Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Unicamp 2021: Vestibular tem alta abstenção, salas menos cheias, mas aglomeração na entrada

Abstenção foi de 15,54%; para evitar concentração de alunos, portões serão abertos mais cedo nesta quinta-feira, às 11h45

João Ker, Júlia Marques e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 19h53

Com alta taxa de abstenção, a primeira fase do vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi realizada nesta quarta-feira, 6, em 37 cidades do País, dando largada a uma maratona de exames presenciais durante a pandemia. Candidatos elogiaram o distanciamento nas salas e a organização dentro dos locais de prova, mas relataram aglomerações nos portões de entrada. 

Nesta quarta, fizeram as provas 28.738 candidatos dos cursos de Exatas/Tecnológicas e Humanas/Artes. Na quinta, a prova será aplicada para os inscritos em cursos na área de Biológicas e Saúde. Segundo a Comvest, responsável pela aplicação do exame, 5.286 não compareceram aos locais de prova, o que representa uma abstenção de 15,54%. Na edição anterior, a abstenção da primeira fase foi de 8,27%. 

“A pandemia foi o principal elemento (para a alta abstenção). As pessoas podem ter se sentido não tão preparadas para prestar o vestibular em relação à perspectiva que tinham na data da inscrição, em julho”, disse José Alves de Freitas Neto, diretor da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest). Ele também disse acreditar que a ausência de treineiros pode ter contribuído para o alto número.

No local de prova com mais candidatos inscritos, em uma faculdade particular na zona oeste da capital paulista, os estudantes reclamaram de aglomerações na entrada da prova. “Quando cheguei e vi a quantidade de gente, assustei”, disse Ana Lopez, de 19 anos, candidata ao curso de Artes Cênicas. Já nas salas, diz, a situação era mais controlada. Na saída da prova, era possível ver grupos de estudantes conversando - alguns sem máscara - e concentração de candidatos à espera de transporte para voltar para casa.

Este ano, a Comvest dobrou o número de salas de prova para garantir o distanciamento entre os candidatos. Também separou os candidatos em dois dias a fim de reduzir o número de estudantes em cada uma das datas. As salas passaram de 1.502 no vestibular 2020 para 3.381 no vestibular 2021. Nesta quinta-feira, 7, serão utilizadas 1.921 salas para os 43.631 candidatos da área de Ciências Biológicas/Saúde.

“No começo parecia bem aglomerado, mas entrei direto e já fui para a minha sala”, conta Letícia Martins, de 24 anos, que calcula ter feito a prova com outras 20 pessoas. Questionado sobre aglomerações notadas em locais de prova antes da abertura dos portões, Freitas Neto informou que, para o segundo dia de provas, os portões serão abertos com mais 15 minutos de antecedência, ou seja, 1 hora e 15 minutos antes do início da aplicação do exame, às 11h45. A prova será aplicada a partir das 13 horas

Para parte dos alunos, essa foi a primeira vez que fizeram provas longas seguindo os protocolos de segurança, como o uso de máscaras. Alguns se incomodaram. “Tive de ir ao banheiro para trocar no meio da prova”, diz Letícia. Já Lívia Pereira, de 17 anos, sentiu falta de inspirar profundamente para aplacar a ansiedade. “Por causa do nervoso, você quer respirar, mas a máscara encurta a respiração.” Ela tenta uma vaga no curso de Física. 

Rafael Souza, de 18 anos, tirou a proteção no meio da prova, mas só para morder o lanche que levou – até a mastigação, diz, foi de máscara para evitar o risco de contrair a covid. “Achei sufocante e cansa mais. Nem comi nada para não ter de tirar”, contou Yasmin Teixeira, de 19 anos, candidata ao curso de Ciências Sociais.  O primeiro dia não registrou ocorrências de relevância relacionadas à situação da pandemia, segundo a Comvest. Candidatos com sintomas da doença foram orientados a não irem aos locais de prova. 

O que caiu na prova

Estudantes ouvidos pelo Estadão disseram ter achado a prova mais fácil do que a de anos anteriores – nesta edição, a Unicamp reduziu o número de questões de 90 para 72, por causa das dificuldades de preparação dos estudantes em ano de pandemia.  “Quando mudou o ambiente (de estudo) e fomos para o EAD, eu ainda tive problemas de acesso à internet e confesso que dei uma desacelerada nos estudos quando o ano foi chegando ao fim”, disse Renan Martins, de 18 anos, nesta quarta-feira antes da prova. 

Questões com dados recentes sobre a pandemia surpreenderam os candidatos, que não esperavam uma prova tão atualizada – é comum que os vestibulares sejam elaborados com bastante antecedência em relação à data da prova. “Tinha questão sobre a covid de poucos meses atrás”, diz Mikael Resende, de 19 anos, que tenta se preparar lendo notícias de jornal.

Outros temas como queimadas no Pantanal, racismo, machismo e até uma sátira sobre terraplanismo estiveram presentes. “Falaram muito sobre desigualdade, racismo contra pessoas pretas, asiáticas, sobre saúde mental. Até nos temas de Exatas e Biológicas foram introduzidos esses assuntos, achei muito pertinente”, elogia Letícia.

A coordenadora acadêmica da Comvest, Márcia Rodrigues de Souza Mendonça, disse que a prova do primeiro dia “valorizou a compreensão de temas do mundo contemporâneo”. “Com base em fontes variadas, trabalhamos desde o cânone literário a colunas jornalísticas, artigos acadêmicos, textos das artes plásticas, fotojornalismo, gráficos. A diversidade de fontes permite que possamos avaliar a compreensão da escolarização e do mundo em alunos que estão prestes a entrar no ambiente universitário”, explicou.

Ela disse que temas atuais, como o novo coronavírus, foram tratados sob diferentes perspectivas, como a relação das medidas da pandemia com a violência doméstica. A coordenadora disse que a prova, apesar de ter sido reduzida em número de questões, manteve a aparência próxima à de anos anteriores, e lembrou de outros temas do momento, como a questão ambiental, abordada por meio de assuntos como o desmatamento.

Depoimento: ‘Sala estava limpa, mas a entrada encheu’

Fernanda Bibanco, 17 anos, candidata de Pedagogia na Unicamp 

"O vestibular estava bem organizado, as salas, limpas, não tinha muita gente nos corredores, estava bem separado. Mas, na entrada, estava cheio, tinha bastante gente até para subir as escadas, estava bem lotado. Cheguei ao meio-dia e às 12h10, mais ou menos, eu entrei. Fiquei esperando até 13 horas para começar a prova. Na sala tinha umas 20 pessoas, com fileiras bem espaçadas e lugares intercalados. Levei máscara extra, por precaução, mas acabei não trocando. Levei meu álcool em gel, passei na minha mesa e na mão. A maioria tinha o seu próprio álcool. Foi tranquilo fazer a prova de máscara, na real eu não senti muita diferença. Levei água, mas só bebi depois que saí para evitar de tirar a máscara. Como tem de passar álcool em gel, demora mais a retomar a prova. Na minha sala não houve confusão e todo mundo respeitou as regras. Sobre a prova, achei bem mais fácil do que esperava. Meu 3.º ano foi complicado, tivemos aula online desde o começo, mas não é a mesma coisa, os professores demoraram a se adaptar. A prova teve redução de questões, então facilitou. Fico preocupada com os vestibulares na pandemia porque é um monte de jovem no mesmo lugar, mas também quero muito fazer a prova, então é um risco que eu decidi correr. "

Próximas datas

O gabarito das questões da prova da Unicamp desta quarta-feira será divulgado na próxima sexta-feira, 8. A lista de aprovados na primeira fase será divulgada no dia 29 de janeiro, juntamente com os locais de prova da segunda fase. A segunda fase será realizada nos dias 7 e 8 de fevereiro de 2021.

O mês de janeiro será cheio de vestibulares. Neste domingo, 10, ocorre a primeira fase da Fuvest, principal forma de acesso à Universidade de São Paulo (USP). Nos domingos seguintes, dias 17 e 24 de janeiro, será a vez do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), aplicado para 5,7 milhões de candidatos em todo o País. Veja aqui quais são as regras do Enem 2020

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.