NILTON FUKUDA/ESTADAO
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USP 2024: Um debate sobre o futuro da universidade

Encontro de reitores internacionais promovido pela USP e pelo 'Estado' mostra que os principais desafios das instituições públicas - do financiamento à manutenção da excelência acadêmica - são globais. E podem ser superados de forma conjunta

O Estado de S. Paulo

16 Março 2016 | 03h00

Rumo aos 90 anos, que serão completados em 2024, a Universidade de São Paulo (USP) está em momento de autoavaliação. Depois de realizar um diagnóstico interno sobre seus 82 anos de vida, a instituição agora compartilha informações com as principais universidades parceiras no exterior para, juntas, abordarem questões semelhantes. O objetivo maior: descobrir o que é preciso fazer para garantir o futuro.

Esse foi o mote da conferência USP 2024, realizada na semana passada na Cidade Universitária e em outros câmpus da instituição, com apoio do Estado. O debate reuniu reitores de cinco universidades estrangeiras com as quais a USP tem parceria: Humboldt de Berlim, de Buenos Aires, de Tsukuba, do Japão, e as francesas Jean Moulin Lyon 3 e Sorbonne Paris Cité.

“A sobrevivência das universidades, como instituições de qualidade, vai requerer mudanças profundas de governança da organização, do desenho do currículo, novas abordagens de ensino, do acesso dos estudantes e de recrutamento e promoção dos professores”, resumiu o reitor da USP, Marco Antonio Zago, na abertura do evento.

Para Zago, alguns desafios são como financiar as universidades e se elas devem ser abertas a todos. As instituições francesas, por exemplo, relataram não ter processo de seleção para ingresso no primeiro ano.

Algumas instituições convidadas são mais antigas que a USP, com grandes conquistas acadêmicas. A Humboldt de Berlim, por exemplo, existe há mais de 200 anos e teve 29 pesquisadores laureados com prêmios Nobel. 

Em tom unânime, os reitores presentes apontaram que os desafios de todas as universidades, em tempos de globalização, são muito similares: internacionalização, financiamento, igualdade de gênero, acesso de estudantes, desafio do ensino diante das novas tecnologias e da universalização da informação com a internet, balanço entre quantidade e qualidade na pesquisa e multidisciplinaridade.

“A relevância dessa relação internacional com a USP tem sido uma das coisas mais importantes para procedermos uma reflexão sobre a própria universidade”, afirma Raul Machado Neto, presidente da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional e organizador do evento. “São universidades em boa parte mais consolidadas, mais tradicionais, e estamos no processo de fazer uma reflexão e adaptar algumas dessas modificações em relação às experiências que eles já passaram.”

Para Jacques Marcovitch, ex-reitor da USP, o mundo acadêmico está em permanente revolução. “Líderes universitários, em nível global, têm sido confrontados com transformações nunca vistas na história do ensino e da pesquisa.” O engajamento social na educação superior, a revolução digital e os crescentes custos do trabalho científico, segundo ele, são desafios para as universidades nos próximos anos. 

Foto: Para ex-premiê espanhol Felipe González, missão da universidade é educar para cenário de incertezas

Parceiros. Machado Neto explica que as cinco instituições participantes foram escolhidas por causa de seu alto nível de qualidade, mas também por serem todas públicas, como a USP, e por serem parceiras de pesquisa de longa data (mais informações no quadro abaixo). Com as universidades de Sorbonne e de Tsukuba, a USP compartilha escritórios. As duas têm sala no câmpus da universidade em São Paulo e a USP conta com um gabinete na instituição francesa, o que facilita o trânsito de estudantes e professores. 

Com a Universidade Jean Moulin Lyon, há uma iniciativa de dupla titulação com o curso de Direito, por meio da qual alunos daqui podem fazer aulas extras de direito francês e ganhar o diploma nessa área. Há também um convênio de cooperação acadêmica, com intercâmbio de pesquisadores, em cursos de ciências humanas.

Com a Universidade Humboldt de Berlim estão sendo desenvolvidos um projeto de pesquisa sobre cidades sustentáveis e uma cooperação em medicina. Há um contrato entre o Hospital Charité da Universidade de Berlim com a Faculdade de Medicina da USP para pesquisas em coração, câncer e doenças genéticas.

Existe, ainda, uma aliança com as universidades de Buenos Aires e Autônoma do México, o que envolve a mobilidade de alunos, formação de grupos de pesquisa conjuntos e criação de mostras itinerantes. “Queremos consolidar uma presença ativa nesse cenário latino-americano, que ainda falta”, explicou Machado Neto. “Na América Latina, as universidades podem representar as forças para as mudanças sociais e econômicas”, completou Zago.

José Goldemberg, também ex-reitor da USP e atual presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), explicou que a ideia de planejar o futuro e trocar experiências com os parceiros surgiu após coordenar um estudo sobre os 80 anos da USP, completados em 2014. 

“O que descobrimos é que há altos e baixos. Somos uma universidade pública que custa para o povo de São Paulo parte dos seus impostos e, por isso, temos de responder às demandas do povo. A pergunta era: fizemos isso? Em parte, sim, mas a qualidade do trabalho não é tão grande quanto o esperado”, avaliou Goldemberg, em sua apresentação na abertura do evento.

Na opinião do ex-reitor, a USP não pode se acomodar por ser uma das 200 melhores do mundo. “É bom, mas poderia ser melhor. O propósito do nosso estudo não era só olhar o passado, mas buscar o futuro, onde estaríamos em 10, 20 anos. Por isso, convidamos universidades do mundo inteiro para nos dizer como elas estão e por que estão indo melhor do que nós.”

Convidado especial para a discussão, o ex-primeiro ministro espanhol Felipe González, que assumiu pelo período de um ano a Cátedra José Bonifácio da USP, lembrou que a sociedade que queremos no século 21 é a sociedade do conhecimento. 

Para isso, segundo ele, o papel da universidade é mais importante que nunca. “Porque define a quantidade e a qualidade do conhecimento das novas gerações”, afirmou. “E temos de treiná-las para transformar conhecimento em algo com valor para a sociedade.”

Adaptação. Ele frisou que o maior desafio que todas as universidades têm pela frente é educar as novas gerações para as incertezas. Para González, a universidade tem de antecipar o futuro, não apenas relatar o passado. “É difícil educar para a incerteza, mas temos a obrigação de fazer isso. É a única maneira de garantir que teremos capacidade de resposta e adaptação às mudanças que teremos.” Isso significa ensinar a ser criativo. “Em 2024, provavelmente haverá 60% a 70% de novas atividades que todavia ainda não existem e nem podemos imaginar.”

Os cinco reitores estrangeiros, além de Zago e Goldemberg, estiveram na semana passada no Estado em meio à conferência USP 2024, onde discutiram quais são os principais desafios de suas universidades e o que têm feito, individualmente ou em parcerias para resolvê-los. 

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Cooperação é chave para pensar sobre questões globais

Reitores da USP ressaltam importância do intercâmbio de experiências, seja na gestão ou em trabalhos acadêmicos

O Estado de S. Paulo

16 Março 2016 | 03h00

Para a universidade olhar para o futuro, é preciso olhar para os seus pares lá fora. A chamada internacionalização, considerada uma estratégia fundamental para planejar as instituições de ensino superior para as próximas décadas, parece remeter ao passado. Em sua criação, a USP recorreu ao modelo universitário francês, trazendo professores de lá para suas salas de aula. Hoje, no entanto, a ideia é de compartilhar experiências, erros e acertos, e buscar conjuntamente resolver problemas que atingem, em maior ou menor grau, universidades em todo o mundo.

“Os desafios que temos na Alemanha são bastante semelhantes aos de todas as universidades modernas e isso é resultado da globalização”, afirma Jan-Hendrik Olbertz, reitor da Universidade Humboldt de Berlim. “E alguns problemas atuais que precisamos resolver pela ciência são tão complexos que não é mais possível resolver por uma nação ou uma instituição ou mesmo por uma disciplina. Por isso, precisamos de cooperação internacional.”

Foto: Segundo Olbertz, alguns problemas são tão complexos que exigem esforço de mais de um país ou universidade

Para ele, entre os desafios estão o financiamento – como balancear verba pública e privada – e como manter a excelência. “Um dos pontos principais é a contradição entre ensino e pesquisa. Como garantir que os alunos vão participar de pesquisa de alto nível?” O alto índice de heterogeneidade que se tem na universidade também requer atenção especial na hora de planejar o futuro.

"Precisamos de algumas ideias para inclusão social, para deixar as portas abertas para pessoas jovens, que não deveriam depender do suporte econômico de seus pais para estudar.” 

Reitor da Universidade Jean Moulin Lyon 3, Jacques Comby concorda que, em muitos assuntos, as perguntas são mesmas em várias partes do mundo. Ele observa, no entanto, que as respostas às vezes têm de ser diferentes, levando em conta as características do país ou da região. “Muitas respostas precisam ser locais, por causa do contexto social, econômico ou político”, afirma Comby. “E a universidade é o melhor lugar para se obter essas respostas, baseadas em conhecimento.” 

No Brasil, a USP defende a internacionalização para criar um ambiente sem fronteiras ou bandeiras. “Nós queremos que nossos câmpus sejam verdadeiramente internacionais, em parceria não só com ambientes mais consolidados, mas também com os menos consolidados”, explica Raul Machado Neto, presidente da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional. “Nós mandamos e recebemos estudantes. Também enviamos professores e estabelecemos grupos de pesquisa.” 

Foto: Em momento de crescimento econômico baixo, Nelida sugere união das instituições de ensino superior

América Latina. Uma das iniciativas é fazer parcerias dentro da América Latina. Em 2014, por exemplo, a USP criou com a Universidade de Buenos Aires (UBA) e a Universidade Autônoma do México a Aliança Acadêmica Latino Americana. “A região está em um momento difícil de crescimento. Por isso é fundamental fazer alianças entre as universidades. De todo tipo: de inovação pedagógica, para novas tecnologias da informação, para a avaliação das carreiras. E isso traz uma situação de esperança não só para os universitários, mas para a região”, diz Nelida Cervoni, vice-reitora da UBA.

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Abordagem multidisciplinar se fortalece em pesquisas

Da epidemia de zika aos estudos climáticos, atuação conjunta propicia resposta mais rápida a vários assuntos complexos

O Estado de S. Paulo

16 Março 2016 | 03h00

Desafios cada vez mais complexos exigem uma colaboração cada vez maior entre diferentes disciplinas para serem resolvidos, e cabe às universidades fomentar essa multidisciplinaridade para atender às demandas da ciência e da sociedade. A opinião é unânime entre os reitores que participaram da conferência USP 2024. Eles listaram o incentivo a essas parcerias intelectuais como uma das prioridades da academia para os próximos anos.

“Os problemas globais não são simples, são extremamente complexos e exigem respostas interdisciplinares”, disse o reitor da Universidade Sorbonne Paris Cité, Jean-Yves Mérindol.

Um modelo clássico disso é o estudo das mudanças climáticas globais, que depende de uma forte colaboração entre várias áreas da ciência – incluindo as ciências sociais – para compreensão de suas causas, consequências e soluções, tanto do ponto de vista social, quanto econômico e ambiental. 

Foto: Questões tecnológicas também envolvem ciências sociais, diz Mérindol

Isso fica claro ao olhar a lista de autores do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas, que inclui desde meteorologistas e especialistas em física atmosférica até bioquímicos, ecólogos, médicos, economistas, sociólogos e antropólogos – cada um contribuindo com uma peça do quebra-cabeça.

O geógrafo Jacques Comby, reitor da Universidade Jean Moulin Lyon 3, chama atenção para a importância das ciência sociais, muitas vezes relegadas a um segundo plano de importância na hierarquia acadêmica. “A solução para o desenvolvimento não pode ser apenas tecnológica, científica. Precisamos da reflexão e da participação das ciências sociais”, diz o acadêmico francês, que estuda justamente as mudanças climáticas e outras formas de interface entre o homem e a natureza.

O mesmo princípio vale para questões tecnológicas mais específicas. “Por exemplo, se você procura uma nova solução tecnológica para um carro ou um telefone, você precisa das ciências sociais, porque não é só um problema tecnológico, é um problema social também”, diz o matemático Mérindol. “A interdisciplinaridade entre pesquisa básica, tecnologia e ciências sociais é muito importante, tanto para a universidade quanto para a indústria.” 

Até mesmo no campo da robótica, a multidisciplinaridade é indispensável, completa o reitor da Universidade de Tsukuba, Kyosuke Nagata. “Imagine que você tem uma empresa tentando desenvolver um cachorro-robô, que pode ser muito importante afetivamente para homens idosos que perderam suas famílias. Se algo acontece com esse cachorro-robô e ele para de funcionar, você diria que ele está quebrado ou morreu? Nós não sabemos”, diz o reitor japonês, que é biólogo molecular por formação. “Hoje a lei diz que ele está quebrado, mas para o homem velho ele está morto. Nesse caso, precisamos de ajuda da filosofia, de uma colaboração entre robótica e ética, robótica e lógica; e essa área é muito forte na nossa universidade.”

A ideia também foi incorporada numa iniciativa de excelência em pesquisas na Universidade Humboldt de Berlim. O reitor Jan-Hendrik Olbertz contou que há grupos que trabalham ciência da computação com música, ou matemática com comunicação. “Essa abordagem interdisciplinar permite à pesquisa contemporânea um conhecimento mais profundo e amplo.”

Incentivo. Tais parcerias entre disciplinas nem sempre ocorrem naturalmente, dizem os reitores – é algo que precisa ser incentivado pelas universidades, e que pode ocorrer tanto entre departamentos da instituição quanto entre pesquisadores de países e continentes diferentes.

A importância da interdisciplinaridade também pode ser vista na resposta à epidemia de zika e sua relação com malformações congênitas em bebês, em que virologistas, entomologistas, neurocientistas, geneticistas, médicos e assistentes sociais estão trabalhando em conjunto na busca de uma solução.

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USP quer renovar ensino e atrair talentos

Universidade de São Paulo defende ampliar alternativas de ingresso na graduação e quer garantir incentivos à carreira docente

O Estado de S.Paulo

16 Março 2016 | 03h00

Se as principais questões são semelhantes às de outras instituições de ponta mundo afora, o tamanho da Universidade de São Paulo (USP), com quase 100 mil alunos, e as especificidades do ensino superior no Brasil representam desafios adicionais para os próximos dez anos. Em entrevista ao Estado, o reitor da USP, Marco Antonio Zago, e o ex-reitor José Goldemberg, hoje à frente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), apontam esses desafios e indicam possíveis soluções. Ambos defendem contato mais próximo com a iniciativa privada e diversificação das fontes de verba além dos recursos públicos, principalmente com a crise econômica do País. Para eles, também é preciso modernizar as práticas de salas de aula, com mais foco no método do que no conteúdo, e investir na atração de talentos – múltiplas portas de entrada e mais incentivos para quem se interessa por graduação, pesquisa ou docência.

Quais são os principais desafios da USP nos próximos dez anos? 

ZAGO. São desafios similares aos de outras universidades do mundo. Passam pela questão de financiamento. No caso da USP, a busca de outras fontes de recursos além daqueles que vêm estritamente do governo do Estado. Em segundo lugar, a seleção de estudantes para a universidade. É claro que o panorama do Brasil é muito diverso em relação aos outros países, em que praticamente não há restrição à entrada na universidade. E aqui temos uma enorme competição: no caso da USP, de dez candidatos para uma vaga. Temos a questão da seleção dos professores e a progressão na carreira docente, a valorização das diferentes atividades da universidade. Na USP, é certo que muitos dos cursos são de elevada qualidade, são os melhores do Brasil em determinadas áreas, mas isso não se aplica genericamente a todos. Precisamos de melhora. O financiamento é também importante porque implica na questão da universidade com a sociedade que a mantém e não só a relação com os governos. E, finalmente, temos a questão da governança, como as universidades escolhem os seus dirigentes, como os docentes ascendem na carreira, como a universidade escolhe reitor, os diretores, enfim. 

GOLDEMBERG. A USP atingiu a maturidade após seus 80 anos de existência. Ela tem quase 100 mil alunos, mais de 5 mil professores e os quadros são mais ou menos estáveis, com a crise econômica do País e a diminuição dos seus recursos. E com o fato de a universidade não poder crescer infinitamente, ela enfrenta problemas de renovação e manutenção da qualidade. Como não ficar estagnado? É necessário aproveitar o fato de que muitos professores estejam se aposentando para escolher professores jovens, mais agressivos e mais dotados. Isso é um pouco difícil de fazer em universidades públicas, como a USP, em que as pessoas fazem concurso e são estáveis. Não é como nas universidades estrangeiras, em que há uma espécie de competição permanente. A razão pela qual a universidade funcionou bem nos primeiros anos foi porque atraiu jovens talentosos que estavam espalhados pelo País todo. Para a sociedade brasileira, no momento em que está agora, a inovação é muito importante. Depois de 80 anos de um sucesso razoável, as pessoas tendem a ficar confortáveis. É preciso ter novos desafios.

USP precisa atrair e manter talentos, defendem Zago e Goldemberg (foto) 

O governo japonês estabeleceu três classificações de universidade: as globais, as nacionais e as de revitalização social, priorizando algumas universidades de excelência para ter competitividade internacionalmente, inclusive com aportes extra de recursos. É uma experiência que já foi feita na Califórnia, nos Estados Unidos, e em outros lugares do mundo. O senhor acha que no Brasil deveríamos ter uma priorização de algumas universidades para termos competitividade internacional? 

ZAGO. Não se trata apenas de competitividade internacional. Trata-se de usar melhor os recursos para atender uma parcela maior da população, fazendo cada instituição assumir a vocação que tem. Há a experiência japonesa, a da Califórnia. Mas outros países estão adotando isso de maneira ativa, como a Alemanha e a Rússia, que elegeram instituições para competição internacional. Agora, isto não diz respeito à USP. É minha visão mais ampla sobre o ensino universitário. Temos quase 70 universidades federais e, certamente, qualquer um seria capaz de dizer que elas não são exatamente iguais e não deveriam ter a mesma visão. Essa questão prática caberia, inicialmente, ao governo federal. Porque, no caso do Estado de São Paulo, as três universidades públicas estaduais (USP, Unicamp e Unesp) cabem nessa categoria de universidades globais. 

A universidade tem condições de crescer e, ao mesmo tempo, atender essa demanda de acesso sem comprometer a qualidade das suas atividades acadêmicas? 

GOLDEMBERG. Não creio. A USP atingiu um tamanho em que vai ser impossível aumentar o número de estudantes e de professores. Já é uma das maiores universidades do mundo, com cerca de 100 mil alunos. A competição é muito grande, evidentemente, e é uma das razões pelas quais a universidade é boa. A universidade atingiu o seu limite e a situação econômica que está enfrentando hoje mostra que ela recebe das verbas do Estado aproximadamente 5% do ICMS, mas isso já está se mostrando insuficiente para atender às necessidades todas de uma universidade de ensino e pesquisa. Se ela fosse só de ensino, bastaria. O caminho é criar outras instituições. Não existe razão para que todas as universidades brasileiras sejam de ensino, pesquisa e prestação de serviço à comunidade. É impossível. Isso precisaria mudar. O Estado da Califórnia, que você citou, tem uma quantidade muito grande: são os community colleges, que não são universidades de quatro anos, mas de dois anos. A expansão do ensino superior no Brasil – talvez não no País, mas no Estado de São Paulo – passa pela adoção do modelo de community colleges.

Como a USP pode melhorar a relação com o setor privado em busca de verbas e parcerias? 

ZAGO. De várias formas. Em primeiro lugar, a questão central é a própria universidade se convencer de que essa é uma via não só possível, como necessária. Não só porque está ficando claro que o padrão de financiamento da universidade baseado apenas em recursos vindos do Tesouro do Estado tem muitas limitações. Neste momento, por exemplo, temos uma crise econômica grande no País, com redução na arrecadação de ICMS. A universidade não pode ficar dependendo estritamente dessas variações. Em segundo lugar, porque é benéfico para a universidade manter uma relação mais clara com a sociedade. Essa relação implica não só uma mudança nos padrões de financiamento, mas também uma oportunidade para que a sociedade possa contribuir para o planejamento, a gestão e a vida da universidade. 

GOLDEMBERG. As fundações que existem na universidade, como a Fusp e várias outras, fazem um pouco essa ponte. A queixa no passado era de que o professor universitário não queria saber da realidade. Queria fazer trabalhos acadêmicos e a indústria não tinha como atingir a universidade. Já há esses mecanismos (de aproximação entre a academia e os meios produtivos). É preciso aumentá-los, atraindo o setor privado. As universidades públicas americanas e algumas privadas sem fins lucrativos já enfrentaram esse problema com sucesso no passado.

ZAGO. Essa é a linha que estamos procurando seguir. Isso exige duas coisas. Primeiro, existem essas fundações, um dos braços que podem ser usados para isso. Mas ainda falta a universidade tomar uma clara posição formal com relação a essas fundações. Vive-se uma certa zona cinzenta, em que um grupo de pessoas na universidade valoriza essas fundações, se utiliza delas. Elas têm um papel importante, complementar na universidade. Mas há grupos que negam sua importância e entendem que isso é uma forma de parasitismo. Teremos de caminhar na regulamentação clara na função dessas fundações na universidade e o Conselho Universitário (órgão máximo da USP) terá de se manifestar. Da última vez em que houve tentativa de fazer isso, o Conselho Universitário foi impedido de discutir o assunto. Mas ele retornará porque isso é fundamental para que se possa progredir. Se queremos que isso tome uma proporção maior e traga contribuição significativa do ponto de vista financeiro para a vida da universidade, é necessário que tudo isso esteja muito transparente, regulamentado, e que as contas possam sempre ser examinadas por todos. Não estaremos inventando nada, mas simplesmente dando maior clareza para o funcionamento do que já existe. (A reitoria) pretende propor (um regramento para as fundações). Espero que seja neste ano. Não é viável imaginar que nos próximos decênios a universidade ficará presa exclusivamente ao modelo de financiamento estabelecido há mais de 20 anos. Foi muito bom, deu enorme liberdade para as três universidades públicas paulistas, mas a experiência está demonstrando que precisamos de outros mecanismos. 

GOLDEMBERG. Nas universidades do exterior, a escolha de novos professores depende dos diretores das unidades, dos decanos. Há muita liberdade e concorrência. Quando aparece um sujeito talentoso do Alabama, duas ou três universidades de primeira linha, como Harvard, tentam atrair essa pessoa oferecendo vantagens. No Brasil, isso não é possível, porque no funcionalismo público os salários são todos iguais. Isso sempre foi considerado um obstáculo grande. Mas o que reparo, com otimismo, é que cada vez que tem um concurso em São Carlos, ou na Medicina, quando um professor se aposenta, aparecem vários candidatos. É um sinal de vitalidade. Em um passado mais distante, algumas dessas cátedras eram quase hereditárias. Isso acabou. Agora existe competição. Tem muita competição para os doutores também, no começo da carreira. O melhor, evidentemente, seria dispor dos mecanismos que os reitores de outras universidades estrangeiras têm para atrair os mais competentes e mais promissores. Os órgãos do governo estão começando a introduzir alguns mecanismos, como no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, agência de fomento federal) com bolsas de excelência, e na Fapesp. No fundo, são gratificações pelo mérito. Mas são muito pequenas ainda. A ideia de que todos os doutores da USP ganhem o mesmo tanto, no fundo, desencoraja a criatividade. Deveria haver maneiras de prestigiar os mais empreendedores, inclusive os mais ambiciosos. Ambição faz parte da vida, inclusive de sucesso na ciência.

ZAGO. Existe uma questão que precisa ser adicionada. Por ser a universidade mais destacada do País, atrai automaticamente os jovens mais talentosos. E sempre ofereceu vantagens, em termos de vencimento, pelo menos equivalentes às de outras universidades. Agora temos uma situação séria, que pode significar a perda de competitividade das universidades públicas paulistas. A questão do teto salarial. Estamos limitados por um dispositivo constitucional, em que o teto dos professores da USP corresponde ao subsídio do governador. Sem entrar no mérito da questão, devemos lembrar que, no Estado de São Paulo, há três universidades federais que têm outro teto. Se essa situação persistir, não tenho dúvida de que um jovem talentoso vai preferir um concurso em uma federal do que na USP. Isso será, em longo prazo, destrutivo para a nossa universidade.

Como a universidade – a USP mais especificamente – pode preparar os jovens para um cenário de incertezas e para carreiras que estão se transformando ou para que nem existem ainda e vão existir em alguns anos? 

ZAGO. Essa é uma missão difícil, mas possível de ser realizada. Ela exige que a universidade se modernize na abordagem aos currículos, aos cursos e às estruturas dos cursos. Esse é um dos pontos em que eu e a Pró-reitoria de Graduação da USP temos trabalhado. Começamos reduzindo a rigidez burocrática da universidade, que fazia qualquer mudança nos cursos levar dois ou três anos para entrar em vigor. Isso foi resolvido. Temos hoje as unidades tratando das suas estruturas curriculares e colocando em prática imediatamente aquilo que decidem. É preciso insistir muito mais nos métodos do que no conteúdo. Nas universidades latino-americanas, nós temos, em geral, muita preocupação com conteúdo, com abranger o conteúdo completo sempre, de qualquer assunto que se fale, e com o currículo ser abrangente. Enquanto isso, as universidades mais bem-sucedidas tratam muito mais do método do que do conteúdo. Porque, na verdade, estamos falando de ensinar e treinar o estudante a tirar suas conclusões e resolver seus próprios problemas. Muito mais do que fazer com que ele se torne um indivíduo versado em um catálogo de conhecimentos já estabelecidos. Essa mudança de perspectiva, portanto, exige a redução das cargas horárias para disciplinas tradicionais e um aumento das atividades que envolvam o estudante para resolver problemas. É só dessa forma que podemos treinar o aluno para algo que não sabemos o formato que terá. Tem de treinar em habilidades mais básicas: capacidade de comunicação, capacidade de trabalhar em grupo e resolver problemas. Trabalhar em grupo não é fácil. É algo que muitas pessoas acabam sendo incapazes de se adaptar depois. Não se trata somente de treinar para ser líder. Mas treinar para aceitar a liderança de um outro, para que o grupo seja positivo.

GOLDEMBERG. Isso está sendo feito em grande escala na universidade. É reforçar os cursos básicos. E não tentar dar uma formação bitolada. Se quer formar engenheiros, não pode usar uma grande parte do seu tempo de aula e de laboratório ensinando como se faz usinas hidrelétricas. Tem de ensinar os princípios fundamentais, porque daqui a 20 anos as usinas não serão construídas como eram no passado. 

ZAGO. Nesse aspecto, há outra questão que muitas vezes as pessoas não se dão conta. O que justifica que uma universidade de pesquisa é sempre a capacidade dar formação de melhor qualidade. Não é, como muitas vezes as pessoas pensam, que o professor faz seus experimentos, escreve seus artigos e vai mostrar este resultado na sala de aula. É porque o ambiente de pesquisa cria, para os estudantes também, este ambiente de especulação, de examinar resultados, de relação causa e efeito. Na USP, muitos estudantes fazem iniciação científica, que pode ocorrer em qualquer área do conhecimento. E em que se resume a iniciação científica? Um professor propõe um problema para um estudante, que tenta resolvê-lo sob supervisão. Isto é: ele vai olhar os antecedentes, o que já existe, o que foi publicado, qual é a situação. Ele vai montar um experimento ou fazer uma arquitetura especulativa, para pensar a respeito daquilo. O aluno vai obter seu próprio resultado e suas conclusões, e depois vai relatar isso. O aluno que passou por essa experiência é um aluno completo. Se o estudante passou pela universidade e aprendeu o método científico, ele está preparado para a vida. A história de ele saber qual é o último protocolo para tratar enfarte do miocárdio é simplesmente um apêndice. Não é isso que vai diferenciar o estudante universitário bem formado, que vai trazer grandes benefícios para a sociedade, daquele outro que tem uma formação superficial, que aprendeu um conjunto de regras, que dentro de dez anos estão completamente desatualizadas. 

Neste debate sobre acesso e excelência, qual é o futuro da USP no universo da inclusão e das ações afirmativas – cotas, bônus, métodos de entrada? 

ZAGO. Uma coisa é fácil de responder: diversificar os métodos de entrada é uma boa solução. O que nós buscamos são alunos de excelência, aqueles que podem render mais para a sociedade. É fácil de entender que selecionar estudantes que estão no fim do ensino secundário, buscando aqueles que têm melhores condições, não é um processo simples. Os talentos podem ser buscados de formas diversas. Por isso, digo: diversificar os métodos de entrada. O vestibular que a USP usa, a Fuvest, é um sistema bom. É muito exigente, seleciona os alunos que estão bem treinados para aquele sistema. E nós sabemos a origem dos alunos que estão bem treinados para aquele sistema: aqueles das camadas mais favorecidas da sociedade têm mais chances de estarem ali. É um sistema que tem mais chances de retroalimentar essas diferenças sociais. Na medida do possível, temos de intervir. Não é para desfavorecer os que vêm de famílias mais abastadas, mas para que não percamos talentos outros que existem na sociedade. Ao lado do sistema vestibular que temos, há que buscar outras saídas. A USP já tem duas: uma é o sistema de bônus e a outra é o Sisu (Sistema de Seleção Unificada, plataforma digital em que os alunos disputam vagas públicas com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem). Ambas estão contribuindo para favorecer a entrada de grupos antes desfavorecidos na universidade. Se isso é suficiente ou não, é o tempo que dirá. Neste ano, pretendo conduzir uma discussão a respeito disso na universidade. Vamos examinar os resultados que já obtivemos. Podemos aumentar a inclusão sem comprometer a qualidade. 

A ideia é retomar o debate sobre as cotas na universidade?

ZAGO. O reitor não tem opinião fechada com qualquer dos métodos que sejam adotados. A minha preferência é de que usemos mais de uma alternativa (de ingresso na universidade) para ampliar a inclusão social.

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Garantir mais recursos à USP está entre desafios comuns

Crise econômica reduziu repasses públicos, obrigando universidades a buscar novas fontes de financiamento

O Estado de S. Paulo

16 Março 2016 | 03h00

Fomentar a internacionalização e a interdisciplinaridade; desenvolver novos modelos pedagógicos, adaptados ao mundo digital e à universalização do acesso à informação; promover a inclusão social e aumentar a produção científica, sem prejuízo à qualidade do ensino ou da pesquisa. Todas essas questões, apontadas como prioritárias pelos reitores na conferência USP 2024, exigem um fator em comum: a saúde financeira de suas instituições.

A escassez de recursos é um problema crônico de grande parte das universidades públicas do mundo, agravado em tempos de crise econômica, como a que vivem o Brasil e alguns países da Europa. Diante do enxugamento das contas, do esfriamento da economia e da consequente redução na arrecadação de impostos, instituições que dependem majoritariamente de dinheiro público para compor seu orçamento veem-se desafiadas a encontrar novas fontes de recursos.

“É uma questão de sobrevivência”, diz o francês Jacques Comby, reitor da Universidade Jean Moulin Lyon 3. “Com a crise econômica, o financiamento estatal diminuiu muito. Se não desenvolvêssemos recursos nossos, ficaríamos em uma situação muito crítica em cinco ou dez anos.” 

Para Comby (foto), universidades não podem depende só do financiamento estatal

Segundo ele, nos últimos cinco anos a universidade aumentou suas fontes próprias em 40% e, com isso, conseguiu reduzir a dependência do governo em 30%. Uma das soluções foi investir em parcerias com o setor privado. “Muitos dizem que isso é perigoso, mas depende de como você faz”, pondera Comby. “Você escolhe o parceiro e as condições de parceria.”

A Universidade de São Paulo (USP) busca um caminho semelhante. Para o reitor Marco Antonio Zago, as parcerias com o setor privado não são apenas “necessárias”, do ponto de vista orçamentário, mas também “benéficas para a sociedade”, no sentido de fomentar a inovação tecnológica e facilitar a transformação do conhecimento acadêmico em produtos e soluções concretas.

“É muito importante ter boas colaborações entre universidades e empresas”, concorda o reitor Jean-Yves Mérindol, da Universidade Sorbonne Paris Cité. “Temos de ser cuidadosos, porque pode haver conflito de interesse. Mas ser cuidadoso não significa ser contra o princípio da colaboração. Ela é absolutamente necessária.”

O reitor da Universidade Humboldt de Berlim, Jan-Hendrik Olbertz, ressalta que as parcerias público-privadas têm de cuidar para não comprometer a autonomia – financeira ou intelectual – das universidades. “É um assunto de responsabilidade pública. Parece simples, mas precisamos de mais dinheiro do lado público para garantir nossa independência, nossa liberdade”, afirma. “Se estou procurando por dinheiro de outra fonte, então ela tem expectativas. Por isso acho que é uma questão de encontrar um bom balanço.”

Experiência. O tema é polêmico no Brasil, onde muitos veem a aproximação como uma espécie de “privatização” das instituições públicas. Nas universidades mais conceituadas do mundo, porém, como Caltech, Oxford, Harvard e Stanford, a interação da pesquisa acadêmica com a indústria não só é bem vista como estimulada. 

Para o reitor da Universidade de Tsukuba, Kyosuke Nagata, é a forma mais eficiente de transformar conhecimento básico em novas tecnologias. “Temos de colaborar com a indústria. Eles são os profissionais em transformar ciência básica em algo útil para a sociedade.”

Mais do que isso, é preciso incentivar o empreendedorismo e a criação de empresas, acrescenta Mérindol. “Por isso investimos em startups geradas nos laboratórios e esperamos que elas cresçam e se desenvolvam”, diz o reitor da Sorbonne em Paris. “É muito importante apoiar essas empresas, especialmente no início.”

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Julio de Mesquita Filho inspirou criação da USP

Universidade tem vocação internacional desde a fundação, reunindo jovens professores europeus que se tornaram referência mundial

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

16 Março 2016 | 03h00

Foto: Julio de Mesquita Filho (quarto, de pé, da direita para a esquerda) com parte dos docentes contratados

O jornalista Julio de Mesquita Filho dedicou os anos de exílio em Portugal, após a derrota da Revolução Constitucionalista de 1932, ao planejamento da maior obra de seus sonhos: a criação de uma universidade em São Paulo. Quando o engenheiro Armando de Salles Oliveira, seu cunhado e acionista do jornal O Estado de S. Paulo, foi nomeado interventor e o convidou para coordenar a comissão encarregada de levar o projeto adiante, ele já sabia o que fazer para a construção de um sistema universitário capaz de buscar solução para as deficiências do ensino em todos os seus níveis. 

“O principal problema com que lutamos, problema número 1, primacial do País, era, sem dúvida alguma, o do seu ensino superior”, dissera Julio de Mesquita Filho, ao comentar as conclusões de uma série de entrevistas feitas pelo sociólogo Fernando de Azevedo, em 1926, com personalidades de destaque sobre o aparelho cultural do Estado e a necessidade de se fundar, em São Paulo, a primeira universidade brasileira. Julio de Mesquita Filho vinha pensando nesse projeto desde 1925, quando publicou o livro A Crise Nacional, no qual sugeria a reforma do ensino.

O jornalista participou, antes da revolta dos paulistas contra Getúlio Vargas, de uma comissão nomeada pelo governo estadual para preparar a futura universidade, trabalhando ao lado de Fernando de Azevedo, Lúcio Rodrigues e Raul Briquet. Na redação do Estado, que logo abraçou a causa, a discussão atraiu outros colaboradores, entre os quais Paulo Duarte. O projeto já estava maduro na cabeça de seu principal formulador quando os Mesquitas - Julio e seus irmãos Francisco e Alfredo - foram lutar nas trincheiras da Revolução de 1932. 

Tratando-se de projeto amadurecido desde o inquérito sobre a educação, na redação, na prisão e no exílio, a proposta foi implementada com rapidez: a USP foi criada em 25 de janeiro de 1934, aniversário de São Paulo, por decreto de Armando de Salles Oliveira, nomeado interventor por Getúlio Vargas, numa tentativa de reconciliação com os paulistas. 

Mais uma vez, Julio de Mesquita Filho integrava a comissão encarregada de montar a instituição, agora ao lado de Fernando de Azevedo, Almeida Júnior, Fonseca Telles, Raul Briquet, André Dreyfus, Rocha Lima, Agelisan Bittencourt e Vicente Rao.

A USP nasceu como uma universidade pública, leiga, gratuita, pluralista e democrática, no ensino e na pesquisa. O núcleo central foi a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, recém-criada, à qual se juntaram as tradicionais Escola Politécnica, Faculdade de Medicina e Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, além da Faculdade de Medicina Veterinária, a Escola Superior de Agricultura, de Piracicaba, o Instituto Biológico e o Instituto Butantã. A Cidade Universitária, mais tarde batizada de Armando de Salles Oliveira, era já um sonho de Julio de Mesquita Filho.

Incumbido de coordenar a contratação de professores europeus, o jornalista pediu o auxílio do psicólogo francês Georges Dumas, professor da Sorbonne e seu amigo, entusiasta da modernização acadêmica. O professor Teodoro Ramos foi enviado a Paris para conversar com Dumas e efetivar a contratação. Eram jovens desconhecidos que se tornariam figuras ilustres 20 anos mais tarde, como Fernand Braudel, Claude Lévi- Strauss e Jean Maugüé. 

Julio de Mesquita Filho convidava a equipe a reunir-se em sua casa para discutir os rumos da nova universidade. De Dumas, ele ouviu o elogio de que a USP fazia bem em contratar jovens talentos capazes de se beneficiar de sua experiência no Brasil, em vez de trazer medalhões europeus. 

O jornalista tomou o cuidado de evitar docentes clericais, fascistas e nazistas, para garantir um perfil pluralista e democrático. O resultado motivou Dumas a cumprimentar o diretor do Estado pela organização da universidade, especialmente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. “Contam vocês com uma das mais belas faculdades que se possa desejar, pois em nenhuma das faculdades da França existe um conjunto de professores igual àquele que representa atualmente nossa cultura em São Paulo.” 

Como afirmou em 25 de janeiro de 1937, em seu discurso de paraninfo da primeira turma formada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Julio de Mesquita Filho considerava ser “de capital importância para as nacionalidades a organização de um ensino secundário capaz de suscitar valores e capacidades em condições de construir uma sólida elite dirigente”. 

Em 1976, o então governador Paulo Egydio Martins prestou uma homenagem ao jornalista, dando o seu nome à Universidade Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp), que se somou à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e à USP para se tornar a terceira universidade pública de São Paulo.

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