Uma cidade do Marrocos transplantada para a Amazônia

Cansado das lutas entre seus súditos e os mouros que viviam em Mazagão, uma possessão sua no Marrocos, o rei de Portugal, dom José, tomou uma decisão radical: em 1770, resolveu transferir toda a cidade para a Amazônia. Para isso, foi escolhida, no atual Estado do Amapá, uma área às margens do Rio Mutuacá para que fosse construída a Nova Mazagão. Hoje, 334 anos depois, o que restou dessa cidade está sendo escavado por equipe chefiada pelo arqueólogo Marcos Albuquerque, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).As escavações, solicitadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e financiadas pelo governo do Amapá, começaram em 10 de dezembro e tiveram de ser interrompidas no fim de fevereiro, por causa das chuvas. Serão retomadas em julho. O que já foi escavado revelou uma construção de Mazagão. ?Localizamos os alicerces da antiga igreja, com mais de 40 metros de comprimento?, diz Albuquerque. ?Conseguimos recuperar todo o traçado da construção.?Covas coletivasOs pesquisadores também encontraram 23 ossadas, algumas em covas coletivas, o que pode ser reflexo de uma epidemia desconhecida que atingiu a vila em 1783. ?Trata-se de um achado muito importante não apenas para o Brasil como também para Portugal e Marrocos, pois desta forma poderemos entender um pouco mais sobre a história comum a esses três países?, explica o arqueólogo. ?Deveremos fazer teste de DNA dos ossos para não apenas identificar a raça mas também resgatar informações sobre a epidemia.?A história de Mazagão, que hoje se chama El Jadida, começou em 1513, quando foi fundada por portugueses na costa do Marrocos como entreposto comercial. Também servia como apoio para as grandes navegações de Portugal. Tal situação durou até a segunda metade do século 18, quando a coroa avaliou que a luta contra os mouros estava muito onerosa. Em 1770, o Marquês de Pombal, o grande estrategista da corte de dom José, resolveu que toda a cidade seria transferida para a Amazônia.Projeto de EstadoSegundo Albuquerque, esse plano era ?um projeto de Estado?, que visava a garantir a soberania do território nacional (o Brasil), sobretudo pela ocupação da área. Depois de escolhido o local, teve início a construção da Nova Mazagão, planejada pelo arquiteto italiano Domingo Sambucetti. ?Vieram para cá 340 famílias, algumas com seus escravos?, revela. ?Elas chegaram a Belém em 1770 e foram para Mazagão em 1773.?Estrategicamente, a povoação da Nova Mazagão tinha o objetivo de dar apoio militar à vila de Macapá, onde estava construída a Fortaleza de São José de Macapá. Tratava-se, portanto, de uma estratégia paramilitar. Em 1783, no entanto, a população da vila foi vítima de uma grande epidemia e, por causa disso, nesse mesmo ano conseguiu a liberação da rainha, Maria I, para abandonar o local e ir aonde quisesse.Festa lembra mourosAlguns ficaram na região, deslocando-se apenas um pouco da área. ?O fato é que eles não estavam acostumados às epidemias tropicais, pois estavam adaptados ao Marrocos?, diz o pesquisador. ?Hoje, existe próximo das nossas descobertas arqueológicas um povoado denominado Mazagão Velho, pois a sede do município, que fica a cerca 30 quilômetros dali, chama-se Mazagão Novo. Nesse povoado, há uma festa, de São Tiago, em que é revivida a luta contra os mouros.?Concluído o trabalho arqueológico, o governo, que investiu R$ 149 mil, pretende transformar a área num local de referência da cultura do Amapá. ?A idéia é tombar a área e, depois, transformar as descobertas desta cidade encravada na Floresta Amazônica em atração turística.?

Agencia Estado,

09 de março de 2004 | 10h55

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