UnB inscreve 4.173 negros para a cota de 392 vagas

Entre 4.385 inscritos, o sistema de cotas para negros e indígenas adotado pela Universidade de Brasília descartou 212 jovens. Baseada em fotos dos candidatos tiradas na hora da inscrição, uma comissão decidiu quem podia ou não declarar-se negro.Foi a foto que tirou do sistema Ricardo Zanchet, 19 anos. Ricardo foi entrevistado pelo Estado há seis semanas, no primeiro dia da inscrição para o vestibular. Com pele clara, cabelo liso e castanho, o estudante nem de longe lembra um negro, mas alegou que tinha um avô e uma bisavó negros, o que lhe daria o direito de concorrer. Mas não convenceu a comissão.Os demais estudantes entrevistados no mesmo dia que Ricardo - Anderson Rosa Nascimento, Edimárcia Ramos Araújo, Júlia Mello e Viviane Ramos de Souza - foram efetivados no sistema de cotas.Continuam concorrendoRicardo e os demais que ficaram fora da lista estão automaticamente concorrendo às demais vagas do sistema universal, que correspondem a 80% das 1.994 oferecidas pela universidade neste ano. Mas ainda podem recorrer da decisão nos dias 27 e 28 deste mês, quando serão entrevistados pela comissão.Os estudantes que se sentirem injustiçados poderão levar um documento em que conste oficialmente sua cor como preta ou parda e também passar por uma entrevista, que será analisada pela comissão.Ricardo já decidiu recorrer. ?Vou levar a certidão de nascimento do meu avô e mostrar a eles?, disse. O estudante não tem certeza de que na certidão esteja escrito que o avô é negro, mas acredita que sim. E defende sua tentativa: ?Se meu avô e minha bisavó eram negros, eu sou fruto de miscigenação e tenho direito?, afirmou.NegrosRicardo ainda pensa em entrar na Justiça se a decisão da comissão for mantida, mas precisará consultar sua família, porque ?advogado custa caro?.O professor Mauro Rabelo, diretor do Centro de Promoção e Seleção (Cespe) da UnB, explica que a tentativa de Ricardo não deverá funcionar. Isso porque o sistema da UnB não é para afrodescendentes, mas para brasileiros que tenham o genotipo dos negros - ou seja, aparentem fisicamente ser negros. ?Nosso edital deixa issobem claro?, afirmou.Ao todo, a UnB recebeu 27,4 mil inscrições para o vestibular deste ano. Dessas, 4.173 concorrerão às 392 vagas do sistema de cotas. Os demais disputarão os outros 1.602 lugares na instituição.Mais fácilRicardo diz que se inscreveu no sistema de cotas como uma forma de protesto, mas confessa que também o fez por acreditar que seria mais fácil ser aprovado, depois de tentar e falhar duas vezes na seleção para a faculdade de química. No sistema de cotas existem, agora, 10,6 candidatos por vaga. No geral são 14,5.A UnB foi a primeira universidade federal do País a adotar o sistema de cotas raciais, antes mesmo de o Ministério da Educação definir como seria o processo. Com isso, terminou por adotar critérios diferentes do que pretende o MEC.Um deles é o fato de não ter levado em conta a renda do candidato ou o fato de ter ou nãoestudado em escolas públicas. Segundo o reitor da universidade, Timothy Mulholland, os negros estão principalmente entre a camada mais pobre da população. Por isso, as cotas raciais automaticamente beneficiariam quem mais precisa.

Agencia Estado,

25 de maio de 2004 | 18h55

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