Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Volta às aulas em SP: sindicato das escolas particulares critica decisão de Covas

Para entidade, liberação só do ensino médio vai quebrar colégios de educação infantil e desencorajar pais; segundo a Prefeitura, decisão é para evitar aumento de casos da covid-19

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 16h02
Atualizado 22 de outubro de 2020 | 19h36

O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado (Sieeesp) criticou nesta quinta-feira, 22, a decisão do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), de só liberar aulas curriculares presenciais para alunos do ensino médio a partir de 3 de novembro. Nas demais etapas, serão permitidas apenas atividades extracurriculares, como de acolhimento ou idiomas. A entidade teme que um adiamento das atividades regulares nas escolas de educação infantil (creche e pré-escola) leve a um cancelamento ainda maior de matrículas.

No ensino infantil e fundamental, serão permitidos, no máximo, 20% dos alunos por dia. Já no ensino médio, não haverá limite de porcentagem de alunos para volta às aulas. "O critério será o distanciamento de 1,5 metro em sala de aula, então será necessário dividir turmas", disse ao Estadão o secretário municipal de Educação, Bruno Caetano. Mesmo nas escolas com ensino médio que retornarem, a volta dos alunos não será obrigatória - dependerá da adesão dos pais. 

Para Benjamin Ribeiro, presidente do Sieeesp, a volta dos alunos do ensino médio é a menos necessária. "Os maiores, a partir de 8 anos, interagem muito bem com a aula online", diz. "Isso (o adiamento do retorno na educação infantil) vai acabar de quebrar as escolas." O Sieeesp calcula que 30% dos colégios de educação infantil já fecharam por causa da pandemia.

Havia uma expectativa, por parte das escolas particulares, de que o prefeito autorizasse o retorno de mais etapas do ensino e um porcentual maior dos estudantes. Para Ribeiro, a decisão de só liberar o ensino médio também pode acabar desencorajando os pais dos estudantes a mandar os filhos de volta à escola. “O pai pensa que, se está proibindo, é porque realmente não pode voltar. Nenhum país do mundo fez isso.”

A Prefeitura justificou a decisão de retorno apenas para o ensino médio com o argumento de que os jovens dessa etapa já estão em circulação pela cidade e, portanto, a volta teria menos impacto na transmissão do coronavírus na cidade. A gestão municipal apresentou, ainda, dados de abertura na Europa que demonstram aumento de casos. 

Oito em cada dez paulistanos são contrários ao retorno das aulas presenciais ainda em 2020, segundo revelou uma pesquisa Ibope/TV Globo/Estadão divulgada na semana passada. Educadores avaliam que o longo período de colégios fechados pode aumentar os déficits de aprendizagem e as taxas de evasão escolar, sobretudo entre os alunos mais vulneráveis. 

Sob a perspectiva da saúde, porém, cientistas e médicos ainda não têm clareza sobre o papel de crianças e adolescentes na transmissão do vírus e no avanço da pandemia - há uma preocupação com o elevado índice de infecções assintomáticas nesta faixa etária. 

Procuradas pelo Estadão nesta quinta-feira, escolas particulares da capital preferiram não comentar o anúncio de Covas. Elas aguardam publicação oficial das regras pela Prefeitura. A Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), que representa instituições particulares de elite como os Colégios Bandeirantes, Dante Alighieri e Porto Seguro, também não se manifestou. 

Para Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp), entidade que representa docentes da rede privada, a decisão de liberar aulas no ensino médio não tem "benefício pedagógico" e haverá baixa procura. Napolitano criticou a defesa de retorno feita pelo sindicato que representa as escolas particulares. 

"Eles estão considerando que a presença do aluno na escola facilitará a rematrícula, só estão pensando na questão comercial, em vez de ter uma atitude mais propositiva em termos pedagógicos." 

Um levantamento da Abepar indicou na última sexta-feira que todas as escolas do grupo pretendiam voltar com as aulas curriculares presenciais no dia 3. Por outro lado, como o Estadão mostrou, parte dos colégios particulares da capital ainda não reabriu para atividades extracurriculares porque avaliou que não havia demanda dos pais e os custos de operacionalizar o retorno agora não compensariam em relação ao baixo número de interessados. 

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