Universidade americana traz espírito do Vale do Silício a SP

Para autoridade em inovação nos EUA, Brasil tem chance histórica de repatriar pesquisadores-empreendedores

Sergio Pompeu, do Estadão.edu

14 Março 2012 | 22h17

É possível, sim, replicar no Brasil o ambiente de inovação que une universidades, empreendedores e investidores do Vale do Silício, a meca da tecnologia americana, berço de ícones como Apple, Google, Microsoft e Facebook. Mais do que isso: países como o Brasil devem repatriar pesquisadores-empreendedores do Vale do Silício, frustrados com as normais cada vez mais rígidas de concessão de vistos a imigrantes nos Estados Unidos. China e Índia já estão fazendo isso, com bons resultados.

O diagnóstico é de uma autoridade em inovação nos EUA, o indiano Vivek Wadhwa, vice-presidente acadêmico e de Inovação da Singularity University (SU), que tem como sede instalações da Nasa na Califórnia e conta com gigantes como Google e Nokia entre seus financiadores. “Os EUA estão, sem querer, dando um presente para países como o Brasil. Vocês precisam é de mais brasileiros retornando, levando com eles a cultura do Vale do Silício e mudando o ecossistema local”, diz. “Isso está acontecendo na Índia e na China. Você tem 100 mil, 200 mil pessoas voltando e impulsionando o empreendedorismo lá.”

Vivek, como ele prefere ser chamado, está no Brasil pela primeira vez. Participa nesta quinta-feira (15) de uma apresentação sobre a Singularity para o público brasileiro. O evento faz parte do ciclo Grandes Universidades, patrocinado pela Fundação Estudar, mantida pelos controladores da AmBev, com apoio do Estadão.edu. Amanhã e no sábado, o indiano e outros dirigentes da universidade participam de um seminário montado pela Fiap, faculdade dedicada à tecnologia da informação que firmou uma parceria acadêmica com a SU.

Oportunidade. Para Vivek, repatriar pesquisadores é mais eficiente para fomentar a inovação do que apostar em programas de graduação no exterior, como o Ciência sem Fronteiras, por meio do qual o governo federal espera enviar até 100 mil estudantes para instituições estrangeiras. “Vai demorar dez anos antes de você ver os benefícios desse programa. Metade desses estudantes nem vai voltar e, mais importante do que isso, é necessário mudar a mentalidade dos empreendedores brasileiros”, diz. “A tecnologia está avançando muito rápido. Os próximos negócios de US$ 1 bilhão surgirão na intersecção de tecnologias inovadoras. O Brasil tem a chance de superar outros países se abrindo para essas novas tecnologias.”

Na questão cultural, o pesquisador indiano considera que três aspectos tornam o Vale do Silício “um ambiente único”: a tolerância a fracassos, o compartilhamento de ideias e a figura onipresente de mentores, que ajudam espontaneamente os novos empreendedores. “Se você fracassa, isso é considerado sinal de experiência, é como conseguir um diploma. Os jovens, em particular, podem entender os valores do Vale do Silício e agir como os empreendedores de lá. Os mais velhos ainda acham que, se alguém fracassou, é um perdedor.”

Vivek também considera ultrapassada a noção de que ideias são tão valiosas que devem ser mantidas em segredo. “O que acontece no Brasil, no Chile, na Índia, em vários países, é que os empreendedores não compartilham ideias. Têm medo de que alguém vá roubá-las. No Vale do Silício acontece o oposto. As pessoas sabem que as ideias são baratas, todo mundo têm um monte de ideias. O que faz a diferença é como você as executa. Quando você compartilha ideias fica mais antenado: os dois lados saem ganhando.”

'Universidade do futuro'. Criada com o conceito de “universidade do futuro”, a SU funciona num antigo hangar de bombardeiros B-52 em Mountaiun View, na Califórnia. Com 8 professores fixos e 150 convidados, a universidade tem três tipos de curso, o Programa Executivo, de nove dias de duração, o FutureMed+, de seis dias, Graduate Studies Program (GPS), de três meses. A universidade aceita inscrições pelo site (http://singularityu.org/) ou por meio de programas como o Call to Innovation, que vai oferecer, via Fiap, uma bolsa de estudos para o GPS nos EUA.

Diretora de Inovação da Fiap e embaixadora da Singularity no País, Nathalie Trutmann disse que o Programa Executivo que será realizado na sexta e no sábado é o primeiro da Singularity fora dos EUA. “Uma das razões pelas quais a SU escolheu o Brasil para realizar seu primeiro programa fora dos Estados Unidos é que os problemas que o País enfrenta com água, energia, alimentação, pobreza etc., refletem o que parte do mundo enfrenta também. Se for possível solucioná-los aqui, será possível resolvê-los em qualquer lugar. Além disso, o Brasil é potencialmente inovador e evoluiu muito em tecnologia.”

Lei de Moore. Criador dos portais iCarros, de compra e venda de veículos, e Minha Vida, de vida saudável, Sylvio Barros Netto, de 45 anos, fez o Programa Executivo em abril do ano passado. Teve aulas sobre robótica, inteligência artificial, nanotecnologia e biotecnologia. “O foco da universidade é desenvolver o conceito de evolução, de crescimento geométrico de tecnologias. O pano de fundo é a Lei de Moore, pela qual a cada 18 meses dobramos a nossa capacidade de processamento. Então a SU discute o que este impacto de processamento vai gerar em algumas indústrias”, diz. “Em apenas dois anos eles conseguiram juntar cabeças muito boas de várias universidades, então tem gente de Stanford, de Harvard, com o conceito de multidisciplinaridade, que a Nasa usa muito.”

Barros será um dos ex-alunos da SU que participarão nesta quinta-feira do ciclo Grandes Universidades, que será realizado entre 19h30 e 22 horas no Colégio Dante Alighieri (Alameda Jaú, 1.061, Cerqueira César). Interessados em assistir às palestras podem se inscrever na recepção do evento, a partir das 19 horas. O auditório tem 260 lugares.

* Atualizada às 20h08

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