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Violência no ar

Se não reagirmos a esse espírito de época, não duvido que os casos aumentem

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2019 | 03h00

A cena se deu na porta de uma escola infantil por esses dias. O pai de um aluno de cerca de dois anos foi buscar o filho e deselegantemente deixou a porta traseira do carro aberta enquanto pegava a criança. Por conta disso outro pai não pôde estacionar para também embarcar seu filho, o que deu início a uma discussão. O bate-boca escalonou para briga e os pais chegaram às vias de fato diante das crianças. “As pessoas estão ficando mais violentas. O que está acontecendo com o povo?”, perguntou-me a testemunha dos fatos, que me contou a história. 

Na mesma semana soube-se do caso do menor que assassinou uma garota autista em São Paulo e do aluno que esfaqueou a colega num colégio particular de São Bernardo. Acho que a pergunta procede. O que está acontecendo? 

De duas uma: ou estamos mais atentos a esses casos de violência interpessoal ou eles estão de fato aumentando. Sem um levantamento estatístico não é possível afirmar se é uma ou outra coisa. Mas mesmo que as pessoas não estejam mais violentas entre si há essa sensação no ar. Creio que ela é resultado de uma visão de violência que tem ganhado espaço no imaginário popular. 

Um dos fundamentos da civilização é o abandono do uso da força física pelos cidadãos, tornando-a prerrogativa do Estado. Para resolver minhas diferenças com alguém ou fazer prevalecer minha opinião, eu não posso sair por aí distribuindo socos e pontapés. Mas só abro mão desse comportamento porque todo mundo também o faz, transferindo para o Estado a exclusividade desse recurso. A não ser em situações muito excepcionais, claro. Por que você acha que dizem que a luta é o esporte mais antigo do mundo? Com certeza já tinha gente disputando corridas por aí ou vendo que jogava uma pedra mais longe antes da invenção da luta. Mas esporte depende de regras e, no alvorecer da civilização como a conhecemos, a primeira coisa que fizemos foi criar regras para brigar. Disciplinamos os embates físicos, mas também os outros embates, relacionados a bens, propriedade, direitos, assim por diante. 

No entanto, quando o uso da força passa a ser enaltecido por figuras em posição de liderança, cresce seu apelo para o cidadão. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, deu uma das declarações mais esclarecedoras até hoje para compreensão do atual governo ao dizer que o Brasil deveria desenvolver uma bomba nuclear, pois “se tivéssemos um poder bélico maior, talvez fôssemos levados mais a sério”. Mais claro, impossível: respeito se conquista com força. Esse é o espírito dessa época; essa é uma chave interpretativa para muitos aspectos do noticiário. 

E como se não bastasse essa legitimação da violência, são claros e abundantes os sinais de que o Estado quer devolver para o cidadão a prerrogativa que era sua (do Estado). Facilitação do porte de arma. Ampliação de excludentes de ilicitude. A força bruta está com tudo. 

Agora atingimos o ápice desse movimento com as declarações do ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Acho que pouca gente se deu conta da dimensão e da gravidade do que ele disse. Quando diz tranquilamente que chegou ao seu limite e, por isso, entrou armado para matar um ministro do STF, sendo impedido não por sua vontade, mas pela intervenção divina fortuita, Janot dá a entender que é razoável optar por um caminho que mina os fundamentos da moderna civilização. Eu decidi matar. Tentei fazê-lo. Não deu certo por acaso. Ou seja, como segundo ele: “tudo na vida tem limite”, quando tal limite é atingido, a pessoa está autorizada a quebrar o contrato social e tomar para si o uso da força física, fazendo justiça com as próprias mãos. Isso vindo do ex-chefe do Ministério Público, órgão que zela pelo interesse da sociedade no Estado democrático de direito, é mais do que a legitimização da violência. É praticamente uma defesa de seu uso. 

Não sei se os casos de agressão interpessoal vêm realmente aumentando. Mas se não reagirmos a esse espírito de época, não duvido que realmente comecem a disparar. E infelizmente será só mais um aspecto social em que o Brasil estará na contramão do mundo.

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