Felipe Rau/ Estadão
Felipe Rau/ Estadão

Escolas de elite de SP têm até 2 casos de covid em 1 mês, mas alta de registros na cidade preocupa

Levantamento foi feito pelo Estadão com colégios da capital. Muitos passaram a pedir que as famílias voltem a se isolar

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 16h00

A maioria das escolas particulares na capital teve no máximo dois casos de covid entre os alunos ou entre os professores desde que foram abertas, há pouco mais de um mês. O Estadão questionou 20 de alguns dos maiores colégios da capital e 14 deles concordaram em responder ao levantamento. Somadas as escolas, elas têm recebido mais de 7 mil estudantes em atividades presenciais e cerca de 2,5 mil docentes e funcionários. Para especialistas, o número é baixo e indica que a escola não é o principal local para risco de infecção. 

Há preocupação, no entanto, com um crescimento na quantidade de casos de coronavírus na capital, que tem atingido principalmente as classes mais altas, público das escolas. Algumas delas começaram esta semana campanhas e enviaram comunicados de conscientização para as famílias, pedindo que evitem festas e outros contatos sociais, idas a restaurantes e comércio. Nesta quinta-feira, a Prefeitura deve anunciar novas medidas com relação às escolas públicas e privadas da capital e, segundo fontes, não deve haver mais flexibilização.

“A maior preocupação é que o vírus seja levado da casa para a escola e não o contrário”, diz o presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Marco Aurelio Safadi. Segundo o levantamento do Estadão, nenhuma das escolas pesquisadas registrou um surto, o que para o infectologista é um indicador de que a transmissibilidade não foi grande e que os protocolos funcionaram adequadamente.

Mesmo assim, casos como o da Graded School, revelado pelo Estadão nesta semana, têm assustado pais e escolas. O colégio americano identificou seis alunos infectados e 17 professores suspeitos em uma semana. A grande contaminação teria ocorrido, segundo a escola, porque centenas de estudantes participaram de festas no início do mês. Alunos de outros colégios também estariam frequentando eventos em condomínios fechados e casas em bairros nobres da cidade. Nesta quarta-feira, o secretário estadual de São Paulo, Rossieli Soares, disse que é preciso ter cuidado para não culpar as escolas de surtos causados por festas fora dela.

Os colégios têm impedido que alunos e funcionários com sintomas frequentem as atividades presenciais e gastaram muito em consultorias constantes de hospitais privados. Os estudantes são divididos nas chamadas "bolhas" e só podem ter contato com um grupo pequeno de colegas. Muitos exigem teste de covid para que o aluno sintomático - ou que tenha um familiar infectado - volte a frequentar as atividades presenciais. “Esse critério maior de testagem e um olhar mais aguçado do que na sociedade em geral poderiam levar a mais casos positivos nas escolas, mas também não ocorreu”, explica o médico.

Em carta, a direção da Graded fez um apelo às famílias para restringirem contatos sociais. O Pueri Domus começou nesta quarta-feira uma campanha com mesmo intuito. A escola teve oito casos registrados em suas quatro unidades na cidade, nas zonas sul e oeste, que juntas têm cerca de 700 alunos participando de atividades presenciais. Mas teme que a contaminação aumente com a flexibilização dos pais. “Estamos agradecendo às famílias das unidades que não tiveram nenhum caso e reforçando que o sucesso do programa na escola depende da corresponsabilidade”, diz Christina Sabadell, diretora geral das Escolas Pueri Domus.

Nove das catorze escolas tiveram zero, 1 ou 2 casos registrados entre os alunos. E 11 delas também registraram 2 casos ou menos entre  professores e funcionários. As que relataram os maiores números de casos positivos desde 7 de outubro, quando a Prefeitura autorizou a volta presencial, foram Móbile, Santa Cruz e Miguel de Cervantes. Elas, no entanto, também têm as maiores quantidades de alunos e funcionários em atividades presenciais - mais de 1 mil. A Móbile teve 13 alunos infectados e 7 professores/colaboradores. No Santa, foram 9 e 2, respectivamente. No Cervantes, 4 e 6.  Segundo Moisés Domingues, diretor de ensino do Cervantes, apenas uma "bolha" de 15 alunos teve de ser afastada depois que uma professora testou positivo. Mas ninguém foi contaminado. O colégio exige que os colaboradores respondam por aplicativo a um check list diário de sintomas antes de sair de casa. "Se clicar em um sintoma, já não vem trabalhar e, enquanto nao testar negativo, não volta", diz Domingues.

Nesta quarta-feira, o diretor geral do Santa Cruz, Fabio Aidar, enviou carta aos pais falando da sua preocupação com a situação atual na cidade.   “Em um ambiente comunitário como o do colégio, os riscos assumidos por cada pessoa em particular acabam se ampliando para toda a coletividade”, diz. Ele menciona ainda “o relaxamento do isolamento social e a participação em eventos, especialmente entre adolescentes e jovens” e recomenda “enfaticamente, que todos sigam os mesmos protocolos rigorosos que temos apresentado para as atividades escolares mesmo quando estiverem fora do campus”. 

Muitas escolas não registraram nenhum caso neste primeiro mês de atividades presenciais, como Oswald de Andrade, Escola Viva, Mary Ward e Colégio Piaget. O Bandeirantes teve 3 casos entre alunos e nenhum entre professores e funcionários.

Magno, Projeto Vida, Agostiniano Mendel e Elvira Brandão tiveram três casos no total, somando alunos e professores ou funcionários. Os colégios Porto Seguro, Rio Branco, Pentágono e Dante Alighieri informaram que não divulgariam seus dados ao Estadão. Outros não responderam ao pedido da reportagem.

A diretora pedagógica da Escola da Vila, Fernanda Flores, diz que as famílias que decidiram mandar seus filhos precisam assumir o compromisso de ficarem isoladas. O colégio teve apenas dois casos, mas ela também se preocupa com o aumento no número de registros na cidade. Apesar de considerar o protocolo da escola bem sucedido, enviou novo comunicado aos pais nesta semana reforçando a conscientização. "Para que a gente mantenha as escolas abertas, todos têm que fazer a sua parte."

O argumento é o mesmo que está sendo usado em países europeus que enfrentam agora uma segunda onda da covid. França, Alemanha, Bélgica, entre outros, determinaram novos lockdowns no fim de outubro, mas mantiveram as escolas abertas. "A Europa aprendeu que as escolas não devem ser as primeiras a serem fechadas, como fizemos antes, e sim as últimas", diz Safadi.

A discussão também está sendo feita em Nova York e, na semana passada, o jornal The New York Times publicou um editorial pedindo que a prefeitura impeça restaurantes indoor e cultos religiosos de continuarem funcionando e empresas voltem com seus funcionários para homeoffice - tudo para que as escolas continuassem abertas. Mas, nesta quarta-feira, a cidade anunciou que vai fechar as escolas públicas novamente, depois de ficarem apenas oito semanas abertas desde a volta das férias de verão.

Estudo publicado este mês na revista científica Nature analisando impactos da reabertura em várias cidades americanas mostrou que os lugares com maior risco de contaminação são os resturantes, bares, cafés, academias de ginástica e templos religiosos.

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