ALEX SILVA/ESTADAO
Benício voltou a comer e já se arrisca mais na fala após retorno à escola  ALEX SILVA/ESTADAO

Uma em cada quatro crianças apresentou regressão de comportamento durante a pandemia

Estudo mapeou que 27% voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas na faixa etária entre zero e três anos; dificuldades na fala ou na alimentação são comuns em cenários de estresse

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 14h00

De repente, o mundo de Benício, de 2 anos e meio, mudou. As visitas à casa de parentes e de outros bebês deram lugar ao único passeio possível: levar a mãe ao supermercado, de carro. O menino parou de falar e voltou a usar mamadeira, enquanto os pais, com medo do vírus e do desemprego, tentavam lidar com o mundo assustador que batia à porta. Como Benício, não foi pequeno o número de crianças que, na pandemia, voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas: chorar mais, falar menos, fazer xixi na roupa. 

Regressões no comportamento são sinais de que a criança está sob estresse e é uma forma que elas encontram de pedir aconchego. Estudo da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) indicou que 27% das crianças de 0 a 3 anos voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas na pandemia, segundo a percepção dos pais. A pesquisa, divulgada este mês, indica que regressões geralmente são transitórias, mas devem ser observadas com cuidado pelas famílias. 

“Notei que ele deixou de tentar falar. Era um bebê e tentava se comunicar através da fala, mas começou a só apontar”, conta a mãe de Benício, a arte educadora Heloisa Trigo, de 41 anos. Junto com a regressão na fala, o menino também voltou algumas casas na alimentação: se recusou a comer alimentos sólidos e reativou a mamadeira. “Quando tentei fazer voltar a comer, organizar a rotina, era como se eu não o acessasse mais.”

A pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal ouviu 1.036 famílias de todas as classes sociais sobre as repercussões da pandemia na rotina de crianças de 0 a 3 anos. Embora a ciência já saiba que as crianças pequenas são menos atingidas de forma grave pela covid-19, pesquisadores em todo o mundo ainda tentam estimar os impactos emocionais e cognitivos do longo tempo de isolamento decorrente da pandemia e do estresse dentro das famílias.

Falta de contato com outras pessoas, rupturas na rotina, medo e angústia dos pais estão por trás dos comportamentos regressivos nas crianças. “Parte das regressões está relacionada a não conseguir manter o ambiente dentro de casa em função de variáveis externas que transbordam”, explica Mariana Luz, CEO da FMCSV. Em meio a uma situação sem precedentes, todas as famílias enfrentaram dificuldades, mas, segundo o estudo, pais da classe D se veem mais sobrecarregados e tristes. 

“Foram muitos lutos, a ameaça do desemprego, de não conseguir prover o sustento. Depois a falta de esperança, sem ver uma luz no fim do túnel”, lembra Heloisa. O marido perdeu parentes e o emprego. Trabalhando de casa, Heloisa se sobrecarregou com rituais de limpeza que não acabavam mais para tentar se defender do vírus. “Benício também sinalizou que estava difícil para ele.” De volta à escola, o espaço ekoa, na zona oeste de São Paulo, o menino voltou a comer, começa a se arriscar mais na fala e a mãe vê avanços. 

Na casa de Tatiane Zanholo, de 36 anos, o vírus assustou o casal de dentistas, que teve medo de voltar ao consultório. Com duas crianças pequenas e sem ajuda de parentes ou babá, as tarefas se avolumavam. Murilo, hoje com 4 anos, respondeu com uma gagueira que nunca havia manifestado, piora na dermatite e um “choro interminável”, nas palavras da mãe. “No começo não sentia tanto, mas fomos ficando cansados. De repente, ele não dormia, acordava várias vezes, chorava demais e começou a ficar birrento.”

Embora aflijam os pais, as regressões não devem ser vistas com desespero nem são sinais de que a criança terá defasagens no desenvolvimento. Muito mais do que adultos, crianças novas têm maior plasticidade cerebral - ou seja, se recuperam rapidamente quando são estimuladas e se sentem seguras. As mães dos “bebês da pandemia” comprovam que as mudanças não demoram. 

“Em uma semana virou outra criança”, diz a dentista Vanessa Junqueira, de 41 anos, sobre a ida do filho Rhian, de 1 ano e 4 meses, à escola após o isolamento. O menino passou os 11 primeiros meses de vida sem contato externo. Qualquer um que não fosse mãe ou pai parecia um monstro para ele e Rhian não parava de chorar. “Só queria ficar comigo o tempo todo, muito apegado. Agora, está bem mais sociável.” De volta ao Colégio Rio Branco, em Cotia, Murilo também melhorou o choro e o sono. 

Para Lino de Macedo, psicólogo e integrante do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância, regressões ou atrasos no desenvolvimento devem ser observados pela família. Mais do que um problema centrado na criança, esses sinais revelam dificuldades das relações na pandemia. O acolhimento com afeto e estímulos positivos, como as brincadeiras, criam segurança e favorecem o desenvolvimento. “Em boa parte dos casos, um pai mais próximo, amoroso, paciente e receptivo ajuda.” Se as regressões são duradouras ou há atrasos na fala, as famílias devem procurar um especialista, que pode ser o pediatra da criança.   

E, quando se fala em brincadeiras, é preciso superar a ideia de que apenas brinquedos de loja cumprem o papel. Usar sucatas, fazer sombras na parede, aproveitar a hora do banho para interagir com a criança são atividades valiosas. “O que a gente precisa é de disponibilidade de interações e brincadeiras para que o desenvolvimento seja atingido”, diz Mariana. Na contramão, a exposição passiva das crianças às telas, que teve um boom na pandemia, prejudica o desenvolvimento.

Segundo a mesma pesquisa, mais famílias hoje relatam que crianças de 0 a 3 anos usam equipamentos todos os dias, na comparação com o ano de 2019. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças de até 2 anos não tenham exposição às telas e aquelas de 2 a 5 anos limitem o uso a uma hora por dia. Pais dizem que o tempo no celular ou na TV estourou - e muito - o recomendado.

“A única coisa que ainda consigo controlar é celular e tablet. Não dou de jeito nenhum. A tela de TV eu tento tirar, mas a gente fica esgotada emocionalmente”, diz Marina Lacombe, de 39 anos, mãe de Laura, de 1 ano e 8 meses. Retomar padrões de tela pré-pandemia vai exigir, segundo especialistas, que as crianças recebam novos estímulos, mais atraentes do que os eletrônicos. No caso de Laura, os animais de verdade da Escola Equilíbrio, na zona sul, e principalmente a “cocó”, ganham de dez a zero de qualquer galinha pintadinha. “Ela está fascinada. Quer brincar, ficar junto, curte com amigos e professores.” 

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Após quarentena, atraso na fala leva crianças ao consultório e confunde pais

Isolamento e estresse da pandemia também afetaram crianças pequenas, de até 3 anos; profissionais tentam avaliar contexto familiar

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 14h00

Preocupados com atrasos na linguagem após a quarentena, pais de crianças pequenas procuram consultórios de pediatras e psicólogos. Também pedem ajuda às escolas. A situação confunde as famílias e até os médicos, que ainda não sabem medir o tamanho do impacto do isolamento no desenvolvimento dos pequenos.“Vemos no consultório crianças com atraso na linguagem. Os pais chegam apavorados achando que é autismo e não é. São consequências da pandemia”, diz Magda Lahorgue, presidente do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).  

Diante da demanda das famílias, os pediatras agora precisam entender se as questões relacionadas à linguagem ou outros comportamentos regressivos nas crianças são transitórios. Em muitos casos, eles têm origem na forma como pais e filhos se organizaram na pandemia. "Quando vamos avaliar, são crianças que apenas ficaram sem estímulo adequado." Mesmo que os pais tenham trabalhado em casa, nem sempre há interação e é comum o uso excessivo de equipamentos eletrônicos, diz Magda.

Estudo da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) indicou que 27% das crianças de 0 a 3 anos voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novas na pandemia, segundo a percepção dos pais. Entre as regressões de comportamento estão chorar muito, voltar a fazer xixi na roupa e falar menos. 

Parte do trabalho dos profissionais é sugerir que as famílias tentem promover os estímulos para, depois, avaliar se ocorrem avanços. Johny Santos, psicólogo e supervisor da Clínica Accogliere, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, diz que houve um boom de procura de atendimento para crianças, incluindo as mais novas, de até 3 anos, a partir de fevereiro. 

As consequências do isolamento angustiam os pais, encaminhados à clínica por pediatras para investigar questões como atrasos na fala, perda da habilidade de se alimentar e redução da autonomia. O trabalho de fonoaudiólogos também é requisitado.  

Nas escolas, crianças pequenas retornam com questões que antes não surgiam. Diretora pedagógica do espaço ekoa, escola de educação infantil na zona oeste de São Paulo, Ana Paula Yazbek percebe que as crianças chegam agora falando frases menos complexas. A situação não é encarada pelo colégio como algo preocupante, mas que demanda atenção e observação dos professores. O silêncio dos pequenos, diz Ana Paula, também deve ser respeitado como um sintoma de um período de dificuldades e adaptações pelo qual todos - crianças e adultos - estão passando.   

Com as chupetas por baixo das máscaras, as crianças retornam ao Colégio Rio Branco, em Cotia. Os profissionais não veem dificuldades dos pequenos para se separarem dos pais, mas notam outras mudanças. "Crianças que tinham tirado a fralda voltaram a usar. Tinham deixado e chupeta e voltaram muito apegadas a ela", conta Rosemary Vercezi Sertório, orientadora educacional da educação infantil. Há também, segundo Rosemary, um grupo de alunos que desenvolveu menos a fala do que poderiam. A escola investe em atividades de acolhimento e expressão dos sentimentos. Também tenta ir com calma - proibir a chupeta, por exemplo, não é a melhor estratégia.  

Além do contato com outras crianças, o retorno ao colégio ajuda a reconstruir a rotina. “É um sinal concreto de recuperação de uma vida interrompida por mais de um ano”, diz Lino de Macedo, psicólogo e integrante do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância. Mas, para fazer frente a questões como regressões ou atrasos no desenvolvimento, a volta não deve focar em tarefas a cumprir ou matérias. “Deve ser com acolhimento afetivo, social. O cognitivo aguenta esperar”, completa o assessor científico do Instituto Pensi.   

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Seu filho voltou a agir como bebê? Saiba como lidar com a regressão infantil

Na pandemia, 27% dos pais relatam que crianças voltaram a ter comportamentos regressivos como usar chupeta e fazer xixi na cama; situação demanda estímulos e acolhimento

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 14h00

 

Sem estímulos adequados e sob estresse, parte das crianças na pandemia teve regressões no comportamento: passaram a falar menos, chorar mais, fazer xixi na roupa ou usar a chupeta. Os comportamentos de quando eram mais novas assustam os pais e têm levado famílias aos consultórios de pediatras. Em boa parte dos casos, as situações são transitórias. A retomada da rotina, o contato dos pais e boa estimulação, em geral, são suficientes para que os pequenos retomem os comportamentos esperados para a idade. 

Veja abaixo dicas de como lidar com essa situação e promover estímulos positivos para crianças de 0 a 3 anos: 

  • Expressão. Regressões no comportamento, como chorar mais, falar menos e voltar a fazer xixi na roupa, são comuns em situações de estresse e representam uma forma de expressão das crianças.  Na pandemia, os sentimentos de angústia dos pais e o isolamento podem levar a comportamentos regressivos entre as crianças.
  • Contexto. Os pais devem observar esse tipo de comportamento e acolher a criança. Também devem evitar focalizar nela a causa da situação, mas entender que a regressão tem a ver com o contexto de estresse a que todos estão submetidos.
  • Passageiro. Voltar a ter comportamentos de quando era mais nova não significa que o desenvolvimento cognitivo da criança será prejudicado. Especialistas apontam que essa situação é, em geral, transitória e crianças pequenas têm enorme capacidade de recuperação.
  • Contato. O contato dos adultos com as crianças deve ser aprofundado. Embora os pais estejam mais tempo em casa, nem sempre isso significa proximidade e acolhimento. Brincadeiras são uma forma de estreitar a comunicação, estimular o desenvolvimento das crianças e dar segurança.
  • Desde o colo. As brincadeiras podem começar desde o primeiro ano de vida, com atividades como cantar e fazer expressões faciais diante de um espelho. Atividades rotineiras, como dar banho ou comida, também podem envolver brincadeiras.
  • Bate papo. A conversa com a criança deve ser estimulada, mesmo que ela ainda não entenda tudo ou saiba falar. Embora bebês não entendam o conteúdo de uma conversa, eles conseguem captar sentidos pelo tom da voz.
  • Rotina. É positivo, sempre que possível, manter rotinas para as crianças, com horários de alimentação e sono. A escola também ajuda a reorganizar as atividades cotidianas.
  • Ajuda. Se os comportamentos regressivos persistem mesmo com boa estimulação e há sinais de atraso ou perdas na linguagem, pais devem procurar ajuda profissional. Um pediatra deve ser capaz de avaliar o contexto em que a criança está inserida e investigar se a situação é transitória, decorrente da pandemia, ou tem origem em transtornos.
  • Tela interativa. A estimulação de crianças que ficam sozinhas diante de telas é menor do que qualquer interação social. Se não é possível limitar o tempo de tela, o melhor é acompanhar a criança enquanto assiste TV, fazendo comentários e provocando interações.
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