Alex Silva/Estadão - 10/09/20
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Volta às aulas: o filme não pode ser mais o mesmo

Infecções alarmam, mas sabe-se que não adianta fechar escola se tudo está aberto

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2022 | 05h00

Primeiras semanas de aulas em São Paulo e a impressão é a de que estamos vivendo dentro de um filme que vai e volta nas mesmas cenas pelo terceiro ano. Casos de crianças ou professores infectados, salas suspensas, famílias e gestores alarmados. Medo de tudo parar. Isso em um Estado que autorizou a volta no começo do ano, diferentemente de outros que adiaram para março ou abril, temendo a Ômicron.

Mas, não, mesmo que as lembranças e a saúde mental abalada nos façam pensar diferente, o filme que estamos assistindo agora é outro. Pesquisadores das diversas áreas usaram os anos de pandemia para estudar muito a doença e a relação dela com escolas abertas. Outros já começaram a mostrar o tamanho do mal que fez à aprendizagem das crianças a falta das aulas presenciais. 

Na semana passada, um estudo de especialistas brasileiros foi publicado numa das mais importantes revistas médicas do mundo, mostrando que a abertura de escolas no Brasil não contribuiu para agravar a pandemia. Foi o primeiro trabalho sobre o tema em países em desenvolvimento. Comparou cidades paulistas que abriram e as que não abriram e mostrou que elas tiveram o mesmo ritmo de crescimento de casos e o que afetou, mesmo, foi a mobilidade das pessoas. 

É aquilo que repetimos faz tempo, mas há quem teime em não acreditar. Não adianta fechar escola se tudo está aberto. A luta, quando o número de casos e mortes infelizmente aumenta, é para baixar o movimento em bares, restaurantes, festas. Lugares em que a transmissão é enorme, mostram as pesquisas.

Mas ainda há casos como o do governo da Paraíba, que anunciou, depois de dois anos sem escola, que os alunos voltam de modo híbrido em 2022: 50% do tempo presencial e 50% remoto. É um Estado que não aprendeu. Não aprenderam as crianças que ficaram em casa e não aprendeu o governo com as evidências científicas. 

Não tem como continuarmos assistindo ao mesmo roteiro quando aumentou em 66% no número de crianças não alfabetizadas em dois anos de pandemia. Elas são mais de 2 milhões hoje em um Brasil que já não ensinava direito a ler e escrever. 

Para onde vamos se continuarmos insistindo que deixar as crianças em casa é a melhor solução para frear a pandemia? É urgente tirar esse peso da escola e ajudá-la a fazer seu trabalho para o desenvolvimento do País. Temos vacinas, aprendemos a viver com protocolos. É preciso mudar de sessão, trocar o filme, encerrar a história antiga. As escolas precisam voltar a ensinar nossas crianças.

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ‘ ESTADO’ E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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