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Renata Cafardo
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YouTube x professor

O número de docentes formados aumentou apenas em cursos não presenciais

Renata Cafardo, colunista e repórter especial

18 de agosto de 2019 | 03h00

É quase inacreditável, mas jovens já consideram o YouTube tão importante quanto o professor. A triste constatação – de uma pesquisa realizada pela multinacional Pearson no Brasil – indica que há pessoas acreditando que a educação formal não precisa ser feita por profissionais. Mostra também, mais uma vez, a desvalorização do docente, peça fundamental para o ensino de qualidade. 

Para tentar compreender como se aprende nos dias de hoje, a Pearson perguntou para pessoas entre 14 e 37 anos o que mais contribuiu para sua “educação, aprendizagem e/ou desenvolvimento” nos últimos 12 meses. Entre os da geração conhecida como Millenials, 47% escolheram o YouTube. Foi a resposta que mais apareceu nesse grupo, nascido entre o começo dos anos 80 e o começo dos anos 2000. Era possível assinalar mais de uma alternativa. O professor teve 39%, quase empatado com cursos gratuitos online. 

Já entre a geração Z (idade que vai de 14 a 22 anos), os professores ficaram na frente, com 57%, mas o YouTube teve índice parecido, 51%. Para se ter uma ideia, os livros foram apontados por apenas 26% dos jovens como importantes para a aprendizagem que tiveram no último ano.

Segundo o vice-presidente de Educação da Pearson, Juliano Costa, quem diz aprender pela plataforma de vídeos até cita canais de professores e instituições. Mas é impossível saber a qualidade do que é repassado e a efetividade da tal educação virtual.

Já o impacto de um bom professor na vida de um aluno foi medido diversas vezes e no mundo todo. Um estudo que durou 20 anos nos Estados Unidos mostrou que estudantes de um docente de qualidade têm maior probabilidade de iniciar o ensino superior, receber maiores salários e poupar mais para aposentadoria. Outras pesquisas indicaram que crianças que tiveram aulas com bons profissionais obtiveram um ganho médio de um ano de escolaridade, principalmente as mais pobres. Entre as características desse professor estão domínio do conteúdo, estratégias que mantêm alunos envolvidos e técnicas de ensino eficazes. 

Todos os países do mundo que conquistaram sucesso na educação investiram e valorizaram o professor. Cingapura lançou grandes campanhas enaltecendo o docente e passou a selecionar entre os melhores alunos do ensino médio quem poderia dar aulas. O Chile, um dos grandes exemplos da América do Sul na educação, também fez isso e ainda proibiu que seus professores fossem formados em cursos a distância.

Nós estamos no caminho totalmente oposto. Nos últimos anos, só aumentou o número de docentes formados em cursos não presenciais e o movimento é puxado pelas universidades privadas. Segundo estudo divulgado semana passada pelo movimento Todos pela Educação, cresceu em 162% o número de pessoas que entraram em cursos de formação docente a distância em faculdades particulares, entre 2010 e 2017. 

O movimento não acontece em outras áreas. Enquanto em 2017 (últimos dados disponíveis), 47% dos alunos estudavam a distância para se tornarem professores. Em outros cursos, o índice era de 15%. 

O estudo ainda conclui algo pior – a qualidade dessa formação é inferior. Os cursos a distância em geral têm nota mais baixa em avaliações do Ministério da Educação (MEC), que consideram desempenho do estudante e corpo docente. 

Mesmo nesse cenário que parece catastrófico, não se ouve o ministro da Educação, Abraham Weintraub, falar muito em professor. Há poucos meses, ele declarou gostar da ideia de premiar com bolsa bons alunos do ensino médio que quisessem cursar Pedagogia. Mas, até agora, não há política nenhuma. Já com o YouTube, o ministro parece ter mais familiaridade. 

* RENATA CAFARDO É REPÓRTER ESPECIAL DO 'ESTADO' E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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