Uma escola do futuro em Roraima atende migrantes e indígenas

O professor Rhayder Abensour estava no pátio central da Escola de Boa Vista quando o portão se abriu para as crianças, pela primeira vez, na manhã de 6 de fevereiro. ?Elas entraram correndo, mas aos poucos iam parando, encantadas com o que começavam a ver?, conta ele. Filhos de migrantes pobres e descendentes indígenas que vivem na periferia da capital de Roraima, os alunos chegavam ao amplo saguão de entrada e mergulhavam num cenário nunca visto ali: ao fundo do pátio, uma alta cobertura sustentada por colunas coloridas abrigando o complexo esportivo; mais adiante, o campo de futebol com gramado impecável; à direita, a ?Bibliotheca?, duas salas de informática, laboratório de Ciências, consultório odontológico e sala de recursos audio-visuais; à esquerda, as salas de aula e, no fim do saguão, uma cantina com jeito de lanchonete.Rhayder, como é chamado o professor de Ciências, diz que não se esquece daquele dia, quando uma escola de R$ 6 milhões, dotada de avançados recursos tecnológicos e pedagógicos, acolheu os filhos de uma comunidade carente, num dos pontos mais remotos ao norte do Brasil ? depois da Floresta Amazônica. ?Vi os olhos das crianças e fiquei emocionado?, conta ele, um descendente dos índios Makuxis, com 27 anos de idade, formado em Química pela Universidade Federal de Roraima, também professor na rede pública e guitarrista da banda Mr. Jungle. ?Acho que aqui vamos poder realizar um trabalho social amplo.??Trabalho social?, em Roraima, pode significar desde a assistência imediata a famílias urbanas sem renda nenhuma até o apoio especializado a povos indígenas como Yanomami, Wai-Wai ou Makuxi. ?A região tem todo tipo de problema e necessidade?, diz a diretora da escola, Maria Edith Romano Siems. E a Fundação Bradesco tem um plano ousado para esta que é sua 39ª escola construída no País: quer fazer ali um posto avançado para projetos sociais em diversas áreas. ?Atingimos em Boa Vista nossa primeira meta histórica, de termos pelo menos uma escola em cada Estado brasileiro, dando apoio ao ensino público, e agora vamos diversificar o atendimento?, explica Nivaldo Marcusso, gerente de Tecnologia da Informação e Educacional da Fundação Bradesco.ModelosO projeto fundamental é o ensino regular, evidentemente. ?Queremos garantir a estas crianças educação de qualidade, que lhes dê perspectivas de vida?, diz Marcusso. Nos 22.000 m² da Escola de Boa Vista ? 4.989 m² de área construída ?, os 840 alunos iniciais integram grupos que vão da educação infantil, na faixa dos 6 anos de idade, até o 1.º ano do Ensino Médio, com duas turmas noturnas de 45 adolescentes cada. ?Assumimos com estes jovens do 1.º ano o compromisso de chegar ao fim do Ensino Médio como modelos de aprendizado e formação?, relata a diretora Edith.Será preciso recuperar o tempo perdido. A sondagem inicial indicou que o conteúdo assimilado pelos alunos da 4.ª série, por exemplo, equivale ao da 1.ª série. ?A USP produziu para nós uma apostila adaptada a estes estudantes, para ajudá-los a superar o atraso?, informa Edith. Nestas primeiras semanas da nova escola, muitos alunos já perceberam diferenças na sala de aula. ?Os professores explicam mais, não ficam só no exercício do livro?, diz Tiago de Souza, 13 anos, da 7.ª série. Luciana Paes Silva, também com 13 anos mas na 8.ª, vê por toda a escola o incentivo ao aprendizado. ?Temos tudo o que precisamos: espaço, ventiladores nas salas, banheiros limpos...?A rotina da escola é cheia de desafios e estímulos à aprendizagem, para alunos e professores. Crianças que nunca haviam comido nada além de farinha e carne seca começaram a aprender a importância de uma dieta variada. Para muitas, o aprendizado é doloroso. ?Vários alunos que comeram legumes pela primeira vez na vida tiveram vômitos e desarranjos?, relata a diretora. Uma dieta de adaptação foi providenciada. Escovar os dentes, usar o calçado e o uniforme completo ? doados pela Fundação -, tudo é tema de estudo, pesquisa e discussão. ?Vamos mostrar às crianças, no laboratório, o que elas removem dos dentes quando usam a escova?, planeja Edith.ProfissionalizaçãoNa área contígua ao campo de futebol, será criada uma horta para que os estudantes aprendam sobre os alimentos vegetais e sobre técnicas de cultivo a baixo custo, para enriquecer a alimentação e, quem sabe, ajudar as famílias a desenvolver negócios no setor de hortaliças. Assim, a escola faz ligação direta entre o ensino regular e a profissionalização que a Fundação Bradesco quer oferecer aos alunos e seus pais. ?Queremos que a escola produza benefícios a toda a comunidade?, afirma Marcusso.A oferta de vagas aos filhos das famílias carentes é um benefício limitado diante da enorme demanda ? ?mais de 4.800 pessoas procuraram vagas?, segundo Edith. Mas a Escola de Boa Vista está absorvendo ao longo deste ano, além dos 840 alunos, mais 960 jovens e adultos em programas de alfabetização e capacitação profissional. Salas de aula são usadas à noite para alfabetizar adultos ? na maioria, pais de alunos ? e um dos laboratórios de informática é destinado também a cursos para a comunidade, sempre com professores especializados. A escola tem ainda instalações específicas para este público: um auditório equipado para videoconferências e programas de tele-ensino e um laboratório para cursos de culinária, artesanato e embelezamento pessoal.Só por ter sido construída ali, numa zona de transição entre o perímetro planejado da cidade e o cinturão de moradias pobres, a Escola de Boa Vista já produziu outro benefício, atraindo asfalto e iluminação pública melhores para a região do Bairro Jardim Floresta. Além disso, foram criados 50 empregos diretos e a manutenção do estabelecimento movimenta pelo menos R$ 30 mil mensais. É dinheiro novo injetado diretamente na economia local, junto com uma exigência maior aos fornecedores quanto à competência e à qualidade dos seus produtos e serviços.O efeito multiplicador da educação das crianças nas famílias é outro resultado positivo, assim como a qualidade do ensino pode servir de estímulo às outras escolas. Mas é possível ir mais longe. Há cerca de 200 escolas indígenas em toda a região de Boa Vista, e a Fundação Bradesco planeja ajudá-las. A italiana Loretta Emiri, que trabalhou por 17 anos com os Yanomami e formou o primeiro professor indígena para alfabetização em língua nativa, em 1982, sabe como é necessário este apoio. ?O branco precisa saber que o índio tem língua e religião?, diz ela.O professor Rhayder quer, na Escola de Boa Vista, servir de ponte para o diálogo entre o mundo urbano e os povos da floresta, ?educando as crianças sem preconceitos raciais? e promovendo o ?intercâmbio de tecnologias? de brancos e indígenas. Ele acha que sua escola é o berço de uma grande transformação.Profissionalismo é marca das equipesBrasília ? O compromisso de transferir a experiência bem-sucedida de suas escolas para a rede pública de ensino e a proposta de ampliar o leque de ações sociais da Fundação Bradesco têm conexão perfeita com algumas prioridades do Ministério da Educação. ?Conheço há muito tempo as escolas da Fundação Bradesco e espero que elas atuem cada vez mais como apoio para melhorar a qualidade da escola pública?, diz o ministro Cristovam Buarque. Para ele, as 39 escolas da Fundação podem servir como referência quanto à qualidade do ensino e profissionalismo.Na Escola de Boa Vista, por exemplo, a equipe de dirigentes, professores e demais funcionários passou por um processo de seleção tão rigoroso e impessoal quanto o que foi aplicado na triagem dos alunos. Primeiro, houve uma convocação pública, seguida de várias etapas de testes, entrevistas e atividades em grupo, algumas delas realizadas em Osasco (SP), cidade-sede da Fundação. ?Ninguém é contratado por indicação, e podemos dizer que temos conosco os melhores profissionais da região?, afirma o gerente Nivaldo Marcusso.Depois, esta equipe coordenou de perto a seleção dos alunos, priorizando as famílias mais pobres e menos estruturadas, residentes nos bairros próximos. Os dirigentes e professores visitaram todas as casas, coletaram informações detalhadas, entrevistaram, checaram e, por fim, remeteram os dados à Fundação, em Osasco, para a classificação por pontos.TecnologiaOutra marca das escolas da Fundação Bradesco é a tecnologia, principalmente os recursos que permitem conectar todas as equipes com os mais avançados conteúdos ligados à Educação. Para se ter uma idéia, numa tarde de fevereiro a equipe da Escola de Boa Vista estava impossibilitada de fazer telefonemas locais, por causa de uma pane telefônica na cidade, mas dispunha de um canal de webconferência ? com vídeo ? para trocar impressões com equipes do Rio Grande do Sul e São Paulo.Os custos de infra-estrutura são altos, principalmente em localidades como Boa Vista, onde a distância dos centros fornecedores encarece o transporte ? apesar disso, a escola ali foi construída em cinco meses. No saldo final dos investimentos, entretanto, considerados os ganhos de produtividade e demais benefícios de uma gestão profissional, a Fundação Bradesco tem um custo médio por aluno (da educação infantil aos cursos profissionalizantes e de alfabetização de adultos) de R$ 1.102,00 ao ano. É muito pouco se comparado aos R$ 1.700,00 mensais gastos em média com cada interno de instituições para infratores, onde se amontoam adolescentes que não tiveram a oportunidade dada agora àquelas crianças de Roraima. (DM)A história de MenezesSe tudo correr bem, daqui a 15 anos o pequeno Felipe Almeida Machado será um profissional com nível universitário e uma boa colocação no mercado de trabalho de Roraima, onde falta mão-de-obra qualificada. O garoto de 6 anos, filho de uma família pobre da periferia de Boa Vista, está na primeira turma da Educação Infantil da escola da Fundação Bradesco e tem muitos exemplos a seguir. As oportunidades criadas pela escola podem abrir caminhos a Felipe, como fizeram no caso do economista Gilson Soares Menezes, hoje com 31 anos, coordenador das áreas administrativa e industrial da empresa Cyclades, em São Paulo.Menezes é o quinto dos seis filhos de uma família pobre de Cacoal, em Rondônia, e tinha um futuro nebuloso enquanto tentava estudar sem qualquer recurso dos pais. ?Alcancei meu irmão mais velho na 4.ª série e usávamos o mesmo livro: ele fazia os exercícios de manhã e apagava as respostas para eu poder fazer os exercícios à tarde?, recorda. Na 5.ª série, em 1983, Menezes conseguiu se matricular na escola da Fundação Bradesco em Cacoal, e ali continuou até concluir o antigo 2.º Grau. ?Lá eu tinha material, uniforme, calçado, dentista e um ambiente organizado para estudar?, explica. ?Aprendi a me organizar, a estabelecer prioridades, a ter planos.?Para Menezes, foi esta experiência que lhe permitiu superar obstáculos enormes depois que perdeu seu primeiro emprego em Cacoal, no Banco do Brasil, e saiu em busca de alternativas no Sudeste. Em São Paulo, por quatro anos, morou em pensões baratas e até na rua, enquanto trabalhava e tentava entrar numa universidade. ?Eu tinha uma referência da escola, a referência de ter alimentado sonhos?, lembra. Em 94 ele ingressou na PUC, onde se formou em Economia, e há oito anos trabalha na Cyclades, uma empresa de roteadores e provedores de acesso remoto para internet, com subsidiária na Califórnia ? onde Menezes atuou por seis meses em 2001.ResultadosCasos como o do economista Menezes e de ex-alunos até famosos hoje em dia formam o veio principal da história da Fundação Bradesco, criada em 1956. Desde a primeira escola, construída em 62 na Cidade de Deus ? sede da Organização Bradesco, em Osasco (SP) ?, pelo menos 450 mil alunos foram capacitados e formados. Hoje, as 39 escolas estão em todas as unidades da Federação e garantem ensino gratuito de qualidade a 105 mil crianças e adolescentes, além de alimentação e assistência odontológica.Nestas escolas trabalham 1.128 professores e aproximadamente 1.370 outros funcionários, e os resultados aparecem tanto no alto índice de aprovação (97% em 2002) quanto na baixa evasão escolar (2,9%). O pequeno Felipe pode não resistir às forças que movimentam as ondas de migrantes pelo País ou aos problemas familiares que limitam o aprendizado e as perspectivas de milhares de filhos da pobreza, mas seu futuro parece ter ficado menos turvo quando ele cruzou o portão da escola na manhã de 6 de fevereiro. (DM)Fundação investe em tecnologia para a ação socialSão Paulo ? Além de construir escolas e garantir ensino de qualidade, a Fundação Bradesco tem investido em setores como o de tecnologia aplicada à educação. A parte mais visível deste investimento está nos 3 mil computadores à disposição de alunos e comunidades, mas os R$ 20 milhões aplicados nos últimos oito anos resultaram também em novos softwares e infra-estrutura de redes de comunicação, que garantem a distribuição de informações e conhecimento. ?Estamos investindo em tecnologia para ampliar nossa ação social?, diz o gerente Nivaldo Marcusso.Neste ano, a Fundação tem um orçamento de R$ 128,9 milhões para seus programas. Tendo a rede de escolas formada, a instituição deve ampliar as ações junto às comunidades, com o desafio de criar oportunidades para a geração de renda local. No Acre, por exemplo, famílias de ex-alunos de cursos profissionalizantes nas áreas de alimentação, embalagens especiais e gestão de negócios, da Escola de Rio Branco, criaram a Cooperativa Delícias da Floresta. Hoje eles beneficiam e vendem frutos típicos da região para o resto do País. A internet pode agora ser um facilitador de negócios para a cooperativa.Uma das maiores ações junto às comunidades ocorre hoje em todas as 39 escolas da Fundação, que devem receber cerca de 100 mil pessoas para aulas práticas, exames preventivos de saúde, orientações jurídicas e outras atividades. Pelo menos 4 mil funcionários do Bradesco e da Fundação atuarão como voluntários em 683 atividades diferentes, no que deve ser a largada para ampliar o leque de projetos sociais da instituição.

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