Dida Sampaio/Estadão
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Militares na escola

O que o MEC quer é colocar militares da reserva em escolas estaduais ou municipais

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2019 | 03h00

Em algumas semanas o Ministério da Educação (MEC) promete anunciar detalhes de um programa ambicioso de investimento em escolas cívico-militares no País, uma das poucas ideias para educação do governo Bolsonaro desde a campanha eleitoral. Quando o mundo todo se preocupa em desenvolver competências cognitivas e socioemocionais nas crianças que viverão em um mundo cada vez mais diverso e dinâmico, nosso projeto para a educação básica será baseado na disciplina, no conteúdo e no rigor.

O modelo não é tão conhecido por aqui porque São Paulo é um dos poucos Estados que ainda não tem. Além disso, muita gente confunde as cívico-militares com as escolas do Exército, que são caríssimas se comparadas às escolas públicas e financiadas pelo Ministério da Defesa. 

O que o MEC quer é colocar militares da reserva para trabalhar em escolas estaduais ou municipais comuns. Segundo dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), os militares, que podem ser bombeiros e policiais, vão “complementar e auxiliar em atribuições específicas relacionadas aos aspectos disciplinar e atitudinal do aluno dentro do ambiente escolar”. Um alento: “não haverá a presença dos militares em sala de aula e eles não exercerão função de professor”.

Em ofício de julho, também obtido por LAI, são pedidos para o Ministério da Defesa 1.100 militares para atuar em 54 escolas públicas a partir de 2020. Como se tratam de escolas do Estado ou do município, é preciso que eles queiram aderir ao projeto. O incentivo são os R$ 40 milhões dos cofres do governo federal.

Alguns Estados já fizeram esse tipo de movimento por conta própria. A maior parte das 203 escolas cívico-militares do País estão em Goiás, mas também há no Amazonas, Minas, Roraima e Distrito Federal. Na sexta-feira, o deputado estadual Tenente Coimbra (PSL) lançou em São Paulo uma Frente Parlamentar pela Criação das Escolas Militares para tentar impulsionar o projeto em escolas paulistas.

Na Bahia, são 13 nesse modelo, que foi chamado de “autoritário” recentemente pelo Ministério Público Federal (MPF) do Estado. O órgão recomendou que as escolas não mais interfiram em corte de cabelo, cor das unhas e maquiagem dos estudantes ou os impeça de namorar. Para o MPF, elas “restringem a liberdade de expressão” ao proibir até que frequentem locais de jogos eletrônicos e controlar suas redes sociais.

Por mais absurdas que essas ideias possam parecer para boa parte das pessoas, muitas das escolas cívico-militares têm filas de espera para matrícula. Esse sucesso está muito ligado a uma concepção antiga - mas que agora parece estar de volta, como outras tantas - de que educação que funciona é aquela feita com autoridade e sem afeto. Sim, talvez esses meninos que batem continência se saiam bem em avaliações que medem conteúdo. Mas como estamos os preparando para os desafios do mundo do século 21?

Países que têm os melhores resultados em avaliações internacionais - como Finlândia, Austrália, Japão, Canadá e Cingapura - correm desesperadamente no caminho inverso. Com conteúdo aos montes na internet, lutam (porque não é fácil) para desenvolver o indivíduo em suas emoções, na forma de se relacionar, ensinando respeito, empatia, colaboração, criatividade. Estudos já mostraram que essas competências ajudam na permanência e no desempenho na escola e também têm relação direta com empregabilidade, salário, saúde e comportamento sustentável.

É uma educação que se aproxima dos estudantes de hoje. Faz com que gostem da escola em vez de temê-la. E esse é o melhor aprendizado que um país pode dar para suas crianças.

*É repórter especial do Estado e fundadora da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) 

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