre a nota anterior e a revisada superou 400 pontos (em uma escala de zero a mil). 

Segundo Lopes, o problema ocorreu na gráfica responsável pela impressão das provas. O erro foi na associação entre a cor do caderno de questões do estudante ao gabarito correspondente. Com isso, estudantes que fizeram a prova amarela, por exemplo, tiveram as respostas corrigidas com base no gabarito da prova azul. “O problema foi na gráfica, na associação entre a prova e o gabarito. A máquina faz a associação da prova com o gabarito. Em algumas situações, houve o descasamento entre o código da prova e o do aluno. E ele foi corrigido como se ele fosse não da prova amarela, mas de outra cor”, explicou.

Um processo administrativo será aberto contra a gráfica Valid, que imprimiu as provas em 2019. A empresa será notificada e terá de se explicar. Lopes, porém, evitou falar em punições. Disse apenas que o processo obedecerá ao estabelecido em contrato. Procurada, a Valid não se manifestou. 

Apuração

O Inep disse não ter detectado, até esta segunda, se o problema foi causado por falha humana ou exclusivamente mecânica. O episódio, definido por Lopes como “susto” aos participantes, fez com que a data-limite de inscrições no Sisu fosse prorrogada em dois dias. Pelo cronograma inicial, a inscrição poderia ser feita até quinta-feira. Agora, será possível se inscrever até domingo. Com a nota do Enem, o candidato disputa vagas em universidades públicas. 

“Não houve prejuízo para o aluno. Estamos mantendo a data de início do Sisu. Não houve prejuízo, mas, para dar mais tranquilidade aos alunos, o ministro determinou ampliar o prazo”, disse Lopes. As falhas foram concentradas em quatro cidades. Viçosa, Ituitaba e Iturama, em Minas, e Alagoinhas, na Bahia, registraram mais de 95% delas. Outros 116 erros apareceram em ao menos uma prova aplicada nos demais Estados, exceto Roraima e Amapá. 

O Inep afirmou que só houve inconsistências nas provas objetivas. As notas das redações não foram afetadas. Houve problemas nos dois dias de prova, sendo 30 no primeiro e a ampla maioria no segundo. 

O e-mail oferecido pelo Inep para que os participantes relatassem problemas recebeu 172 mil mensagens. O número é bem maior do que o de inconsistências encontradas, mas o Inep garante que o problema foi restrito aos 5.974 casos.

O pedido de suspensão do Sisu foi feito pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, que aponta riscos a milhares de estudantes, diante das falhas já apontadas. O Inep não se manifestou especificamente sobre esse pedido. Na coletiva de imprensa, o órgão afirmou já manter contato com a Advocacia-Geral da União (AGU). 

Correção

Os alunos que foram prejudicados com a falha afirmaram que na noite desta segunda as notas já haviam sido alteradas. Maria Esthér Nora Sanches, de 18 anos, disse ter recebido uma ligação do presidente do Inep no início da noite para comunicar sobre a alteração e pedir desculpas.

A jovem, que concluiu o ensino médio no ano passado e fez o Enem para tentar uma vaga em Medicina, contou ter ficado muito assustada com as notas. "Eu fiquei muito chateada na hora em que vi meu boletim, porque tinha ido muito mal. Pior até mesmo do que nos anos anteriores, quando fiz a prova como treineira. Até achei que a culpa pudesse ter sido minha e que eu tinha preenchido errado o cartão de respostas".

Com a alteração, as notas de Maria Esthér deram um salto. Em Matemática, a nota passou de 431 para 917 pontos. Em Ciências da Natureza, de 402 para 690. Aluna do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (Coluni), ela desconfiou que a correção poderia estar errada porque viu nas redes sociais outros colegas reclamando do mesmo problema. "O Enem é uma prova muito importante, a gente se prepara muito para ela. Por isso, o susto quando vi a nota. Acho que pela dimensão do exame não é cabível um erro grave como esse".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.