Divulgação/Estadão
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‘Universidade tem de ensinar a empreender’, diz especialista em economia criativa

Britânico que esteve no Brasil acredita que caminho do universitário do futuro é abrir o próprio negócio

Entrevista com

John Howkins

Guilherme Soares Dias, especial para o Estado, Estadão.edu

09 Dezembro 2014 | 03h00

 


Além de desenvolver o talento individual, a universidade tem de dar a oportunidade para o aluno empreender e prosperar profissionalmente. Essa é a opinião do consultor britânico John Howkins, referência internacional e autor do livro Economia Criativa, que esteve recentemente em São Paulo para palestra e workshop no Centro Universitário Belas Artes, onde participa do planejamento dos cursos da instituição (mais informações na pág. 15). Para ele, empreender é o caminho do futuro. Leia a seguir, a entrevista que Howkins deu ao Estado:

Como educar os universitários para que eles se insiram no contexto da economia criativa?

Os estudantes precisam entender duas coisas: como desenvolver seus talentos e como transformar suas ideias em sucesso. Na universidade, o desenvolvimento do talento pessoal é prioritário, mas acredito que deva ser dada ao aluno a oportunidade de prosperar profissionalmente. Assim, as instituições devem ensinar a empreender e permitir que os alunos, se quiserem, aprendam como é a operação da profissão que escolheram e compreendam os conceitos básicos de uma estrutura de indústria - gestão, plano de negócios, finanças e propriedade intelectual. O objetivo imediato da universidade é ajudar o estudante a conseguir um emprego em que possa florescer, mas é preciso ir além. Por exemplo, os arquitetos têm de saber sobre as relações com clientes, contratos e como a sustentabilidade e o biomimetismo operam comercialmente; artistas visuais precisam saber sobre o mundo das artes: estúdios, agentes, galerias, feiras, leilões e assim por diante.

Como as universidades podem ajudar os estudantes?

Há duas maneiras. Em primeiro lugar, oferecendo cursos sobre temas com base nos princípios da economia criativa. Depois, fornecendo métodos específicos, como mentoring (espécie de tutoria em que um profissional mais experiente orienta os mais novos) e trabalhos de campo e de projetos, para que os alunos possam se reunir e colaborar com os melhores profissionais de sua área.

É possível estimular a criatividade?

A criatividade é algo pessoal, que vem de dentro de nós. Começamos com os próprios instintos, desejos e curiosidades - nossa vontade de criar algo novo, interessante e maravilhoso. Porém, nós não podemos fazer tudo sozinhos. Precisamos de outras pessoas para desencadear ideias e nos ajudar. Ou seja, a criatividade vem da interação entre a nossa própria imaginação e aquilo que vivenciamos no mundo. A inspiração pode vir de qualquer lugar, a qualquer momento: durante o dia, à noite, quando estamos a sós ou com amigos ou colegas. As pessoas criativas aprendem a gerir esse processo. As universidades podem ajudar promovendo cursos em horários especiais, lugares e estruturas de apoio, em que os alunos possam aprender como fazer isso.

Como viabilizar as boas ideias e transformá-las em negócio?

É preciso buscar o equilíbrio entre a satisfação que nós temos e a que podemos gerar em outras pessoas. Na prática, todo mundo quer duas coisas: fazer o melhor trabalho que puder e produzir algo que o mercado queira. Então, precisamos estabelecer nosso próprio equilíbrio entre os dois objetivos. Refiro-me a isso como dois juízes. O primeiro juiz verifica as nossas ideias e pergunta: “Esse é o melhor que podemos fazer?”. Já o segundo verifica o seu provável sucesso no mercado. De maneira mais clara, os fatores-chave para a segunda fase são conhecer o mercado e saber negociar, como gerir uma empresa e como atingir o público.

Empreender é o caminho para o profissional do futuro?

Sim. As pessoas criativas estão sempre aprendendo como melhorar e fazer o seu trabalho de forma melhor. É um ciclo contínuo de aprendizagem e adaptação. Respeitamos as pessoas que assumem riscos e tentam sempre expressar algo novo.

Quais são os valores da economia criativa? 

Os valores são baseados na diversidade, liberdade, ambição, tolerância e curiosidade.

O senhor está desenvolvendo um trabalho em uma universidade brasileira. Há diferenças nas ideias ou nas potencialidades dos alunos daqui em relação aos de outros países?

Acredito que os alunos de todos os países têm muitos sentimentos, ambições e preocupações semelhantes. Na maioria das áreas, como moda e arquitetura, as pessoas estão conscientes tanto de sua cultura como das tendências globais. Tenho certeza de que meus alunos em Londres e Xangai têm muito em comum com os de São Paulo. Porém, cada país, cidade e geração tem as próprias referências culturais e as próprias ideias, mídias, modelos de negócios e desafios. Arte e design em São Paulo estão totalmente ligados à história cultural do País, de seu povo e de suas instituições.

Obstáculo cultural. Com 15 graduações, 16 especializações e 5 mil alunos, o Centro Universitário Belas Artes procurou John Howkins para reformular seus cursos com foco na economia criativa. Para o pró-reitor Acadêmico do Belas Artes, Sidney Leite, o maior obstáculo é cultural. “O empreendedorismo não faz parte do universo dos alunos nem de alguns professores. Precisamos mudar a forma de pensar os cursos.” Além de oferecer aulas sobre economia, o centro pretende promover novas dinâmicas, laboratórios e incentivo a startups.

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