Christopher Capozziello/The New York Times
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Uma universidade internacional não se faz só com vários passaportes, mas com inclusão

Para que a experiência acadêmica seja mais rica para todos, deve-se estimular ao máximo a interação entre estrangeiros e nativos, pedagogica e socialmente

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2021 | 05h00

O mundo pós-pandemia parece animador para quem pensa em estudar nos Estados Unidos, mas levanta discussões em países que sempre tiveram suas fronteiras escancaradas para os alunos estrangeiros. Enquanto o governo Joe Biden reconhece oficialmente o valor da educação internacional, especialistas acreditam que a pausa causada pela covid deveria levar a uma reestruturação dos intercâmbios em lugares como Nova Zelândia, Austrália e Canadá.

Além da abertura das fronteiras americanas para estudantes brasileiros em novembro, o secretário de Estado, Antony Blinken, declarou recentemente o que parece óbvio, mas que não era dito até agora. Que os intercâmbios de estudantes ajudam a desenvolver habilidades críticas, o entendimento das diversas perspectivas e a comunicação com pessoas de outras culturas.

Em discurso, enfatizou que os Estados Unidos “sinceramente dão as boas-vindas aos estudantes internacionais e pesquisadores em câmpus do país”. E a criatividade, a inovação e diversidade desses alunos enriquecem suas universidades e as comunidades em que estão inseridas. O passo é significativo, ainda mais depois da má vontade do governo de Donald Trump com estrangeiros e a forte política contra imigrantes. Segundo o Departamento de Estado, os cerca de 1 milhão de estudantes do exterior injetaram US$ 39 bilhões na economia do país em 2019/2020. O governo também quer estimular a ida dos americanos para universidades estrangeiras, o que não é tão comum. Hoje apenas 360 mil americanos estudam fora.

Na Nova Zelândia, os alunos estrangeiros representam a quarta maior fonte de renda e levam ao país US$ 5 bilhões. Estudantes de fora pagam mais que os neozelandeses para cursar as oito universidades que são públicas, mas não gratuitas. Mas, por causa da covid, as fronteiras ainda estão fechadas e a previsão para a volta da concessão de vistos é só em fevereiro.

Especialistas em educação internacional acreditam que esses países – apesar da vantagem financeira – poderiam aproveitar o momento para repensar a quantidade de estudantes que têm aceitado nos últimos anos. Segundo o site da Times Higher Education (THE), instituição que realiza rankings internacionais, alguns cursos sequer existiriam se não fossem bancados pelos alunos estrangeiros.

Na Universidade de Melbourne, na Austrália, por exemplo, 46% dos alunos eram estrangeiros em 2018. Na de Ontário, no Canadá, os valores arrecadados com alunos de fora aumentam 30% a cada ano, informa o THE.

Os especialistas questionam principalmente se os professores das universidades estão preparados para ter uma sala com, por exemplo, mais de um terço de alunos estrangeiros. Além disso, pesquisas no Reino Unido mostram que mesmo com a maioria dos jovens declarando que esse grupo é importante para a turma, 22% disseram que eles deixam a aula mais devagar e 16%, que a presença deles baixa a qualidade das discussões acadêmicas. O grande problema seria a falta de domínio da língua inglesa.

Outra questão, destaca a THE, é que cursos permitem a entrada maciça de uma nacionalidade só, como os chineses, que estão em universidades do mundo todo. E que acabam apenas se relacionando entre eles. Às vezes por preferência, mas também por se sentirem discriminados. Para que a experiência acadêmica seja mais rica para todos, a universidade deve estimular ao máximo a interação entre estrangeiros e nativos, pedagogicamente e socialmente.

Uma universidade internacional não se faz apenas com múltiplos passaportes. Sem inclusão e acolhimento, a diversidade sozinha não muda um ambiente. Seja ela social, racial, de gênero ou de nacionalidade.

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADÃO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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