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Viva a criança e o mestre

O que podemos fazer por crianças e professores para que eles tenham o que comemorar nos dias 12 e 15 de outubro? Podemos começar por respeitá-los

Rosely Sayão*, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2021 | 05h00

Dia da Criança e Dia do Professor no mesmo mês. E, nesse período de pandemia, com as escolas fechadas, aulas remotas para as instituições que as puderam oferecer e alunos que as puderam acompanhar, crianças e professores viveram uma solidão quase desesperadora.

Não, não me refiro à ausência de pessoas – tais como pais, família, colegas etc. – no entorno das crianças e dos professores. Foi a solidão que se sente por dentro, que faz a pessoa se sentir vazia e em estado permanente de carência, que eles experimentaram ao extremo.

O período da pandemia, com as consequentes medidas sanitárias, tornou essa condição mais aguda, mas já faz tempo que crianças e professores não têm muito o que comemorar nos dias de suas celebrações. As crianças, por exemplo, passaram a ser vistas como seres que devem ser, no futuro, desta ou daquela maneira. Nossa sociedade – e não apenas ela –, passou a tratar a criança como um “vir-a-ser” em potencial. 

Dessa maneira, passamos a dar extrema importância à formação delas para o futuro. Lotamos as suas agendas com cursos para que pudessem estar preparadas para as demandas que o futuro colocaria diante delas. Línguas, programação, esportes de alta performance, lutas, natação etc passaram a ocupar o tempo da criança que antes era usado para brincar. E desde bem pequenas.

Escolas construíram seus projetos pedagógicos para preparar a criança para ser cidadão um dia. No futuro, é claro. E tem mais: como as crianças já nasceram no mundo digital, achamos que devíamos colocar ao alcance delas todos os aparelhos possíveis, com direito a usar e abusar de redes. 

Muitos pais sequer perceberam que isso fazia bem a eles e não aos filhos já que, de olho grudado na tela, as crianças ficam mais tempo quietas e paradas, como muitos adultos gostam de achar que deve ser a criança. Foi assim – e tem sido assim – que retiramos da criança mais um pouco de infância que ainda lhe restava.

Se pudéssemos presenteá-las, no dia delas, um pouco de infância faria bem, não é? Brincadeiras com outras crianças, exploração da natureza, brincar na rua, andar na chuva, mexer com luz e sombra, fazer de conta, jogar queimada, rodar pião etc.

Ah, como elas iriam aproveitar essas brincadeiras sem brinquedos industrializados, sem telas, sem mundo virtual. Como iriam desfrutar de pouco mais do tempo presente que têm!

E a sensação de solidão dos professores surgiu agora, na pandemia? Não! É de bem antes. Só ficou agudizada quando eles receberam a responsabilidade de ensinar crianças e de se relacionar com sua classes mediados por uma tela. Foi um sufoco! 

Como segurar a atenção dos alunos em aulas virtuais, onde gravar conteúdos específicos, que metodologias usar, onde encontrar os equipamentos necessários e uma internet mais veloz, etc, etc, etc. Foram questões que colaboraram muito para que a condição de solidão docente ficasse cada vez mais forte. 

Mas o professor já se sentia terrivelmente só ao perceber que faz parte de uma categoria que costuma ser excluída da sociedade. Não valorizamos seu trabalho, não lutamos por políticas públicas que ofereçam condições dignas de trabalho a eles, não damos importância ao exercício árduo e diário que eles praticam. Não clamamos por investimentos na formação deles, não agradecemos o que fazem por nossa sociedade.

Uma professora me contou que, ao conhecer algumas pessoas e se apresentar como professora, ouviu, diversas vezes, a pergunta: “Mas você só dá aulas?”! Esse “só” mostra o descaso com que tratamos o exercício docente em nosso País. Aliás, só para ilustrar: um levantamento realizado pela Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontou que os professores brasileiros têm os piores salários entre 40 países avaliados no estudo. Que tal? 

O que podemos fazer por crianças e professores para que eles tenham o que comemorar nos dias 12 e 15 de outubro? Podemos começar por respeitá-los. Criança precisa ter um tempo presente e não apenas um futuro; professor precisa ter o reconhecimento social de seu trabalho.

Precisamos ouvir crianças e professores. Eles podem nos apontar os nortes que devemos seguir para que possamos oferecer melhores condições de infância e de trabalho a eles.

Precisamos exigir de nossos governantes que realizem investimentos na infância e no trabalho docente. Quem sabe assim possamos, sem hipocrisias sociais, 

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