USP quer melhorar graduação com recursos de empresas

As idéias são muitas e diversas, mas esbarram numa solução comum. A Universidade de São Paulo (USP) precisa buscar recursos em empresas privadas, sociedade civil e ex-alunos bem sucedidos para melhorar a graduação. É o que diz a nova pró-reitora de graduação da USP, Selma Garrido Pimenta. Aos 62 anos, ela foi indicada ao cargo pela reitora Suely Vilela, depois de dirigir a Faculdade de Educação da instituição. Formada e pós-graduada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), a educadora chegou à USP em 1989, passou por seis concursos públicos e hoje é professora titular de didática. Selma tem um jeito tranqüilo e organizado de falar. Mas as posições são fortes. "Por que não pensar numa parcela de lucro de determinadas empresas destinada aos alunos da universidade?" Em suas propostas, o dinheiro iria principalmente para bolsas. E ajudaria a manter jovens carentes na USP, aumentaria o número de alunos em programas de iniciação científica e estimularia estágios em escolas públicas de estudantes de cursos de Licenciatura. Ela também fala em mudanças na Fuvest. "Precisamos adequar o vestibular aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que é o patamar desejável de formação para todas as áreas. Hoje, temos algumas distorções, a interlocução básica são os cursinhos." O mandato de pró-reitora tem dois anos e é renovável. Outras três áreas também têm suas pró-reitorias: a pesquisa, chefiada atualmente pela geneticista Mayana Zatz; a pós-graduação, pelo físico Armando Corbani Ferraz, e a cultura e extensão, pelo sociólogo Sedi Hirano. A seguir, as principais propostas para a graduação. CURRÍCULO Entre 2003 e 2005, a USP realizou avaliações internas, que, a partir de agora, vão nortear muitas das iniciativas. As unidades se auto-avaliaram e professores de fora da instituição e do País opinaram sobre o que viram. Uma das conclusões foi a de que é preciso trazer a pesquisa para mais perto do ensino e da aprendizagem. Para isso, Selma defende uma grande ampliação do número de alunos que fazem a chamada iniciação científica durante a graduação. Essas pesquisas só podem ser realizadas com recursos que chegam à universidade por meio de bolsas aos alunos, financiadas por entidades como Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Atualmente, são 1.600 bolsas de iniciação científica por ano. "Nosso plano é, no mínimo, dobrar", diz a pró-reitora. O valor médio é de R$ 300 por mês. "Os recursos para isso podem vir de uma parte orçamentária, mas poderíamos ter a colaboração de setores da sociedade em geral, da iniciativa privada, bancos, editoras, jornais, além dos egressos da USP. Eu acredito que teremos um retorno muito significativo." Segundo ela, é preciso um movimento curricular que tome os problemas da sociedade como ponto de partida para a formação dos graduandos. "Um profissional hoje que não tiver uma formação bem qualificada na área da pesquisa corre o risco de ser um reprodutor de fórmulas tradicionais." BIBLIOTECAS BÁSICAS "O livro ainda é importante, principalmente em algumas áreas do conhecimento", diz Selma. Ela explica que até algum tempo atrás se entendia que o aluno da graduação poderia fazer a sua própria bibliotecas, comprando os livros aos poucos. "Mas a pauperização da sociedade aponta para que a universidade seja esse suporte. Temos grandes bibliotecas, mas é preciso ampliar a quantidade de exemplares." A pró-reitora conta que estão sendo mapeadas as unidades que trabalham menos com biblioteca e mais com suporte eletrônicos para artigos e periódicos. Selma, mais uma vez, lembra dos mecanismos adicionais para trazer recursos a fim de criar as bibliotecas básicas. VESTIBULAR Para a pró-reitora, o vestibular da Fuvest precisa se adequar aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), desenvolvidos por educadores e governo nos anos 90 para nortear o ensino médio no País. "Esse é o patamar desejável de formação para todas as áreas e passarão a ser, mais, os nossos interlocutores no exame." Ela afirma que hoje os cursinhos pré-vestibular influenciam na prova, o que é "uma distorção". Para Selma, a mudança na Fuvest vai fazer com que as escolas da rede pública também cumpram os PCNs. Um grupo, no entanto, ainda estuda outras mudanças para a Fuvest. Entre elas, que o vestibular não seja mais dividido em disciplinas. AJUDA À ESCOLA PÚBLICA Um dos desafios principais da pró-reitoria é a inclusão, ou seja, como trazer mais estudantes de escolas públicas para a USP. Selma acredita que é preciso interferir na escola para que isso aconteça. E critica os governos, falando da queda da qualidade do ensino. "O contingente da exclusão tem sido aprofundado por uma política educacional brasileira que optou por ampliar a quantidade do acesso. Isso gera o quadro atual: alunos terminando o ensino fundamental e médio com carências socioeducativas." Uma das propostas da nova pró-reitoria é a de criar estágios curriculares, com recebimento de bolsas, para estudantes de cursos de Licenciatura na USP. Hoje há mais de 4 mil deles, em áreas como matemática, português, física e química. Serão feitos convênios com as redes públicas e alunos a partir do segundo ano poderão participar. "O estágio propicia formação inicial mais próxima da realidade e funciona como formação contínua para os professores que atuam nas escolas." COTAS "É preciso ampliar e democratizar o acesso à USP, sem perda da qualidade seletiva do ingresso. A seleção continuará a ser por mérito", deixou claro a pró-reitora. A USP tradicionalmente tem uma posição contrária às cotas no ensino superior. O que a instituição oferece, e continuará a oferecer, são isenções na taxa de inscrição do vestibular. Para os alunos carentes que ingressarem na instituição, está sendo proposta também uma ampliação do programa de bolsas - para moradia, alimentação e transporte. "Não é suficiente o aluno ingressar, ele precisa de apoio para permanecer." Mas Selma chama a atenção para outro desafio. "Os jovens e adolescentes estão cada vez mais distantes da USP. Eles já nem pensam que a USP é uma possibilidade porque ouvem de seus professores que a instituição não é para alunos de escolas públicas", diz a pró-reitora. "Talvez fosse o caso de termos, sem medo da palavra, uma estratégia de marketing direcionada aos alunos da escola pública. Ainda não sei como, mas precisamos fazer isso." INTERNACIONALIZAÇÃO "Uma questão que se supõe para a graduação é o domínio da língua estrangeira", diz. Segundo ela, programas que permitam aos alunos estudar, no mínimo, uma segunda língua precisam ser ampliados. Projetos como o do duplo diploma, em que parte da graduação é feita na USP e parte numa universidade estrangeira, também vão receber apoio. "A mensagem principal é de que USP está no ranking das 200 primeiras universidades mundiais, mas queremos estar entre as 40."

Agencia Estado,

30 de janeiro de 2006 | 10h43

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