Universidades na Àfrica do Sul mantêm herança do apartheid

Negros já são maioria nas universidades, mas convivência com brancos e indianos é limitada pelas diferenças sociais e culturais

Mônica Cardoso, Estadão.edu / Johannesburgo

25 de maio de 2010 | 00h35

Semana de provas na Universidade de Witwatersand, em Johannesburgo, tarde de 13 de maio, dia em que se comemora a Abolição da Escravatura no Brasil. Um estudante corre, atrasado, outro lê uma apostila no degrau da escada, um grupo conversa na lanchonete. Cenas rotineiras em qualquer câmpus. Com um detalhe: a maioria dos alunos é negra. Uma situação que seria impensável há menos de 20 anos, quando o regime do apartheid praticamente proibia negros de cursarem universidades na África do Sul.

 

 

Uma grande mudança em tão pouco tempo? Nem tanto. Fundada há 88 anos, a Wits, como a universidade é conhecida, tem uma tradição mais liberal, tanto que líderes negros como Nelson Mandela e Steve Biko estudaram lá. Apesar disso, a herança do regime que o país sede da Copa do Mundo quer apagar persiste. Nas salas, pátios e quadras do enorme câmpus, os estudantes continuam separados em grupos: brancos com brancos, negros com negros e indianos com indianos – a África do Sul tem uma das maiores colônias de imigrantes indianos do mundo.

 

 

Além disso, dados do Ministério da Educação, relativos a 2007, mostram uma situação paradoxal. Os negros são maioria no ensino superior – 63%. Quando se leva em conta toda a população de 18 a 24 anos, porém, só 12% de negros e mestiços (chamados de coloured) chegam à faculdade. Participação pífia se comparada aos 43% de descendentes indianos e 54% de brancos que estão na universidade. Não há uma política de cotas no ensino superior. O acesso é baseado nas boas notas alcançadas na high school (equivalente ao nosso ensino médio).

 

 

“Não há intolerância racial. Conversamos e fazemos trabalhos em grupo. Mas, quando saio, meus amigos são todos negros. Acontece de ter piadas e brincadeiras com os negros, mas não é explícito. Eu diria que a convivência é diplomática”, diz a estudante negra Charman Gazide, de 24 anos, que se forma este ano em Química. Ela só está na Wits graças ao National Financial Aid Scheme, em que o aluno paga pelo estudo após a formatura, como no Fies brasileiro. Seu curso custa por ano 25 mil rands (cerca de R$ 5,9 mil). Órfã, ela trabalha como assistente na biblioteca por meio período. Ganha 25 rands por hora.

Charman mora no alojamento do câmpus, porque sua cidade, Mpulanga, fica a 3 horas de Johannesburgo. No alojamento, 99% dos moradores são negros e o 1% restante é indiano. Bem diferente da época do apartheid, quando os brancos eram maioria. Ela reconhece a importância das políticas afirmativas, mas faz ressalvas. “O governo é majoritariamente negro, então cria condições para inserir os grupos menos privilegiados. Se eu e você nos candidatarmos à mesma vaga, eu serei empregada. Por outro lado, alunos negros começam o curso, mas não terminam por problemas financeiros ou pelo déficit educacional, já que não estudaram em boas high schools.”

 

 

O estudante negro Lesego Ernest Matshana, de 23, concorda com a colega. “As ações afirmativas são contraditórias e precisam ser adotadas corretamente. Não basta inserir os negros na universidade. Muitos desistem logo no 1º ano.”

 

 

Como grande parte dos alunos negros, Matshana é o primeiro da família a chegar ao ensino superior. A ONG Royal Bafokeng paga sua mensalidade, dá uma espécie de mesada para despesas pessoais e ainda 3 mil rands (aproximadamente R$ 710) por ano para comprar livros. Na classe de 15 alunos, Matshana é minoria: são 8 brancos, 5 negros e 2 indianos. Como é de Rustenberg, a 2 horas de Johannesburgo, ele mora no alojamento. “Não temos brigas, não temos mais o apartheid, mas ainda temos separações por raças. Se há uma festa no câmpus, ou vão estudantes negros ou vão os brancos. Temos um longo caminho para mudar isso.”

 

 

Prova disso é o modo com as ações afirmativas são encaradas pelos alunos indianos, por exemplo. “Aqui ocorre o reverso do apartheid, com os negros em primeiro lugar. Mesmo com notas mais baixas, eles são maioria nos cursos. Dizem que os brancos roubaram suas oportunidades e agora têm direito a tudo. Muitos brancos e indianos estão saindo do país para buscar emprego”, reclama Shenaaz Jamal, de 20, estudante de Artes, em um forte sotaque português – seus pais vieram de Moçambique. “Não acho certo. As pessoas devem ser medidas pelo seu talento. Somos todos sul-africanos.” Ela também é a primeira da família a ir para a universidade. O pai, mecânico, banca o curso, no valor de 26 mil rands (R$ 6,1 mil) por ano.

 

 

“Minha irmã fez Biologia e está tentando vaga em Medicina, mas sempre dão preferência aos negros”, diz Muaaz Gandhi, de 18, aluno de Engenharia. O pai, que também é mecânico, paga 42 mil rands (R$ 10 mil) por ano pelo curso. “Aqui é bem raro ver grupos multirraciais. As pessoas se relacionam com quem tem os mesmos gostos, estudou junto no high school ou mora perto”, diz Gandhi, que usa trajes típicos muçulmanos. Ele e Shenaaz vivem com as famílias e vão para o câmpus da Wits de ônibus.

 

 

Meio a meio

Loiro e de olhos azuis, o estudante de Direito Jarad Burger desconversa num primeiro instante. “Não é que eles não mereçam, mas é difícil encontrar emprego se você não for negro. As políticas afirmativas têm um lado bom porque os negros não puderam estudar durante o apartheid. Só que, como eles não conseguem acompanhar as aulas, a qualidade do curso cai”, diz Burger, que tem os estudos bancados pelo pai, empresário. “Não conheço nenhum aluno branco que seja mantido por ONG.”

 

 

A classe de Burger é dividida meio a meio entre brancos e negros. Mas seus amigos são todos brancos. “Tem preconceito, claro. Vivemos em uma democracia recente, há 16 anos.”

 

 

Amigos de Burger, quatro alunos de Engenharia dizem que, como eles, 70% dos alunos do curso são brancos. “Não temos nada contra, mas outras afinidades e diferenças culturais”, diz Josh Berman, de 20. Seu colega Brendan Nelson, de 22, diz. “Ah, eu tenho um amigo negro!” Pergunto se eles saem juntos. “Não frequentamos os mesmos lugares.” Os amigos brancos não usam ônibus: vão para casa no carro de Nelson.

Sentado no gramado, um raro grupo multirracial de cinco amigos se aquece ao sol da tarde fria de Johannesburgo. São duas negras, uma branca e um casal de namorados indianos. “A separação existe por causa da própria história sul-africana. Noto muitos grupos separados por raças. Mas acho que você aprende com a diversidade. Passa a ter respeito pelas diferenças de raças e religiões”, diz a negra Nicole Jones, de 19 anos, aluna do curso de Desenvolvimento Ambiental.

 

 

E quanto tempo vai levar para que vejamos outros grupos como eles? “Acho que umas três gerações. Mas minha irmã de 6 anos, que tem indianos, negros e brancos na classe, não vê nenhuma diferença”, diz o aluno de origem indiana Armien Narkedijen, de 19 anos.

 

 

 

Talvez demore menos tempo, acredita a professora Ruksana Osman, de 48 anos. “Vivemos um período bem interessante, de muitas mudanças.” De ascendência indiana, ela precisou de autorização do Ministério da Educação para fazer faculdade. Por isso, encara com naturalidade o fato de os brancos serem maioria entre os professores, principalmente os mais velhos. Vê isso como um reflexo de como a sociedade sul-africana estava organizada.

 

 

Ruksana é otimista quanto à performance dos estudantes. “Mais de 70% deles terminam o curso, um bom porcentual. Os negros têm maior dificuldade em matemática, ciências e tecnologia. Uma explicação pode ser que os estudantes brancos foram alfabetizados em inglês. Já os negros foram alfabetizados em inglês e nas línguas locais, como zulu e xhosa, o que pode afetar o aprendizado.” / COLABOROU CAROLINA STANISCI

 

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