Paulo Augusto/Estadão
Paulo Augusto/Estadão

Universidades federais cortam até vagas em vestibular por falta de professor

Conforme o 'Estadão' revelou, há hoje um déficit de pelo menos 11 mil servidores; são cargos prometidos às instituições e que não foram criados

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2022 | 05h00

A falta de professores e técnicos nas universidades federais já tem provocado um efeito colateral: o corte de vagas abertas para estudantes nos vestibulares das instituições. Conforme o Estadão revelou, há hoje um déficit de pelo menos 11 mil servidores nas universidades. São cargos prometidos às instituições, por causa de novos cursos ou câmpus, e que não foram criados.

Sem conseguir atender à demanda de todos os alunos, as instituições refazem o planejamento de vagas para vestibulandos. Os estudantes concorrem a uma vaga por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) com a nota da prova em um sistema federal de seleção, o Sisu.

Na Federal do Oeste da Bahia (Ufob), as vagas de vestibular nas duas últimas edições do Sisu (2021 e 2022) para Medicina e Direito foram reduzidas pela metade. Em vez de entrarem 80 alunos, só ingressaram 40 por falta de professores.

Segundo Jacques Antonio de Miranda, reitor da Ufob, criada em 2013, dos 357 cargos de docentes e 408 de técnicos previstos, houve a liberação de 64% das vagas de professores e de 57% para os técnicos. Na Medicina, a previsão era de 80 docentes, mas chegaram só 40 – por isso a redução no vestibular, na mesma proporção.

O déficit de professores, diz Miranda, fica insustentável à medida que os alunos avançam para o final da formação. Medicina demanda mais docentes para orientar alunos nas práticas clínicas. No Direito, é preciso mais professores para os estágios jurídicos.

“Conseguimos segurar muito tempo porque o curso estava em implantação, mas começa a sobrecarregar”, diz Miranda. O corte no vestibular afasta ainda mais o Brasil da meta fixada em lei de ter 33% dos jovens no ensino superior – e atrapalha o objetivo de formar mais profissionais em áreas remotas. “Estamos em uma região com grandes desafios sociais, apontada alguns anos atrás como a com menor relação de médico por habitante.”

A mesma medida deve ser adotada na Federal de Catalão (UFCAT), em Goiás, para Medicina. Criada em 2018, a instituição usou voluntários para dar aula, já que dos 60 cargos prometidos, só 35 estão autorizados, afirma a reitora pro tempore, Roselma Lucchese. “Vamos reduzir a entrada”, diz. A UFCAT abre 50 vagas de Medicina por ano. “A ideia é ter proporcionalmente o número de alunos no curso equivalente ao de professores, nem que isso incorra em ficarmos um ano sem ofertar vagas.” A deliberação ainda deve passar pelo conselho universitário.

Neste ano, alunos de Medicina da UFCAT tiveram aulas regulares suspensas por falta de professores. A federal criou um módulo transversal, com classes não diretamente ligadas à formação médica.

Procurado, o Ministério da Educação não falou. Já a pasta da Economia disse não comentar “demandas relacionadas a processos seletivos encaminhadas pelos órgãos da administração pública federal”.

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