Universitários recebem trote violento em Mogi das Cruzes

Pais de pelo menos 40 calouros procuraram a reitoria da universidade para reclamar de abusos na recepção

Solange Spigliatti, do estadao.com.br,

01 Março 2010 | 14h44

Registros de um trote na Grande São Paulo revelam a humilhação sofrida por calouros de uma faculdade de medicina na semana passada. As cenas foram flagradas por equipes do Fantástico, da TV Globo. Desde a saída da faculdade até a chegada da polícia, as imagens mostram desrespeito, com agressões físicas e morais. Segundo a Seccional da Polícia Civil no município, nenhum dos calouros agredidos registrou boletim de ocorrência.   Veja também: Alunos têm pele queimada em trote violento no interior de SP Unicamp e USP criam disque-denúncia de trotes violentosMPF declara guerra à violência contra calouros   O trote é importante para recepcionar os calouros?   Durante o trote, um jovem que acabou de entrar na faculdade de medicina é obrigado a ficar com um fígado de boi estragado na cabeça. Em um outro momento, o veterano enche a boca de cerveja e cospe tudo no calouro. Ele repete o gesto três vezes.   O trote violento acontece em um sítio de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. A festa é feita pelos veteranos da 37ª turma de medicina da Universidade de Mogi. O recado no muro é claro: "Se chorar, vai ser pior".   Desde o início das aulas já havia a ameaça dos veteranos: quem não fosse ao sítio não ia ter direito de frequentar outras festas da faculdade e ainda ia correr o risco de sofrer ameaças e constrangimentos durante todo o curso.   As imagens mostram os veteranos se reunindo dentro da universidade, que é particular e tem 15 mil alunos. Às 11h da segunda-feira, 22, todos vão para o centro acadêmico, que fica perto da faculdade. Os estudantes novatos são insultados. No caminho, são obrigados a andar em uma posição incômoda, chamada de elefantinho. Três ônibus são alugados para o transporte até o sítio, a 17 km da universidade. Muitos veteranos chegam de carro.   O local da festa é mantido em segredo para os calouros. Seguranças controlam a entrada. Às 13h, o trote começa. Uma bomba explode no campo de futebol. Um rapaz dá dois tapas no rosto de um novato. E eles são obrigados a entrar em uma cabana, onde está guardada comida pobre. Em vários momentos, os veteranos usam o fígado de boi estragado no trote, segundo relatos. "Umas cinco pessoas falavam: 'Beija o fígado de língua, senão, te arrebento'", lembra um calouro.   Mais de 400 pessoas participam da festa no sítio. Testemunhas dizem que latinhas de cerveja foram arremessadas na cabeça dos calouros e que, além das agressões, houve muita humilhação. "Eles cospem na cara. Mandam você ajoelhar e cospem", conta um novato.   Os alunos novos ainda têm de pagar pra participar do ritual. São R$ 300 por um kit com estojo, agenda e a camiseta do trote. Como são 80 calouros, os veteranos do último ano arrecadam cerca de R$ 24 mil.   Às 17h, policiais são chamados. O caseiro do sítio alugado, preocupado com a bagunça, faz o alerta. Depois de uma conversa com os veteranos, os policiais vão embora. O trote acaba em seguida.   Na quinta-feira (25), são feitas imagens do sítio, alugado por R$ 1.150. E são encontrados vestígios de outro tipo de agressão. No campo de futebol do sítio, os veteranos obrigaram rapazes e moças a ficarem com os braços abertos em uma cruz de madeira. Em seguida, eles foram alvo de um ataque de ovos, farinha e catchup. Alguns deles apanharam com peixes apodrecidos.   No sitio, são encontrados vários frascos que, aparentemente, são de soro fisiológico. Segundo testemunhas que estavam na festa, dentro havia lança-perfume. A droga foi consumida livremente.   Nesta semana, os pais de pelo menos 40 calouros - metade da turma - procuraram a Reitoria da Universidade de Mogi das Cruzes para reclamar. Por causa das humilhações, uma caloura desistiu do curso no dia seguinte ao trote. No centro acadêmico dos alunos de medicina e na direção da universidade, ninguém fala. Os veteranos que organizaram o trote também não gravam entrevista.   Posição da universidade  Em nota, a Universidade de Mogi das Cruzes diz que todos os anos há reforço na equipe de segurança e que realiza palestras e reuniões contra o trote violento. Afirma não ter como se responsabilizar por práticas inadequadas fora do campus, mas diz que os veteranos flagrados podem sofrer de advertência verbal até expulsão.   A mensalidade do curso de medicina de Mogi das Cruzes é cerca de R$ 4 mil. No último Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), em 2007, o curso recebeu nota 3, em uma escala de 1 a 5. Três é a nota mínima para que o curso funcione sem intervenção do Ministério da Educação.   "Medicina e medicina veterinária são os cursos onde há maior incidência de trotes violentos. [Os estudantes] acabam agindo de um modo completamente agressivo e que não condiz com a profissão que vão exercer", diz o procurador da República Thiago Lacerda Nobre.   Em setembro do ano passado, o Ministério Público Federal pediu às universidades do estado de São Paulo que tomassem providências contra os trotes.   "Recomendamos às instituições de ensino que garantam a ampla, total e irrestrita segurança dos alunos, dentro e fora do campus", afirma Nobre.

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