Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Vale usar até 'Matrix' para interpretação de texto

Colégios particulares do Estado de São Paulo diversificam estratégia para melhorar leitura de alunos

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Cada vez mais preocupados com a capacidade de seus alunos em interpretar textos, colégios particulares de São Paulo adotam novas estratégias para desenvolver a habilidade. Eles têm usado tablets para cronometrar o tempo de leitura, filmes, séries e projetos interdisciplinares, já que mais do que nunca a interpretação de texto tem sido cobrada em vestibulares importantes do País.

Na edição deste ano, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – que sempre teve como uma das principais características a avaliação da habilidade – apresentou questões de Matemática em que a interpretação de texto contou mais do que os cálculos, de acordo com professores de cursinho. A Fuvest, exame que dá acesso às vagas na Universidade de São Paulo (USP), tradicionalmente mais conteudista, neste ano também cobrou que os alunos fizessem mais relações entre conceitos, exigindo não só conhecimento, mas muita interpretação. 

Apesar da cobrança nos vestibulares, o Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa), divulgado na semana passada, mostra que os estudantes brasileiros de 15 anos têm dificuldade em integrar e interpretar textos. O Brasil obteve uma nota de 407 na área, enquanto a média de países desenvolvidos foi de 493 pontos. 

É exatamente a dificuldade em estabelecer conexões entre informações presentes em um texto que Adriano dos Santos, professor de Língua Portuguesa do Colégio Santa Maria, no Jardim Taquaral, zona sul de São Paulo, busca combater em seus estudantes de 1.º ano do ensino médio.

Para isso, ele utiliza filmes e séries para despertar o interesse deles. “No começo do ano, eu trabalho com Matrix e chamo a atenção deles para que leiam a linguagem corporal dos atores. Depois, mostro que a linguagem verbal também exige atenção aos detalhes e elementos para sua total compreensão”, disse Santos.

Com a análise da narrativa do filme, ele também trabalha a importância de os alunos atentarem a ironias, ambiguidades e informações nas entrelinhas. 

“A educação muitas vezes ignora a realidade do aluno, pensa só no que deve ser ensinado e não presta atenção no que está sendo aprendido. O cinema desperta o interesse do jovem e é isso o que temos que fazer na escola, nos aproximar deles.”

Relatório. No Colégio Magno, no Jardim Marajoara, também zona sul paulistana, um relatório mostrou que metade dos erros dos alunos em simulados do Enem acontecia por dificuldade na interpretação de texto e não por desconhecimento do conteúdo. O diagnóstico confirmou uma suspeita de muitos professores de outras disciplinas. “Eles acertavam as questões mais técnicas e diretas, mas erravam aquelas que exigiam mais interpretação. O estudo foi importante para que os demais professores soubessem que muitas vezes o aluno sabe o conteúdo, mas não entende o que foi pedido”, disse Valéria Aranha, coordenadora de Língua Portuguesa do colégio. 

Segundo ela, foi identificado que os alunos do ensino médio têm em geral dificuldade para estabelecer relações entre informações de um texto e chegar a uma conclusão. “Eles têm uma habilidade mais elementar, mas quando a interpretação é mais refinada e complexa há uma dificuldade. Por isso, precisamos criar esse degrau intermediário.”

Com o diagnóstico, os professores foram capacitados para que pudessem identificar quando o erro do aluno acontece por uma deficiência na interpretação. E começaram a, por exemplo, incluir questões mais descritivas, mudar a ordem de problemas nas avaliações externas e até mudar o cronograma de conteúdo para valorizar o que os alunos já sabem e estimular a interpretação.

Fundamental. O Colégio Pentágono, em Perdizes, na zona oeste, adotou neste ano uma plataforma de leitura para os alunos de 4.º e 5.º ano do ensino fundamental. Toda semana, as crianças têm como lição de casa ler uma reportagem e depois fazer atividades em um jogo online que avalia habilidades da leitura. 

Quando o aluno termina a atividade, o professor recebe um relatório que mostra o tempo que demorou para ler e quais foram as respostas. “Ele consegue saber se essa criança é capaz de identificar informações primárias e secundárias, se soube relacioná-las. Dependendo da dificuldade constatada, novas atividades são propostas”, diz Adriana Bulbovas, coordenadora do colégio. 

Em sala de aula, os professores valorizam a leitura em grupo com mais envolvimento entre as crianças. “Também faz com que os alunos leiam mais e possam desenvolver esse hábito”, ressalta Adriana.

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