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Atalho para os sem escola

A classe alta contrata professores, chama as babás. Os pobres estão nas ruas

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 05h00

O interminável debate sobre volta às aulas, que nos ocupa quase o ano todo no Brasil, sempre tocou na questão da desigualdade. Há os que acreditam que retornar em breve prejudica quem está em escolas das periferias, com menos estrutura para exigir distanciamento ou outras proteções contra a transmissão do coronavírus. Também se diz que não há equidade se o governo permitir que escolas particulares voltem antes das públicas, já que se declaram preparadas. 

Ambas são afirmações corretas. Mas como estão hoje as crianças e adolescentes fora da escola em virtude da pandemia? Estão todos vivendo de maneira igual, com os mesmos direitos? Ninguém teria coragem de responder que sim. Obviamente uma minoria se isola em casas extremamente confortáveis, na praia, no campo, com internet de 300 megabytes. Não que os problemas emocionais também não atinjam essas crianças e jovens, tidos como privilegiados. Mas outros passam o mesmo momento difícil em casas minúsculas, divididas entre diversos familiares, com alimentação insuficiente e a falta de dinheiro. 

A longa quarentena brasileira de escolas fechadas levou, no entanto, a atalhos causadores de mais desigualdade. Professores estão sendo contratados por famílias, em grupos organizados pelos pais, a preços altos, para dar aulas às crianças que já não suportam mais ficar longe dos amigos. Há todo tipo de atividade, alfabetização, brincadeiras, leitura. As turmas de crianças, em geral pequenas, se reúnem em praças, parques, condomínios. 

Mas incrivelmente tem ainda as próprias escolas que passaram a abrir suas dependências para alunos com atividades livres de regulação, já autorizadas a funcionar, como recreação, inglês e esportes. Muitas outras prometem ir pelo mesmo caminho se as aulas continuarem suspensas. 

Já estão a toda também os chamados condomínios clube, antes fechados pelos síndicos. Os filhos da classe alta já têm piscina à disposição, parquinho e espaço para correr a vontade. E, por último, há ainda a volta das babás. As moças de branco tiveram de retornar depois de alguns meses, com medo de perderem o emprego. Cuidam das crianças dos patrões que também voltaram ao escritório ou já estão cansados de lidar com os filhos em casa. Os filhos das babás ficam para trás. 

Nos últimos meses de quarentena, a classe alta achou um caminho para resolver sozinha o fechamento das escolas. Mas para os mais vulneráveis, cujos pais estão servindo no bar, no restaurante ou vendendo nos shoppings, os atalhos possíveis podem comprometer o cuidado e até a vida das crianças. Elas são deixadas sozinhas em casa ou com irmãos mais velhos, sujeitas a acidentes domésticos, abusos e comportamentos de risco. Ou com vizinhos, o que muitas vezes não melhora a situação. Outra opção é ficarem nas ruas. 

“Quando as escolas são fechadas, aumenta a ocorrência de casamentos prematuros, mais crianças são recrutadas por milícias, aumenta a exploração sexual de meninas e mulheres jovens, a gravidez na adolescência se torna mais comum e o trabalho infantil igualmente cresce”, alerta a Unesco. Para os adolescentes pobres, que dificilmente continuam em casa esperando a pandemia passar, soma-se a isso o alto risco de abandono da escola, por desestímulo ou necessidade de trabalhar para ajudar a família. Estudos ainda mostram relação entre abandono escolar e aumento de taxas de homicídio. 

A escola brasileira obviamente não resolve os problemas de desigualdade e, às vezes, até os agrava. Mas o seu fechamento por seis meses, declarado pela OCDE como um dos mais extensos do mundo, também não ajuda a deixar nossas crianças com tratamento igual. Aprofunda o que o Brasil tem de mais triste. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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