Intercâmbios, um mochilão e a carreira internacional

Intercâmbios, um mochilão e a carreira internacional

Andrea Tissenbaum

20 Fevereiro 2018 | 09h57

Carolina Andraus e Thaís Leão durante o mochilão pelo Sudeste Asiático

Carolina Andraus e Thaís Leão durante o mochilão pelo Sudeste Asiático

Conheça as histórias de Carolina Andraus e Thaís Leão que, em suas jovens bagagens, acumulam uma rara dose de experiências internacionais.

Das coisas boas que a vida profissional me trouxe, uma delas foi o prazer de me tornar amiga de alguns ex-alunos e acompanhar seus percursos. Esse foi o caso com a Carolina Andraus e a Thaís Leão, pessoas queridas e iluminadas, que têm em suas bagagens uma boa dose da vida internacional.

Ambas são do interior do estado e vieram para São Paulo fazer a faculdade, em 2007/08. Se conheceram no Insper, onde integravam o grupo de bolsistas do curso de administração. Excelentes alunas, tornaram-se profissionais maduras e muito bem qualificadas. E, suas experiências de vida, permitiram que a criatividade, a empatia e a sensibilidade se tornassem rotina em seus cotidianos.

Carolina Andraus, a Carol, é de Pindamonhangaba.  Aos 17 anos, fez seu primeiro intercâmbio de um ano, pelo Rotary Club.  Seu destino foi Taxco, no México. “Vivi em uma cidade pequena onde fiz o terceiro ano do ensino médio. Foi a primeira vez que saí de casa e morei longe da minha família. Por sorte, fui recebida por três famílias que me fizeram sentir muito em casa. No começo a adaptação foi difícil, tudo era novo e diferente. Mas os mexicanos são muito cálidos e receptivos e isso me ajudou demais. Esse programa de intercâmbio de jovens do Rotary é muito bacana.

Carolina Andraus, no México, com outros intercambistas do Rotary

Carolina Andraus, no México, com outros intercambistas do Rotary

Enquanto eu estava lá, meus pais também receberam um mexicano em nossa casa aqui no Brasil. Até hoje mantenho contato com as minhas três famílias. Recentemente, fui convidada por uma de minhas irmãs mexicanas para ser sua madrinha de casamento e foi especial estar com eles de novo. De frutos, além da vivência inesquecível, ficou o espanhol, que eu aprendi bem. Nunca pensei que usaria tanto o idioma. No ano passado consegui um trabalho no Chile por conta de minha fluência na língua”.

Thaís Leão cresceu em Bragança Paulista. Fez seu primeiro intercâmbio em 2006. Foi para Tóquio, no Japão, durante o ensino médio, também pelo Rotary Club. “Ao longo de um ano morei com quatro famílias e aprendi diferentes aspectos da cultura local. Embora Tóquio fosse muito ocidentalizada, minhas famílias mesclavam tradições e hábitos ocidentais e orientais. Meu primeiro pai japonês era muito especial e me tratava como filha. Nos vimos de novo quatro anos mais tarde, em um reencontro emocionante, quando voltei ao Japão. Foi ele quem me mostrou o que é o sentimentalismo japonês. Eles podem não ser muito calorosos, mas são muito sensíveis e profundos nos relacionamentos”.

Thaís Leão, durante seu primeiro intercâmbio em Tóquio, Japão

Thaís Leão, durante seu primeiro intercâmbio em Tóquio, Japão

“Voltei do Japão acostumada com as regras locais que são muito organizadoras e permitem que as coisas fluam. O cotidiano em Tóquio, apesar de caótico, é fácil. Tudo funciona, no relógio. Mas não pense que vai fazer amigos num estalar de dedos, os japoneses são muito cautelosos, demora mesmo. A confiança e o respeito são altamente valorizados. Além disso, há uma discrição muito grande no comportamento das pessoas. Aprendi que abraçar e beijar não são as únicas formas de expressar afeto. É que a palavra e o jeito que a pessoa te olha também podem fazer você sentir esse afeto, sem necessariamente tocar o outro.

Na escola, eu tinha aulas particulares de japonês com uma senhora que falava um inglês impecável. Lemos dois livros em um ano e eu me capacitei muito rápido, tirei um diploma de proficiência em japonês básico. No Japão, o colégio é em tempo integral e os alunos se dedicam muito aos estudos e aos esportes. A disciplina faz parte do cotidiano e eu aprendi a apreciar essa forma de viver”.

Em seu terceiro ano no Insper, Carol fez um novo intercâmbio de seis meses, desta vez na universidade de St. Gallen, na Suíça. Na época, recebeu uma bolsa de estudos que era oferecida pela Fundação Lemann exclusivamente para os alunos da faculdade. “St. Gallen é uma cidade pequena, com cores e sabores muito diferentes do México. A universidade é excelente e puxada, desde o início percebi que meus colegas de classe estavam ali para estudar.

Carolina Andraus na universidade de St. Gallen, Suíça

Carolina Andraus na universidade de St. Gallen, Suíça

Mergulhei de cabeça nos livros e a experiência foi excepcional. Convivi com um grupo de amigos bem internacional e viajamos bastante. Foi a primeira vez que vi neve e esquiei. Formamos uma rede valiosa, pessoal e profissionalmente, que se mantém até hoje. Uma de minhas amigas de St. Gallen é chilena. Ela me ajudou a descobrir seu país e me abriu os caminhos. Conhecer pessoas do âmbito profissional no exterior é fundamental se você quer internacionalizar sua carreira. Me lembro de um professor do Insper que dizia que a rede que estávamos constituindo seria bem importante no nosso futuro. Ele tinha razão”.

Em 2010, Thaís fazia parte do escritório da AIESEC no Insper e fez um intercâmbio profissional na ULVAC, uma empresa de tecnologia a vácuo em Chigasaki, no Japão. Ficou dois meses e meio nessa segunda rodada.

Thaís Leão na ULVAC, em Chigasaki, Japão

Thaís Leão na ULVAC, em Chigasaki, Japão

“Era um outro Japão, mais do interior e foi maravilhoso. Todos os dias ia de carro com meu pai japonês para o trabalho, uma hora e meia de viagem. Passávamos por várias plantações de arroz até chegar na sede da empresa. Meu estágio era na área de Recursos Humanos. Como havia um interesse em trazer a ULVAC para o Brasil, recebi a tarefa de escrever um relatório sobre o nosso país em japonês. Além disso, junto com um outro estagiário brasileiro da engenharia, fiz uma apresentação sobre o Brasil e a nossa cultura para todos da empresa, inclusive o CEO, também em japonês. Desafios enormes que, felizmente, consegui entregar”.

No final desse mesmo ano, Thaís foi para Barcelona, por dois meses, para estudar espanhol. Conseguiu viajar um pouco, mas ficou com gostinho de quero mais. “Ainda vou voltar”, ela afirma sem hesitar.

Thaís Leão no Parque Güell, Barcelona

Thaís Leão no Parque Güell, Barcelona

Quando se formou, em 2011, Carol foi trabalhar na Cremer. Ascendeu rápido, mas depois de quase cinco anos, sentiu que havia completado um ciclo. Queria aprender coisas novas e ficou com vontade de sair do país novamente.

Foi para Sydney, na Austrália, onde fez uma especialização em International Business no ILSC Business College. Como seu visto permitia que trabalhasse meio período, foi barista e garçonete em um restaurante. “Fiquei um ano por lá. O curso durou seis meses, mas como eu queria empreender, participei de um programa de estágio de cinco meses no Founder Institute. Foi um ano intenso. Aprendi a surfar, fiz um curso de mergulho e me apaixonei pelo mar. Era assim que passava meu tempo livre, completamente feliz”.

Carolina Andraus, surfando nas praias de Sydney, Austrália

Carolina Andraus, surfando nas praias de Sydney, Austrália

Carol voltou para o Brasil em fevereiro de 2017, mas um pouco antes de retornar, fez um mochilão de 60 dias com a Thaís, pelo Sudeste Asiático. “Viajar para lá aos 27 anos foi magnífico. Visitamos a Indonésia, Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã. Foi umacelebração de amizade e de união”, contam as duas. “Nossa jovem maturidade nos permitiu um olhar diferente para o novo, para o estrangeiro. Os detalhes saltavam aos olhos. Coisas pequenas, que antes passariam despercebidas nos encantavam”, explica Thaís. “Cruzamos com gente de todas as partes do mundo. Foi uma viagem rica, repleta de nuances que me fizeram questionar os padrões a que estamos acostumados, um mergulho para dentro”, conta Carol. “As paisagens, a energia dos templos, as praias paradisíacas e a espiritualidade viva daquela região, sem dúvida colaboraram para tudo isso. Sinto que essa viagem foi um momento de virada em nossas vidas”, diz Thaís. “E tudo isso com sete quilos de bagagem e uma vontade enorme de conhecer o mundo”, complementa Carol.

Carol e Thaís no Camboja - cada uma com sua árvore

Carol e Thaís no Camboja – cada uma com sua árvore

Para Carol, o choque do retorno ao Brasil foi grande. “Eu já tinha um feeling que não ia querer ficar aqui. Conhecia o Chile e sabia do forte fomento à inovação e startups no país. Então decidi ir para lá em uma viagem exploratória, mas acabei decidindo ficar e procurar emprego na área em que queria trabalhar”.

Hoje Carol está na Wayra, um braço investidor da Telefônica em inovação. “Sou responsável pela parte de desenvolvimento de negócios das startups junto com os negócios da telefônica. Saber bem o espanhol foi vital. Agora, tem as dificuldades, é claro. O chileno é mais fechado e o acolhimento é outro. Romper a barreira com os locais aqui é mais difícil, apesar de sermos todos latinos. Mas estou feliz e aprendendo muito. A qualidade de vida que tenho hoje faz valer a pena ficar por aqui”. Em maio Carol completa um ano no Chile e por enquanto não pensa em voltar.

Carolina Andraus, conferindo a produção de vinhos no Chile

Carolina Andraus, conferindo a produção de vinhos no Chile

Ela explica que quando vai morar em outro país, procura se apaixonar pelo que o lugar tem a oferecer: a comida, o lazer, as pessoas. “Muita gente busca o Brasil quando vai para o exterior e se frustra por que não encontra nada parecido. Eu acho muito importante prestar atenção nisso, porque vale a pena conhecer o novo e se entregar a ele. Trata-se de encontrar um estilo de vida onde você está por opção e ser feliz”.

Thaís reforça as palavras de Carol. “A primeira coisa que me vem à mente sobre a experiência internacional é uma abertura de cabeça, novos prismas para enxergar o mundo. Desenvolvi uma tolerância à diferença e à diversidade bem forte e aprendi a lidar com isso de uma forma mais fluida”. Thaís levou essa vivência para o Credit Suisse Hedging-Griffo, um banco global, onde trabalhou por cinco anos e também para a DORO , fruto de seu empenho como empreendedora, onde facilita programas de autoconhecimento, individuais e em grupo, dentro e fora de empresas.

E afirma: “Se você tem essa faísca, essa vontade de ir, não hesite. Vá para viver o que vai acontecer, as grandes transformações ocorrem quando a gente se entrega. É verdade que essas mudanças têm um custo de identidade. O momento em que você se percebe diferente é difícil, mas ao mesmo tempo é muito rico. No fim das contas, não há problema nenhum em deixar um pouco de você para trás”.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais. 
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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Carol e Thaís, nas estradas do Sudeste Asiático

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