TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Vagas em concursos públicos podem aumentar; saiba como estudar

Com mudanças na Previdência, servidores podem decidir antecipar aposentadoria. Cargos comissionados devem diminuir com Lava Jato

Ocimara Balmant, Especial para O Estado

23 Abril 2017 | 03h00

É tanta gente no mesmo cargo que a profissão já pode ser considerada uma das mais populosas do País: em todo o Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios (Pnad), há dez milhões de “concurseiros profissionais”. Gente cuja principal atividade durante anos é pesquisar editais, montar planos de estudo e fazer provas, sempre à espera do dia em que verá o nome publicado no Diário Oficial.

Nos últimos tempos, no entanto, o sonho da aprovação parecia um pouco mais distante por uma equação que não fechava: com a crise e o aumento do desemprego, mais gente decidiu pleitear um emprego público e garantir estabilidade. Ao mesmo tempo, os cortes orçamentários anunciados pelo governo fizeram os editais minguarem. Mas esse mesmo cenário político e econômico deu espaço para outra interpretação e, esta sim, tem animado os concurseiros em 2017.

Ao contrário do ano passado, os especialistas acreditam que o mundo dos empregos públicos será aquecido em 2017 por ao menos dois motivos. Em primeiro lugar, o anúncio da reforma previdenciária fez com que muitos servidores pedissem aposentadoria, o que levou a um déficit de funcionários no serviço público. Ao mesmo tempo, os desdobramentos da Operação Lava Jato estimularam a redução do volume de cargos comissionados, que devem ser substituídos por gente concursada.

“Quanto à Previdência, como a reforma ainda está porvir, o número de pedidos de aposentadoria deve aumentar nos próximos anos. O que é oportuno para quem presta concursos”, afirma Marco Antonio Araujo Junior, diretor do curso Damásio. “Em relação aos cargos comissionados, mesmo que a máquina decida não transformar todos os postos em concursados, um bom tanto terá de ser preenchido.”

Na soma, estima-se que sejam ofertadas 85 mil vagas para cargos públicos em 2017, isso sem contar aquelas destinadas a cadastro reserva, que devem chegar a 25 mil. É um número alto, mas bem longe de garantir a conquista dos 10 milhões de pretendentes. Nessa batalha que, na conta simples, mostra haver mais de cem candidatos disputando cada vaga, os cursinhos preparatórios registraram um aumento de matrículas de 30% desde janeiro, em comparação a 2016.

Consultoria. Os cursos preparatórios - presenciais, telepresenciais ou a distância - ainda são os mais buscados pelos concurseiros, mas o mercado de preparação para as provas também tem se diversificado para conquistar esse cliente que investe agora em busca de garantir estabilidade e salário razoável para o resto da vida.

O contabilista Alexandro Borrigueiro, de 34 anos, só conseguiu realizar o sonho de se tornar auditor fiscal da Receita Estadual de São Paulo, um dos concursos mais concorridos e difíceis, depois de contratar uma consultoria especializada. A ideia é que o consultor, após uma entrevista com o candidato, indique os melhores materiais e proponha um calendário de estudos, revisado semanalmente, que tenha dicas de provas e orientações de pontos a serem melhorados. 

“Embora eu trabalhasse nove horas por dia, eu conseguia render uma média de sete horas por dia, de segunda a sábado, mais umas três a quatro horas no domingo.” No concurso em que passou, em 2013, a concorrência foi de aproximadamente 40 candidatos por vaga.

A LS Concursos, consultoria contratada por Alexandro, nasceu em 2008 e hoje tem cerca de 3 mil alunos. Cada um paga R$ 295 de mensalidade para ter um consultor. “A ideia é montar um plano de estudo sob medida para cada aluno, respeitando o tempo de que ele dispõe e considerando o repertório que já tem”, afirma Leonardo Rangel, coordenador pedagógico da instituição.

O fato de não ter vínculos com os cursinhos preparatórios também possibilita às consultorias fazerem a triagem dos materiais adequados para cada exame. “Como cada banca cobra uma coisa, o consultor tem essa expertise para montar o planejamento de estudo mesclando conteúdos de várias fontes”, explica Rangel.

Se a ajuda externa facilita, a falta dela também não deve inviabilizar o sonho do cargo público. Seja por falta de recursos para pagar cursos preparatórios ou por convicção pessoal de que o aprendizado solitário é mais eficaz, muita gente é aprovada após meses ou anos de estudo autônomo em casa ou na biblioteca pública.

A advogada Cristina da Silva, de 29 anos, foi aprovada na quarta tentativa que fez para o cargo de escrevente judiciário do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP). Sempre estudando sozinha. “Pegava as provas passadas, mapeava o conteúdo cobrado e montava meu plano de estudo com apostilas e textos de lei.” 

Cristina acredita ter conseguido a vaga quando decidiu manter o foco e parar de estudar para vários concursos e quando conseguiu entender a lógica da banca. “Não adianta saber a matéria e não saber fazer prova. Você tem de entender as ‘manhas’ daquela banca, o jeito que costuma perguntar e os assuntos mais cobrados”.

O plano dela, agora, é passar em um concurso para o Ministério Público (MP). E, nesse caso, deve recorrer a cursos preparatórios. Na primeira tentativa para Promotoria de Justiça, Cristina não conseguiu passar da primeira das quatro fases. Mas ela não vai desistir. Mesmo que demore anos.

Lições da reprovação. Além das horas de estudo e dos fins de semana em uma sala de prova, os concurseiros têm em comum o gostinho amargo da reprovação. Apenas em casos muito excepcionais alguém é aprovado no primeiro concurso que presta. A maioria tem de aprender a lidar com a frustração de não ver o nome na lista de aprovados sem desanimar.

Em média, um candidato demora de dois a três anos para passar - até mais, dependendo do cargo. Portanto, persistência é fundamental. A analogia é com uma maratona: mais do que velocidade, é preciso resistência. Cruzar a linha de chegada depende de uma equação que une o controle da ansiedade, o domínio do conteúdo e a estratégia de execução.

10 DICAS PARA QUEM ESTUDA SOZINHO

Não exagere

Não adianta estudar 20 horas seguidas para dar conta do atraso. Sem descanso, o cérebro não funciona. Estipule, então, horários para comer e dormir e não se esqueça que a concentração diminui a cada 50 minutos de estudo consecutivo. Logo, pare 10 minutos por hora para descansar.

Seja realista

Não se obrigue a dar conta de mais conteúdo do que consegue. Se está difícil seguir o planejamento, reveja e faça um mais factível. O prazer de conseguir cumprir a meta já será um estímulo.

Leia o edital

Além das informações sobre o cargo, ele traz as disciplinas que vão compor a prova e o peso de cada uma na nota. Isso ajuda a montar um planejamento com prioridades e dedicação maior ao que será mais cobrado.

Aproveite “amostras grátis”

Participe de eventos de cursinhos preparatórios. Neles, você tem contato com bons professores de graça. Várias instituições promovem simulados gratuitos, com divulgação do ranking das notas.

Não erre no material

Consulte os fóruns especializados para saber a opinião de outros concurseiros sobre os melhores materiais (livros, apostilas e videoaulas) para a prova que quer fazer.

Resolva provas anteriores

Elas estão em sites especializados, fóruns de concurseiros e sites das empresas organizadoras. Além de testar seu conhecimento, é a forma mais eficaz de entender a lógica da banca.

Nunca “deixe para lá”

Só avance na matéria se compreender o conteúdo todo. Pular partes pode atrapalhar o aprendizado. Só inicie novo ciclo de estudos se o número de acertos em exercícios ficar próximo de 85%.

Estude em grupo

Una-se a dois ou três amigos que vão fazer a mesma prova. Serve para tirar dúvidas e como estímulo.

O Google não sabe de tudo

Compare as informações antes de acreditar piamente em um conteúdo em que você não conhece a credibilidade da fonte.

Português é difícil

Como parece a mais fácil das disciplinas do edital, muita gente ignora e se dá mal. Português tem peso alto e costuma ter os maiores índices de reprovação.

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FIQUE DE OLHO

Concursos previstos para 2017

Polícia Rodoviária Federal

O cargo tem requisito de formação superior em qualquer área e carteira de habilitação na categoria B ou superior.  A remuneração inicial é de cerca de R$ 9 mil. 

Polícia Federal

Vagas para agentes, escrivão e delegado. A remuneração inicial vigente é de R$ 12.000 a R$ 18.000, a depender da carreira. Para ser delegado da PF, é preciso ter o bacharelado em Direito e três anos de experiência em atividade jurídica ou policial. 

Ministério Público da União (MPU)

O concurso deve abrir vagas para técnico (nível médio ou médio/técnico) e analista (superior). As carreiras estão entre as mais disputadas pelos concurseiros/as de todo o país devido a salário e benefícios. Os vencimentos iniciais variam de R$ 6 mil a R$ 10 mil

Senado Federal

Deve abrir vagas para as carreiras de analista, consultor e técnico legislativo. Algumas vagas exigem formação em cursos específicos e para outras a formação superior pode ser em qualquer área. Os vencimentos iniciais variam de R$ 17 mil a R$ 23 mil.

Câmara dos Deputados

Está prevista a realização de concurso público para os cargos de Técnico Legislativo e Analista Legislativo. Algumas vagas exigem formação em cursos específicos e para outras a formação superior pode ser em qualquer área. Os vencimentos iniciais variam de R$ 14 mil a R$ 22 mil.

Agência Nacional de Saúde (ANS)

Serão abertas vagas para as funções de analistas administrativos e especialistas em regulação. A remuneração inicial vigente é de aproximadamente R$ 12.500 para Analista e de R$ 14.000 para Especialista. 

Tribunal Regional Federal (TRF)

A previsão é de vagas para as cinco regiões. Nos TRF 1 (DF, AC, AP, AM, BA, GO, MA, MT, MG, PA, PI, RO, RR e TO)  serão ofertadas vagas para técnico judiciário, analista judiciário e juiz federal substituto. No TRF 2 (RJ/ES) e 3 (SP/MS), as vagas serão para juiz federal substituto. No TRF 4 (RS, SC, PR),a oferta será para as carreiras de técnico judiciário e analista judiciário. Por fim, no TRF 5, que atende os demais Estados, a oferta será para as carreiras de técnico judiciário, analista judiciário e juiz federal substituto. 

Tribunal Regional Eleitoral (TRE)

Os tribunais dos estados de BA, CE, MS, PR, RJ, RN, SC e TO devem ofertar vagas para as carreiras de técnico judiciário e analista judiciário.  Os vencimentos iniciais variam de R$ 6 mil a R$ 10 mil.

Tribunal Superior do Trabalho (TST) 

A seleção vai oferecer oportunidades para técnico judiciário (nível médio) das áreas administrativa, segurança jurídica e programação; e para analista judiciário (nível superior) nas áreas administrativa, judiciária, contabilidade, análise de sistemas, suporte em tecnologia da informação e taquigrafia. 

Receita Federal 

O concurso do órgão deve trazer vagas para os cargos de Assistente-Técnico Administrativo, Analista Administrativo, Analista Tributário e Auditor Fiscal. 

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