WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Vacinação de professores trava em SP, e governo Doria não tem previsão para concluir imunização

Estado foi o primeiro a vacinar docentes, mas há pressão de outras categorias; Espírito Santo e Maranhão estão mais adiantados na aplicação de doses em trabalhadores da educação

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 09h40

Apesar de ter sido o primeiro Estado a vacinar professores no País, o governo de São Paulo não tem qualquer previsão para continuar a imunizar os trabalhadores de educação com menos de 47 anos. O atendimento começou em 10 de abril, foi anunciado como um grande feito da gestão de João Doria (PSDB) e recebido com emoção nas escolas. Faltam ainda cerca de 525 mil profissionais das redes públicas e privada - a maioria - para serem contemplados.

Outros Estados e cidades, no entanto, foram mais rápidos. Espírito Santo e Maranhão e ainda capitais como Recife e Salvador já imunizam docentes com 40 anos e pretendem terminar as outras idades ainda em maio. 

Fontes disseram à reportagem que lobbies de vários grupos que defendem outros profissionais essenciais tiraram, por enquanto, os professores das mais recentes discussões do plano de imunização do Estado. Do total esperado de 350 mil trabalhadores da educação que deveriam ser vacinados nesta etapa até 47 anos, 320 mil já foram atendidos, o que já justificaria avançar o calendário.

Questionadas pelo Estadão, secretarias de Saúde e de Educação não souberam informar nova data para a continuidade do plano. Segundo a coordenadora do Programa Estadual de Imunização contra a covid-19 em São Paulo, Regiane de Paula, os trabalhadores da educação com menos de 47 anos serão incluídos “tão logo tenhamos vacinas”. “A escassez de vacinas e a falta de perspectivas claras do Ministério da Saúde para viabilizar mais doses nos impele a fragmentar a campanha por faixas etárias e públicos”, afirmou.

Para este mês, São Paulo anunciou a vacinação de metroviários, ferroviários, motoristas de ônibus e cobradores. Todas essas categorias, assim como a dos profissionais da saúde e da segurança, não tiveram recorte de idade, como ocorreu com os professores. Ainda serão imunizadas pessoas com síndrome de down, pacientes renais em diálise e transplantados imunossuprimidos.

Segundo estimativas oficiais, há cerca de 286 mil profissionais da educação no Estado nas redes pública e privada entre 40 e 46 anos, por exemplo. Eles representam 32% do total de cerca de 875 mil. Se a vacina fosse dada para esse grupo, somado ao atual, mais de 70% dos trabalhadores das escolas estariam imunizados.

Sindicatos dos professores em todo o País têm pedido a vacinação de todos os profissionais para aceitar a volta às aulas presenciais. Em São Paulo, que tem o maior número de docentes, seriam necessárias cerca de 1,8 milhão de doses (duas para cada um dos 875 mil) para atender todos.

Como o Estadão revelou, professores de escolas particulares de elite se organizaram para não voltar no mês passado, quando o retorno foi autorizado pelo Estado. Uma das reivindicações também era a vacina para todos. Segundo o sindicato da categoria, apenas 30% na rede privada tem acima de 47 anos e, em geral, são coordenadores e diretores. “Aqueles que mais precisariam ser chamados ficaram de fora da vacinação inicial”, diz o presidente do Sinpro, Luiz Antonio Barbagli.

Carolina Marques, de 38 anos, dá aulas no 4º ano de uma escola municipal de Jundiaí, interior de São Paulo, e está trabalhando presencialmente, apesar de dizer que tem muito medo. Seu pai e sua tia morreram este mês, vítimas da covid. Sua mãe e irmão também foram infectados. Ela se diz “revoltada” com a demora do governo para acelerar a vacinação. 

“Não sei como vou reagir ao vírus. Uma vez que a educação é essencial, a segurança do professor e dos alunos tem de estar em primeiro lugar”, diz. Ela conta que voltou à sala de aula porque muitas das crianças são vulneráveis, ficam na rua e têm pouca ajuda dos pais. “Não tenho condição de mensurar o quanto vai afetar no futuro delas esse tempo que ficaram sem escola.”

Regiane de Paula afirma que há “total rigor com o planejamento” da campanha de imunização para covid-19 e por isso “aqui em São Paulo não há falta de 2ª dose como temos visto em outros Estados”. “Garantir o esquema vacinal completo é essencial, tanto quanto incluir novos grupos”, afirmou.

Como mostrou o Estadão esta semana, ao menos nove capitais do País estão com a aplicação da 2ª dose da Coronavac atrasada. As cidades dizem ter seguido a orientação do Ministério da Saúde e usado todo o estoque  como 1ª dose, sem deixar reserva para a aplicação da 2ª. 

Salvador, Recife e Espírito Santo preveem concluir imunização este mês

Em Salvador, nem a vacina para todos garantiu ainda a volta às aulas presenciais. A cidade deve imunizar esta semana os cerca de 15 mil profissionais de educação de todas as idades, da rede pública e particular. Na segunda-feira, 3, quem tinha mais de 40 anos já havia recebido a vacina, mas depois de 1 ano e 2 meses de escolas fechadas na cidade só 10% dos professores voltaram para o presencial.

O sindicato baiano pede ainda que os profissionais tomem a 2ª dose da vacina da Astrazeneca/Oxford, que seria daqui a cerca de três meses, para retornar. “Está sendo uma tragédia, mas não vamos desistir, vamos continuar com as escolas abertas”, disse o secretário de Educação da cidade, Marcelo Oliveira.

No Recife, o secretário de Educação, Fred Amâncio, também garante que a vacinação de profissionais da educação, de todas as idades, será finalizada em maio - são 27 mil professores e outros trabalhadores. Segundo ele, as aulas devem voltar nos próximos dias nas escolas municipais. “Mas não colocamos como condição para o retorno a vacinação. Acabou sendo uma coincidência porque encerramos a imunização do grupo até 60 anos e o próximo era o da educação." Nesta semana, Recife vacina profissionais de educação com 40 anos ou mais e pessoas com comorbidades. 

Especialistas defendem o retorno presencial independentemente da vacina para professores pelos prejuízos às crianças e por que pesquisas internacionais têm mostrado que a escola é um espaço seguro se forem cumpridos os protocolos. Outros países, como Chile, Argentina, França, Itália, Alemanha, Vietnã, Rússia e China também vacinaram professores, algo pedido até pela Unesco numa tentativa de ajudar a volta presencial pelos riscos para a educação no mundo. Segundo estudo da entidade, 25% professores no mundo todo foram priorizados na primeira fase para tomar a vacina em seus países.

“Não deve ser pré-requisito para a volta, mas traz mais tranquilidade”, diz o secretário de Educação do Espírito Santo, Vitor de Angelo. No Estado, a vacinação de professores está na etapa de 50 a 59 anos, mas na semana que vem já passa para 40 a 49 anos, em seguida 30 a 39 anos e 18 a 29 anos. A expectativa também é a de vacinar todas as idades este mês. 

O Espírito Santo está usando a reserva técnica de vacinas enviada pelo Ministério da Saúde, que corresponde a 5% do total, para imunizar professores da educação básica. São 42 mil no Estado. Só depois serão vacinados os outros trabalhadores das escolas e também das universidades.

“Numa situação em que os recursos não fossem escassos, não haveria essa disputa. Mas temos de definir critérios para hierarquizar as prioridades e aí passamos a tratar a vacina não como direito e, sim, como justiça”, diz Angelo, que é também presidente do conselho de secretários de Educação no País. “Infelizmente, é a contingência do momento.” 

Em São Luís, no Maranhão, já estão sendo vacinados profissionais com 40 anos. Na maioria das cidades do Estado, a idade está ainda em 55 anos. Mas, segundo a secretaria da educação, há municípios como Bacabal, que já passou a imunizar com 30 anos, e Caxias, que atende todas as idades. Mais de 45 mil profissionais de educação foram vacinados no Maranhão; as aulas presenciais não voltaram na rede estadual ainda. 

Endereço e ano escolar também são critérios para organizar fila

Na cidade de Cascavel, Paraná, a imunização de trabalhadores de educação começou nas regiões com mais transmissão de covid. A vacina é dada por escola, para todos. Só os funcionários que optaram por voltar presencialmente recebem recebem a imunização.

Já em São José da Lage, a cerca de 100 quilômetros de Maceió, a vacinação é por ano em que o professor atua. Segundo a secretária de educação, Glaudes Souza, docentes e servidores que atendem crianças do 3º ao 9º ano do fundamental e da região do campo já foram imunizados, independentemente da idade. “Quando vacinamos todos de cada grupo de idosos, o que sobra passa para a educação”, explica. 

A epidemiologista Carla Domingues, que foi coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, de 2011 a 2019, afirma que a falta de organização federal levou a essa “confusão”, em que cada cidade e Estado fazem algo diferente com relação às prioridades da vacina. “O principal objetivo da vacinação tem de ser evitar gravidade, hospitalização e óbitos”, afirma. Para ela, não se deve começar a imunizar outros públicos, como professores, antes de terminar os idosos e as pessoas com comorbidades. “Não se pode utilizar a segunda dose para passar outros grupos na frente. Por isso estamos vendo mais escassez agora.”

Ela ainda explica, que mesmo com a vacina, os protocolos sanitários vão ter que continuar nas escolas porque ela não é 100% segura. "No Brasil, simplesmente fecharam  as escolas e ficaram esperando a vacina. Na verdade, tínhamos que estar preocupados em equipar a educação para a volta."

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