Adalberto Moro
Adalberto Moro

Unicamp pune alunos por festas no câmpus

Associação de moradores reclama de barulho; Ministério Público planeja mover ação contra a universidade

Carolina Stanisci, Especial para o Estadão.edu

22 Março 2010 | 15h38

De um lado, estão os alunos, que se dizem perseguidos porque gostam de celebrar a convivência universitária. Do outro, uma associação de bairro reclama do barulho excessivo provocado nas festas no câmpus da Unicamp. A briga entre os estudantes da Universidade Estadual de Campinas e os vizinhos não é nova, mas se intensificou no último mês.  

 

 

Pressionada pela Associação de Moradores da Cidade Universitária (Amoc) e, mais recentemente, pelo Ministério Público, que planeja até mover uma ação contra a universidade caso não resolva o problema do barulho à noite no câmpus, a Unicamp decidiu fechar o cerco contra seus alunos e instaurou seis processos administrativos para apurar ocorrências envolvendo cerca de 30 estudantes.

 

 

A realização das festas, afirma a universidade em nota, “causa transtornos não só às atividades acadêmicas do período noturno como também aos pacientes e trabalhadores do complexo hospitalar e aos moradores do entorno do câmpus”.

 

 

Em dezembro, a Unicamp já havia tornado mais rígidas as regras para a realização de eventos culturais no câmpus. Para fazer qualquer evento, os estudantes têm de cumprir uma burocracia imensa, que inclui a apresentação de um plano de segurança detalhado. Caso algum item da resolução aprovada pelo conselho universitário da Unicamp não fosse cumprido, os responsáveis pelas festas seriam punidos. É o que vem ocorrendo desde o início do ano letivo.

 

 

Criminalização

“Qualquer coisa que a gente tenta fazer, eles pedem para registrar, pedir autorização. Agora, a universidade quer que as pessoas coloquem o nome de quem está organizando o evento, para cair em cima dessa pessoa depois”, diz Tiago Coelho, de 20 anos, no 4º ano de Química.

 

 

Coelho é coordenador do Diretório Central de Estudantes da Unicamp e tem convocado assembleias gerais para os estudantes planejarem como irão se defender do que chamam de “criminalização do movimento estudantil”.

 

 

Daniel Monte Cardoso, de 22 anos, no 5º ano de Economia, também é membro do DCE e lembra que há outros problemas graves no câmpus. “Temos caso de estupro, violência e até sequestro relâmpago. E nada foi resolvido.”

 

 

Enquanto a Unicamp se manifesta por meio de notas oficiais, a Amoc rebate as acusações dos alunos. “Nosso intuito não é brigar. A Amoc tem papel de promover cidadania”, diz o presidente da associação, Joaquim Caetano de Lima Filho, de 52 anos.

 

O arquiteto vive com a mulher e os filhos desde 2002 no bairro e diz que apesar de não ser contrário às festas, quer que elas acabem cedo.  

 

 

A principal reivindicação da Amoc é acabar com o barulho depois das 22h. Lima Filho conta que há quem saia de casa por conta do ruído: “Tem gente que vai dormir em hotel.”

 

 

Sem  conseguir resolver o problema, os associados da Amoc procuraram o Ministério Público, que abriu um inquérito civil em 2008 e planeja mover ação civil pública contra a universidade, caso a reitoria não consiga acabar com  os eventos noturnos.

 

 

Nos últimos anos, a Amoc, ao lado do MP, também reuniu provas de que as festas são ruins tanto para os estudantes como para o próprio câmpus, por conta de problemas como o consumo de drogas, a venda não autorizada de bebidas alcoólicas e a circulação de pessoas de fora, que podem danificar o patrimônio.

 

 

“A gente não está contra os jovens, mas falo como pai: o jovem tem que se formar dentro da universidade e ter conceito ético.”

 

 

Perturbação do sossego

“Isso vai acabar em pizza. A Unicamp sempre fez de conta que não é problema dela”, diz Alfredo Morelli, de 64 anos. Morelli tem um site, o Barão Em Foco, que traz notícias sobre o distrito de Barão Geraldo. Dentro desse distrito fica o bairro Cidade Universitária, onde está a Unicamp.

 

 

“Era um bairro elegante, bonito. Começou a ficar barulhento de uns anos para cá”, conta o químico, que é morador da região há 23 anos. Morelli tira fotos dos eventos estudantis e posta as imagens em seu site.

 

 

Morelli também se incomoda com as festas nas repúblicas, fora do câmpus. Numa ocasião, irritado com os eventos noturnos que varavam a madrugada em uma casa ocupada só por moças, na rua acima da que mora, ele procurou a Justiça – e teve sucesso. Por meio de uma ação de perturbação do sossego, conseguiu expulsar as moças de lá.

 

 

Em seu site, Morelli mantém o passo a passo de como se faz para se livrar de uma república barulhenta. “Hoje, não quero mais brigar com os estudantes. Me dou até bem com eles.”

 

 

 

Festas monitoradas

Na USP, o responsável pelas festas dentro nas faculdades é o diretor da unidade. Quando o show é na Praça do Relógio, como ocorreu durante a semana de recepção aos calouros, cabe à Coordenadoria do Câmpus autorizar e resolver eventuais problemas. A universidade afirma que não teve problemas com a vizinhança.

 

Na PUC-SP, atualmente não é possível realizar festas no pátio da cruz. Os eventos noturnos causaram problemas com a vizinhança. Mesmo assim, os estudantes podem se confraternizar nos centros acadêmicos, contanto que não "exagerem". 

 

"Entendemos que as universidades são também espaços de sociabilidade para a juventude. Há na cultura jovem o hábito de buscar a confraternização e existem poucos espaços para essa integração efetiva na sociedade", afirma Hélio Deliberador, pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias da universidade. "Atuamos de forma reguladora: acompanhamos cada caso específico, cada confraternização, monitorando infrações ou situações conflituosas."

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