Um primeiro lugar muito especial na PUC

O estudante Leonardo Feder, de 17 anos, vai começar sua vida universitária em grande estilo este ano. É dele a melhor nota do vestibular para o curso de jornalismo no período matutino da Pontifícia Universidade São Paulo (PUC-SP), um dos cursos mais concorridos de uma das mais prestigiadas escolas do País. Portador de distrofia muscular - doença degenerativa progressiva que ainda não tem cura - ele passa hoje a maior parte do tempo numa cadeira de rodas. Seus movimentos começaram a apresentar falhas ainda entre 5 e 6 anos de idade. De lá para cá, os sintomas vêm avançando. Mas Leonardo, ou Léo, como é chamado em casa, aprendeu a conviver com a doença. No ano passado, como todos os seus colegas, mergulhou nos estudos. "Na minha escola, teve uma revisão de seis meses. Chegava em casa e estudava à tarde. Mas não bitolava. Sempre reservava um tempo também para o lazer", diz. Uma de suas atividades preferidas nos momentos de folga sempre foi a leitura. No seu quarto - no apartamento onde vive como os pais no Jabaquara -, é preciso abrir as portas dos armários sobre a cama com certo cuidado por causa da quatidade de livros amontoados ali dentro. "Sempre gostei de ler. Gosto de suspense e policiais", diz o rapaz, que já leu quase todas as histórias criadas por Agatha Christie. Ele também aprendeu a gostar de Marcos Rey e de sua literatura juvenil. Mas Léo não é um leitor comum. Lê cerca de 50 livros por ano. E como bom leitor, tornou-se um escritor precoce. Aos 13 anos, publicou um livro: O Enigma do Assassinato das Idosas. No ano passado, escreveu a continuação da história. O gosto pelas letras acabou levando-o a optar pelo jornalismo. A carreira, porém, não era a única que o atraía. "Eu estava dividido entre física, jornalismo e biologia. Procurei um psicólogo para me ajudar com orientação profissional e acabei me decidindo." Léo ainda não tem uma idéia muito clara sobre o que deseja da carreira. Mas já fala em trabalhar em redações de jornais impressos. "Quero também continuar a escrever meus livros nas horas vagas." Grito - Os pais de Léo estão entusiasmados com a vitória do filho. "Quando soube que ele tinha entrado em primeiro lugar, dei um grito dentro do hospital", disse a mãe do rapaz, a pediatra Ana Lúcia Langer, de 44 anos. Ela e o marido, o clínico geral e pneumologista David Feder, de 45 anos, tornaram-se especialistas em distrofia muscular. Ele criou um site que se tornou referência mundial (www.distrofiamuscular.net). Ela passou a atender pacientes de todo o Brasil. Hoje, lutam para melhorar o tratamento para os pacientes no Brasil. Ao todo, são cerca de 80 mil. Tímido, Léo parece ainda não ter assimilado completamento seu feito no vestibular. Soube da notícia anteontem, quando esperava no carro, ao lado do pai, para fazer a prova da segunda fase da Fuvest. "Minha mãe me ligou no celular. Fiz a prova até animado." Claro que Léo não esperava conseguir a melhor nota na PUC. Mas na véspera do resultado, teve um sonho curioso. "Sonhei que tinha passado em primeiro lugar. Para mim era um sonho que não ia acontecer." Errou.

Agencia Estado,

09 de janeiro de 2003 | 15h19

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