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Unifavela: de uma laje carioca à universidade pública

Grupo dá aulas pré-vestibulares na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré

Júlia da Cruz Carvalho*, Especial para o Estado

04 Dezembro 2018 | 03h00

Cotista, primeira integrante da família a entrar em uma universidade pública e cria da Maré: Daniele Figueiredo, de 23 anos, é umas das 11 voluntárias do projeto Unifavela, que ajuda estudantes da periferia a ingressar na faculdade. O grupo se reúne na laje da Rua Principal, na Favela Nova Holanda, dentro do Complexo da Maré, na zona norte do Rio.

A ideia surgiu quando Arley Sena do Nascimento, de 18, atualmente no segundo período de Química Industrial, conseguiu a vaga na UFRJ. Ele havia sido beneficiado por um projeto gratuito de incentivo aos estudos também na comunidade e decidiu retribuir montando uma rede de monitoria gratuita. "Estou em uma das melhores universidades da América Latina e tive auxílio de pessoas para chegar lá”, explica Arley. “Precisava ajudar outras pessoas também."

 

Arley e o amigo Laerte Breno, de 23, estudante de Letras, montaram um espaço improvisado, na laje de um dos alunos, onde contam com um quadro sustentado por tijolos para dar aulas. Entre as disciplinas ministradas estão Química, História, Física e Redação. “Nosso intuito é mostrar que a favela pode, sim, ocupar a universidade”, garante Laerte.

 

No Brasil, apenas 15% dos brasileiros têm diploma de ensino superior, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Rio de Janeiro, 89,1% da população está no perfil inverso, ou seja, não possui uma formação no ensino superior.

 

“Quando a gente é da favela, é mais natural que a gente vá para o mercado de trabalho sem ter formação, para conseguir ajudar dentro de casa”, conta Cristian Gomes, de 20, que sonha cursar administração. “Estudo para desconstruir a realidade do pobre favelado. Entrar na universidade é um sonho para muitos jovens, e aqui você tem uma pessoa que diz: ‘Olha, vou te ajudar’.”

Segundo Tiago Nascimento, de 21, uma das dificuldades para frequentar as aulas, apesar de gratuitas e perto de casa, são os tiroteios frequentes na favela, que se agravam com a guerra entre as facções. No entanto, os incentivos do grupo e a cobrança por rendimento, algo que não tiveram durante o ensino escolar, reforçam a vontade do estudante. “A gente sai de um ensino básico totalmente ruim e chega a um pré-vestibular para ver coisas que não está apto a ver”, diz Nascimento. “Você fica desesperado para saber se vai conseguir entrar em uma universidade. Essa iniciativa ajuda.”

O projeto não conta com investimentos externos e por isso está em busca de patrocínios para auxiliar com os custos de xerox, material de limpeza e objetos de uso nas aulas, como canetas de quadro e apagador. O próximo passo, segundo o fundador da Unifavela, é encontrar um espaço oficial, para que os próprios moradores do Complexo passem a olhar o ambiente de estudo como algo profissional, apesar da gratuidade. “Iniciamos neste ano, já temos muitos alunos e vamos precisar de um lugar fixo”, explica Arley.

 

Enquanto isso, as aulas de segunda a sexta revigoram as forças da estudante Julliana Sousa, de 18, que pretende cursar Química. “Chegar à universidade seria uma vitória”, resume.

 

* É finalista do 13º Prêmio Santander Jovem Jornalista

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