Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Escolas privadas de elite de SP enfrentam embates com professores que não querem volta ao presencial

Alguns colégios da capital paulista tiveram de abrir com poucos docentes; outros negociaram ou ameaçaram demissão. Crise é a maior já vista na área

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 15h00

Escolas particulares de elite da capital paulista têm enfrentado embates com professores para conseguir abrir após a autorização dada pelo governo e pela Prefeitura este mês. Algumas tiveram de retomar as aulas presenciais com quase metade dos professores porque o restante se recusou a comparecer. Outras conseguiram negociar ou ameaçaram demissão e garantiram a volta completa do corpo docente. Professores do ensino infantil, fundamental e médio dizem ter medo da contaminação neste momento da pandemia no País.

O Estadão conversou com diretores de escolas e professores, todos na condição de anonimato. Mas contaram que esse é o pior conflito já vivido entre professores e direção de instituições particulares na cidade. “Até nas melhores escolas, a relação está por um fio”, disse uma professora.

Em um colégio da zona oeste, a direção recebeu um comunicado de um grupo de professores na véspera da abertura, avisando que não se sentiam seguros e por isso não iriam ao trabalho presencial na segunda-feira. O e-mail vinha de um remetente desconhecido e era assinado por um coletivo para que ninguém fosse identificado como líder do movimento.

Em outro mais tradicional, que tem unidades em várias regiões, a intenção dos professores de se organizarem foi rapidamente repelida por um e-mail dos recursos humanos dizendo que as faltas não seriam toleradas.

Escolas particulares de elite contrataram caras consultorias de hospitais privados para ter rígidos protocolos de proteção na abertura. Muitas fornecem transporte pago a funcionários que precisariam de ônibus e metrô.

Diretores contam que tiveram de endurecer mais ainda as regras para atender à reivindicação dos professores. Não admitir alunos com máscaras pouco seguras ou mal colocadas e dar modelos pff2 aos professores, por exemplo, ou ainda reduzir a menos de 35% (índice autorizado) a quantidade de estudantes na escola.

“Não dá para dizer que a reivindicação desses professores não é justa, mas também não posso avaliar da mesma maneira quem está com escola e quem não está”, diz um diretor. Segundo ele, o colégio sempre teve tradição de diálogo e não pretende demitir quem não se apresentou para o trabalho presencial. Muitos ficaram apenas no remoto mesmo com a abertura, mas a ideia é continuar conversando para que todos voltem. “A situação está muito difícil.”

Outra escola também com tradição humanista abriu a unidade, mas apenas professores até o 3º ano do fundamental apareceram para trabalhar presencialmente. Em reunião esta semana, o clima foi tenso entre docentes e coordenação, com exigência de que todos comparecessem na semana que vem. Muitos dizem temer demissões.

“Essa questão do serviço está ficando muito mais forte que a educação. A abertura no pior momento da pandemia não está de acordo com o projeto político pedagógico que a escola sempre pregou”, diz uma professora, que não voltou ao presencial. A direção das instituições têm do outro lado os pais que defendem a abertura. Em muitas delas, eles representam metade ou a maioria, segundo pesquisas internas. Quem mais se posiciona a favor das aulas presenciais são os que têm crianças de até 10 anos, cujo ensino online não é recomendado ou funciona menos. Para esta professora, a direção está cedendo à pressão dos pais que ameaçam tirar os filhos da escola se não reabrir.

Os diretores também sustentam que é inviável manter a escola fechada quando há autorização oficial para abertura no Estado e na cidade. E reconhecem uma falta de confiança nas autoridades governamentais vinda dos professores, o que dificulta o diálogo.

“Simplesmente eles estão se recusando a trabalhar em um serviço que foi reconhecido como essencial. Não podem pautar o retorno esperando 100% da escola vacinada porque isso não é razoável”, diz uma mãe, cuja filha foi ao presencial e encontrou uma profissional substituta. "Eles não estão pensando nas crianças e em como esse vínculo com a professora é um eixo fundamental da educação”.

Na opinião de uma professora, a escola está colocando pais contra professores. “É um absurdo achar que um professor não quer voltar porque é preguiçoso, eu tenho trabalhado muito mais no remoto do que fazia no presencial, negligenciado meus filhos para dar suporte para os filhos dos outros”. Ela diz que tem certeza que a educação presencial é a melhor opção, mas que as crianças de escolas de elite não estão perdendo em aprendizagem ficando no remoto.

O governo de São Paulo começou a vacinar professores e funcionários das escolas com mais de 47 anos no dia 10 de abril. Nas escolas particulares, o grosso dos docentes é mais novo e uma minoria - diretores, coordenadores e professores do fundamental 2 e ensino médio - acabou sendo imunizada. Na rede pública, o governo afirma que 40% dos profissionais estão nessa faixa etária. Ainda não há previsão da secretaria da educação para vacinação de professores mais novos.

Também há muitos pais que apoiam a posição dos professores. Alunos de vários colégios divulgaram na semana passada uma carta dizendo que a reabertura autorizada pelo governo era “'irresponsável" e que manifestavam “total apoio ao corpo docente que se posicionou contrário à volta presencial”.

A carta é assinada pelo “Grupo de estudantes de escolas privadas da cidade de São Paulo” e tem 516 nomes. Segundo o documento, há estudantes das seguintes escolas entre eles: Avenues, Albert Sabin, Bandeirantes, Equipe, Madre Cabrini, Miguel de Cervantes, Objetivo, Oswald de Andrade, Palmares, Mackenzie, Rainha da Paz, Rio Branco, Santa Clara, Santa Cruz, São Domingos, São Luís, Vital Brazil, Escola da Vila, Luminova, Móbile, Nossa Senhora das Graças (Gracinha), Vera Cruz, Lycée Pasteur, entre outras.

Algumas delas, como Equipe e São Domingos, sequer abriram depois da autorização do governo. O Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro) afirma que não é possível ter uma estatística de quantos professores não estão trabalhando presencialmente, mas que o movimento tem se fortalecido principalmente nas escolas mais progressistas. “No restante não tem diálogo e os professores são obrigados a ir”, diz o presidente do Sinpro, Luiz Antonio Barbagli. “Esse movimento só vai diminuir quando as questões sanitárias forem resolvidas.”

Nesta semana, o sindicato estacionou um caminhão de som na frente de algumas escolas abertas na zona norte, com gritos de “abertura ilegal”. No entendimento do Sinpro, está ainda valendo uma sentença na Justiça que impede que os professores sejam chamados a trabalhar. A Procuradoria Geral do Estado e advogados ouvidos pelo Estadão, no entanto, afirmam que a sentença está com os efeitos suspensos até o julgamento final. E que o órgão máximo do Tribunal de Justiça confirmou essa decisão na semana passada.

Escolas da capital ficaram até outubro sem abrir e não puderam voltar com aulas em 2020, somente com atividades extracurriculares. A reabertura com 35% dos alunos foi autorizada para fevereiro deste ano, mas elas tiveram de ser fechadas novamente no meio de março por causa do quase colapso no sistema de saúde e recordes de mortes por covid.

Órgãos internacionais têm alertado sobre o prejuízo da educação fechada para aprendizagem, sociabilidade, saúde mental das crianças e até para o desenvolvimento dos países. Estudos científicos mostram também que a escola não é um grande foco de transmissão da covid-19. Um deles, feito na Universidade de Zurich por pesquisadores brasileiros, mostra que cidades que abriram escolas em São Paulo não tiveram maior número de casos e óbitos que as que não o fizeram.

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