Uma nova dimensão da aprendizagem

Eliezer Pacheco * As avaliações da qualidade do ensino realizadas pelo Inep/MEC quantificam a influência dos aspectos extra-escolares no aprendizado dos estudantes brasileiros.Fatores como bens culturais, atividades extracurriculares, hábitos de leitura, interesse por assuntos atuais e participação dos pais têm fortes impactos sobre o desempenho escolar, como é possível verificar por meio dos resultados do Sistema Nacional de Avaliação da EducaçãoBásica (Saeb) e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).Estudos mostram que grande parte do aprendizado dos alunos pode ser creditada a fatores externos à escola. Como vários veículos de comunicação evidenciaram a partir de um levantamento realizado pelo Inep que cruzou a nota e a realidade socioeconômica dos participantes no Enem, foram identificadas diferenças no desempenho relacionadas à vida extra-escolar.Esse cenário, explicitado pelas avaliações, reforça a idéia de que a melhoria da qualidade do ensino não deve ser uma responsabilidadeexclusiva dos setores educacionais dos governos municipais, estaduais e federal, mas resultado de uma ação articulada de organismos ligados à educação, cultura, esporte e lazer, ciência e tecnologia, governamentais ou não.É necessário desenvolver a concepção de uma sociedade educadora, onde a tarefa de produzir e disseminar conhecimento ultrapasse os limites da escola, sem subestimar a sua importância, oferecendo oportunidade de acesso a atividades culturais e esportivas, às novas tecnologias e à saúde preventiva. Todos os organismos governamentais, municipais, estaduais e federais devem ter uma dimensão educativa e pedagógica em suas ações.Na França existe, há 20 anos, para combater a desigualdade no seu sistema de ensino, as Zonas de Educação Prioritárias (ZEPs), que recebem, por meio de políticas compensatórias, recursos adicionais, por estudante, da ordem de 10%. São 530 ZEPs, envolvendo mais de seis mil escolas (10% do total), do maternal ao liceu (da educação básica ao ensino médio, no Brasil).Essas áreas atendem a 15% da população escolar, que é de cerca de 12 milhões de alunos. Elas têm quatro eixos prioritários: aprendizagem de matemática e francês, comunicação com as famílias, abertura cultural e ação sanitária e escolar. Metade dos recursos das ZEPs é do Ministério da Educação e o restante, oriundo de outros ministérios e associações.O objetivo é intervir para estabelecer um equilíbrio entre as regiões, levando em conta critérios sociais como renda, desemprego e atraso escolar.Um dos aspectos mais importantes das ZEPs é a confiança das famílias em relação à escola. Um bom início para ampliar a participação de diversos segmentos do governo e da sociedade é a abertura das escolas nos finais de semana, política que começa a ser implementada pelo Ministério da Educação em parceria com a Unesco.Vários Estados e municípios estão em fase de implantação ou já desenvolvem atividades semelhantes. Em comunidades pobres, as escolas são, em muitos casos, a única oferta de equipamento de lazer e cultura.Levantamentos constatam que onde a escola é aberta à comunidade os índices de violência e depredação são pequenos. Outros ministérios e secretarias (no caso dos governos estaduais e municipais) podem e devem ser chamados a participarem desse esforço.Outro caminho é o incentivo à leitura. Ter o hábito de ler livros, jornais e revistas representa um salto importante no processo de aprendizado. Ao mesmo tempo em que desenvolvem habilidade de leitura, os alunos mantêm-se atualizados sobre a política, a economia e a cultura de sua cidade, do País e do mundo.Políticas de leitura, algumas desenvolvidas pelo MEC e pelas secretarias de educação, são fundamentais para melhorar os níveis de aprendizagem.Os resultados do Enem mostram uma diferença de sete pontos na média entre os alunos que lêem, com freqüência, jornais, revistas e livros e aqueles que não têm esse costume. Quanto ao interesse por assuntos da atualidade, os dados confirmam que estar informado sobre os acontecimentos da política nacional e internacional, da economia e com os que envolvem as questões sociais e ambientais pode significar uma média de até nove pontos a mais.As empresas de comunicação poderiam facilitar o acesso dos estudantes a jornais e revistas ou mesmo realizar promoções em parceria com as escolas. Os pais também têm um papel fundamental no sucesso escolar dos seus filhos.É preciso que eles os incentivem a ler cada vez mais. Para isso, também precisam ter o hábito de leitura para que o filho tenha em quem se espelhar. A família pode aproveitar todas as situações do cotidiano, como a observação de placas nas ruas, a visita a um parque e a ida à mercearia, para estimular o aluno a aprender.Como o interesse dos pais pela educação influencia no desempenho dos filhos, um dos caminhos, para aqueles com baixa escolarização, é freqüentar a Educação de Jovens e Adultos, atualmente oferecida em muitas escolas.O que se verifica pelos resultados das avaliações é que os esforços para melhorar o sistema de ensino brasileiro devem ser de toda a Nação. Além de garantir o acesso e a permanência a todos os níveis de escolarização, é necessário melhorar, em muito, a qualidade.E este não pode ser um desafio apenas da escola ou dos sistemas de ensino, mas de toda a sociedade.* Presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC)

Agencia Estado,

06 de agosto de 2004 | 17h27

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