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Valorização da ciência deve ficar como grande legado da pandemia

Para especialistas, isso implica definir prioridades, avançar na interdisciplinaridade e criar formas de valorizar a carreira

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

12 de maio de 2022 | 05h00

Antes de março de 2020, o imaginário coletivo sabia da importância da ciência – a descoberta da penicilina e a vacina da pólio são marcos conhecidos. Mas foi a pandemia de covid-19 que deixou o mundo todo focado nos cientistas. Teríamos vacina? Em quanto tempo? A cada novo anúncio, crescia a expectativa por boas notícias e a admiração pela ciência. O desafio, agora, é aproveitar esse legado para trazer a ciência para o centro do debate no Brasil: pleitear investimentos, instigar o interesse dos jovens pela produção de pesquisa e promover a educação científica da população.

Nesse cenário, o passo número 1 é estabelecer prioridades. "Temos de ter mapeado no que devemos investir porque podemos ter excelência, e no que devemos investir porque precisamos de soluções", afirma Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "A biodiversidade é um recurso brasileiro poderoso, para explorar em saúde, medicina e cosmética. Já o subdesenvolvimento é um problema crônico que precisamos vencer. Os dois temas deveriam ser prioritários na ciência brasileira."

E se o primeiro exemplo ainda está ligado ao estereótipo mais comum do cientista, as pesquisas atreladas ao subdesenvolvimento têm aporte de muitos pesquisadores que não utilizam pipeta e tubo de ensaio. Apesar de a pandemia abrir os olhos da população para a ciência produzida em ambiente estéril, nem todo cientista usa jaleco e o progresso científico do Brasil depende também do investimento em pesquisas realizadas bem longe dos laboratórios. É a Sociologia que permite, a partir do recenseamento, saber onde há mais pobreza e desigualdade. É a Psicologia que possibilita o estudo do comportamento humano – e isso influencia todas as atividades e ações. "Você precisa da ciência para tudo. Tanto para estudar o DNA – que é objetivo, uma análise de laboratório – como para combater a fome, a desigualdade e o autoritarismo", afirma Janine.

E a questão vai além. Os desafios atuais, como a mudança climática, o uso de dados e até as questões de saúde e sociais decorrentes da covid, demandam um olhar interdisciplinar na produção de pesquisa.

"A complexidade das grandes questões contemporâneas dissolve a artificialidade das fronteiras que separam natureza e cultura, arte e técnica, ambiente e sociedade, entre outras dualidades estabelecidas pelo hábito disciplinar", explica o físico Márcio Barreto, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp. No entanto, apesar de artificial, essa compartimentalização está introjetada e não basta o esforço da ação conjunta de especialistas na abordagem de um problema. "Isso é um começo de caminho. Mas talvez seja necessário apostar na ciência reorientada pela questão que se impõe no horizonte, ou seja, a de que futuro nós queremos."

Não só os projetos precisam ser interdisciplinares como os próprios pesquisadores precisam ter possibilidades de formação mais eclética. "Imagina um engenheiro de ondas que pode ter conhecimento na área de Música e de Fisioterapia. Isso pode formar um novo campo de saber, dar instrumental para novas descobertas que dizem respeito a desafios brasileiros", compara Flávia Calé, presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG). Para isso, ressalva, é preciso que o estudante tenha mais mobilidade. "Quando a universidade promove essas possibilidades, temos mais repertório para atender aos desafios. A inovação tecnológica depende dessa capacidade de transitar entre conhecimentos para responder a problemas objetivos e brasileiros."

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