USP vai discutir com alunos pós-graduação paga

A Universidade de São Paulo (USP) vai abrir para a sua comunidade - professores, alunos e funcionários - a discussão sobre o destino dos cursos pagos, que têm causado polêmica na instituição. Depois do trabalho para mapeá-los, terminado este mês, a pró-reitoria de pós-graduação concluiu que 75% dos cursos de especialização na USP, que incluem MBAs, não são gratuitos. A intenção é permitir apenas patrocínios de empresas e nenhuma cobrança dos alunos, mas a idéia será analisada em workshops e debates programados para novembro. São atualmente pouco mais de 3 mil alunos cursando especializações, os chamados cursos de pós-graduação lato sensu (que não fornecem título de mestrado ou doutorado). Dos 66 em funcionamento e registrados na pró-reitoria, 50 são pagos e duram de alguns meses a dois anos. Há cursos que custam até R$ 30 mil ao aluno. "Os debates vão permitir que tomemos uma decisão mais madura", diz a pró-reitora de pós-gradução da USP, Suely Vilela. Em abril, ela suspendeu a criação de cursos até que terminassem os trabalhos de análise. Na ocasião, a instituição não sabia nem sequer quantos cursos cobravam taxas e não impunha regras para a sua realização. A pró-reitora instalou ainda uma comissão para traçar um perfil da especialização. Suas conclusões mostram que grande parte dos cursos é oferecida pelas fundações de direito privado que mantêm convênio com a USP. "Os recursos recebidos são também canalizados para atividades de graduação e pesquisa", diz o presidente da Fundação Instituto de Administração (FIA), Claudio Felisone. A entidade oferece 12 cursos de MBA, alguns pagos pelos alunos, outros por empresas. Por manterem convênios com a USP, utilizando seus professores e estrutura e devendo repassar parte da arrecadação para a reitoria, o certificado é emitido com o nome da universidade. "Esses cursos começaram apenas nas fundações e podem continuar existindo apenas lá se a USP criar amarras que dificultem sua gestão", diz Felisone. O também polêmico debate sobre a atuação das 30 fundações de apoio acaba sendo indissociável da discussão sobres os cursos pagos. Outra comissão montada pelo reitor estuda as vantagens e desvantagens para a USP dessas entidades, que são montadas por professores da universidade e oferecem cursos e consultoria para empresas. Exclusividade - "Para que esses cursos tenham qualidade, atingindo padrões dados pela sociedade, são necessários investimentos de recursos", diz a diretora da Faculdade de Administração, Economia e Contabilidade (FEA), Maria Tereza Fleury. Entre as unidades da USP, a FEA é a que mais oferece cursos pagos. São 18, todos eles feitos com o apoio das fundações. Alguns são pedidos por empresas e ministrados exclusivamente para seus funcionários. Entre as propostas da comissão que estudou os cursos pagos está o impedimento de reserva de vagas para empresas. "Elas poderiam apenas patrocinar o curso. Uma parte dos recursos iria para as despesas e outra para um fundo que promoveria políticas de importância social", explica Suely. Segundo ela, essas idéias e a suspensão de qualquer pagamento feito pelo aluno não foram consensos na comissão e por isso serão discutidas com a comunidade. Os debates estão marcados para 27 de novembro. "Os cursos pagos são um desvio brutal das finalidades da USP", afirma o coordenador da Associação dos Pós-Graduandos da USP, José Menezes. Para ele, a universidade acaba perdendo a sua finalidade social e passando a servir ao mercado. "Além disso, cria diferenças entre os professores, já que a remuneração por esses cursos é muito maior do que seus salários na USP." Há hoje cerca de 20 mil alunos de pós-graduação na universidade, entre cursos stricto sensu, especializações e mestrados profissionalizantes.

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