Unicamp tem 14 mil inscritos de escolas públicas

Pouco mais de 14 mil estudantes de escolas públicas participam hoje do vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Eles têm uma esperança a mais. Historicamente, entre os inscritos, cerca de 30% vêm da rede estadual de ensino. Entre os aprovados, também. Semelhança que costuma ser rara em grandes vestibulares. O exame é mais democrático? Não, se apressam em responder os representantes dos cursinhos direcionados a alunos carentes."A diferença é que a maioria desses alunos freqüentou escolas públicas do interior, cuja qualidade do ensino é melhor", diz o presidente da rede Educafro de cursinhos comunitários, frei David dos Santos. Além disso, segundo ele, o interesse desses vestibulandos também é diferente. "Quem presta a Fuvest vem da periferia urbana e quer fazer uma faculdade, para depois conseguir um emprego rapidamente. Os da Unicamp se interessam mais pela linha de pesquisa e já são mais preparados." Os responsáveis pelo vestibular, porém, concordam com a idéia do exame democrático. "Isso acontece por causa do nosso tipo de prova, que valoriza mais o raciocínio", diz o coordenador do vestibular da Unicamp, Leandro Tessler. "Os candidatos sentam para o exame em igualdade de posições e conseguimos pegar os melhores talentos." Os números mais recentes das duas instituições mostram, de fato, uma diferença regional entre os candidatos nos vestibulares. Mais de 60% dos 46.492 inscritos para a prova de hoje da Unicamp moram no interior do Estado, incluindo Campinas. No exame da Fuvest deste ano, esse índice é de 36,5%. As estatísticas dos dois vestibulares também diferem no que diz respeito aos alunos de escolas públicas. Normalmente, mais de 30% dos inscritos da Fuvest freqüentaram essa rede de ensino. Entre os que efetivamente conquistam uma vaga, o índice é de 19%. Comparando números absolutos, a discrepância é maior. Dos cerca de 50 mil vestibulandos da rede pública que participam da Fuvest, pouco mais de 1.600 são aprovados. Pelo vestibular da Unicamp, cerca de 700 em um total 14 mil alunos presumidamente carentes conseguem um lugar na universidade pública. Redação A primeira fase da Unicamp tem, em vez de testes, apenas 12 questões dissertativas. Além disso, o vestibulando precisa fazer uma redação, cuja nota equivale a 50% da prova. "Muitas vezes a resposta está no próprio enunciado. Quem tiver boa leitura tem sucesso", diz o coordenador do vestibular. As questões também não são divididas por disciplinas e, nos exames mais recentes, têm norteado sempre um tema principal. Há dois anos, o assunto escolhido foi a água, que podia aparecer tanto nas questões relacionadas à geografia quanto à química, por exemplo. "Queremos mostrar que o conhecimento não é compartimentado", diz Tessler. O coordenador do cursinho Etapa, Carlos Eduardo Bindi, lembra ainda que o tempo para responder cada questão acaba deixando os vestibulandos mais tranqüilos diante da prova da Unicamp. O exame dura quatro horas. "Se o candidato gastar duas horas para redação, tem ainda mais 10 minutos para responder cada questão", diz. Na Fuvest, há três minutos para resolver cada um dos cem testes. Alguns estudantes de escolas públicas, porém, ainda encaram os dois exames como um mesmo bicho papão, apenas de caras diferentes. "No manual do vestibular, vejo vários assuntos que nunca estudei na vida", conta a aluna Elaine Fagundes, de 19 anos, que freqüentou escolas estaduais em São Paulo e em Suzano e concorre a uma vaga no curso de Enfermagem da Unicamp. Seu colega no cursinho Educafro, Ronaldo Pires Santana, de 25 anos, concorda. "É impossível termos as mesmas chances que os alunos de escolas particulares." Candidatos"Na Unicamp, a gente pode mostrar mais o que sabe. Não tem chute", diz o candidato a uma vaga em Engenharia Mecânica Renato Forni, de 18 anos. Ele faz parte dos mais de 60% dos candidatos que sempre estudaram em escolas particulares. Renato também se sente preparado para a Redação, que acredita poder abordar temas relacionados às eleições. Os candidatos à Unicamp concorrem a 2.574 vagas este ano, sendo 2.450 na própria instituição e o restante na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). As provas, que começam às 14 horas, serão realizadas em 12 cidades do Estado e ainda em Brasília, Curitiba, Rio, Belo Horizonte e Salvador. A lista de aprovados na primeira fase sai no dia 19. A próxima etapa será entre 12 e 15 de janeiro.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.