Filipe Araújo/AE
Filipe Araújo/AE

USP vai criar um ‘museu vivo’ do cerrado na capital

Aluno de mestrado descobriu espécies únicas da vegetação em meio a obras de terraplenagem, a poucos metros da Botânica

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2011 | 18h04

A Universidade de São Paulo (USP) vai inaugurar um “museu vivo” do cerrado na Cidade Universitária, na zona oeste da capital. O museu será composto por uma rede de reservas desse tipo de vegetação, que cobria boa parte da cidade de São Paulo há alguns séculos, mas que foi praticamente extinta da malha urbana ao longo dos anos. A inauguração das reservas vai ocorrer no dia 7 de dezembro.

 

O anúncio só foi feito após um aluno de mestrado da Botânica descobrir espécies únicas da vegetação de cerrado em uma área onde está sendo construído um conjunto intitulado Parque dos Museus. Há cerca de duas semanas, o Estado revelou que 1.328 árvores teriam de ser cortadas para dar lugar ao complexo de 53 mil m² - o equivalente a uma pequena floresta urbana como o Parque Trianon.

 

“Quando fiquei sabendo disso, fui na mesma hora ver que tipo de vegetação havia ali. Fui de roupa social e sapato de reunião. Eu me sujei todo, mas valeu a pena. Encontrei espécies que não existem em nenhum outro lugar da cidade”, diz o ambientalista Ricardo Cardim, autor das descobertas. Ele procurou autoridades da universidade, que então decidiram suspender as obras de terraplenagem.

 

“Vamos agora transplantar toda a vegetação de cerrado que ainda está na área das obras para as novas pequenas reservas que vamos criar nesse entorno”, afirma o professor Welligton Delliti, coordenador de Gestão Ambiental da USP.

 

Ao visitar o local das obras, porém, fica claro que uma significativa - e rara - área de cerrado provavelmente foi destruída pelas máquinas. O trecho mais bem preservado, com uma variedade rara de língua-de-tucano e uma das poucas totalmente cobertas por capim-flecha do cerrado, está dentro do perímetro das obras, a poucos metros do local que já foi terraplenado.

 

A explicação para o problema está na legislação ambiental - no levantamento obrigatório para autorizar a obra, é exigido apenas o número de árvores a serem cortadas, e não é necessário avaliar a biodiversidade nem a raridade dos outros tipos de vegetação existentes no local. Por isso, a cúpula da universidade sequer sabia da existência desse cerrado, mesmo a área estando a poucos metros da Botânica.

 

Fragilidade

 

“O cerrado é uma vegetação frágil, que precisa de luz para crescer. Se chega uma planta que tapa o sol e não tem predadores naturais por ser de outra região do globo, é difícil que ele sobreviva”, explica Cardim. “Há pouca pesquisa sobre como espécies de cerrado podem germinar e serem plantadas. Essa descoberta poderá ser uma grande fonte de conhecimento”, completa professora Vânia Regina Pivello.

 

Centro da cidade era coberto por cerrado

 

A cidade de São Paulo é famosa por estar em área de encontro de biomas, mas grande parte da região central da cidade - como as áreas dos bairros de Vila Mariana, Bela Vista e Jardins - era coberta por cerrado. Outra prova disso é que o nome da antiga vila que deu origem à cidade, São Paulo dos Campos de Piratininga, traz referência a esse tipo de vegetação - campo é outro nome pelo qual o cerrado é conhecido. Hoje, esse bioma está praticamente extinto na malha urbana e só é encontrado na região do Butantã e no Pico do Jaraguá. Fora da capital, há cerrado também no Parque Estadual do Juqueri, em Franco da Rocha.

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