Adam Hunger/Reuters
Adam Hunger/Reuters

Um nerd na NBA

O economista de Harvard que trouxe os Knicks de volta à vida

Jonathan Zimmerman,

20 Fevereiro 2012 | 13h05

Sou formado numa universidade de elite e também fã apaixonado pelo basquete. Isso me dá dois ótimos motivos para celebrar a ascensão meteórica de Jeremy Lin, o armador de Harvard que trouxe o time dos New York Knicks de volta à vida.

 

Mas sou também professor universitário. E isso faz com que me sinta incomodado ao ouvir o refrão segundo o qual Lin - cujos pais são taiwaneses - teria “superado o estereótipo asiático”. De acordo com a imagem consagrada na consciência popular, os americanos asiáticos são tímidos, estudiosos e bons em matemática. Ao marcar 20 ou mais pontos em cada um dos seis jogos da NBA em que figurou entre os titulares, incluindo os 38 pontos contra Kobe Bryant e os Los Angeles Lakers, Lin teria desferido um golpe decisivo contra essa insidiosa caricatura étnica.

 

Mas o estereótipo em questão - afinco nos estudos - não é um modelo positivo? Que motivo alguém teria para querer “superá-lo”? Eis aqui uma resposta desanimadora: no processo de admissão na universidade, castigamos os americanos asiáticos que se aproximam demais deste estereótipo. Em vez de recompensá-los por seus esforços e conquistas individuais, nós de fato os submetemos a penas por apresentarem um desempenho tão acima da média.

 

O Departamento da Educação está atualmente investigando uma queixa contra Harvard - alma mater de Jeremy Lin - envolvendo um episódio de discriminação contra americanos asiáticos no seu processo de seleção. O departamento também está investigando Princeton depois que uma pesquisa realizada por um aluno da própria universidade indicou que os americanos asiáticos precisam obter no SAT (versão americana do vestibular) cerca de 140 pontos a mais do que os estudantes caucasianos.

 

Harvard e Princeton negam qualquer discriminação, é claro. Não basta conseguir notas quase perfeitas nos exames, nem apresentar um talento para a música, nem ganhar o prêmio das feiras de ciências. Os americanos asiáticos fazem tudo isso, aos montes. Mas, se tudo isso vem no mesmo grupo étnico, nossas universidades não querem concentrar em demasia tanto talento.

 

Como Jeremy Lin, muitos candidatos de origem asiática são filhos ou netos de imigrantes. Não podem depender do currículo dos pais - nem das generosas doações às universidades que frequentaram - para conseguirem uma vaga. É um dos motivos que leva seus pais a encorajá-los a se dedicar aos livros em vez das quadras esportivas. Em 2009, quando Lin estava no último ano de Harvard, ele era apenas um dos 18 americanos asiáticos que disputavam a primeira divisão do campeonato de basquete universitário. Os adversários sussurravam comentários racistas para ele, perguntando se não estaria faltando aos ensaios da orquestra ou dizendo para “abrir bem” os olhos “puxados”.

 

Embora Lin tenha levado sua equipe de basquete ao título estadual no campeonato juvenil da Califórnia, nenhum dos mais importantes programas esportivos da NCAA (a associação universitária de basquete) ofereceu a ele uma bolsa de estudos. E duas equipes da NBA o preteriram antes de ele ser escolhido pelos Knicks.

 

Assim, devemos parabenizar Lin por ter revertido um estereótipo: o de que os homens asiáticos não podem ser bons esportistas. Mas não podemos esquecer que ele foi um estudante dedicado, obtendo média de 4,2 (a nota máxima é 5) no colegial e acertando todas as questões de matemática no SAT. E se formou na faculdade de economia (um dos cursos mais exigentes de Harvard) com uma média de 3,1.

 

Jeremy Lin não superou um estereótipo étnico; ele o confirmou. Mas, quanto mais glorificarmos Lin por romper o molde típico, mais estaremos rebaixando centenas de milhares de americanos asiáticos que estudam com afinco e alcançam o sucesso. Nossa sociedade diz que, se você for de origem asiática, obter excelentes resultados na escola simplesmente não é o bastante. E isso é o que eu chamo de Linsanidade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

* JONATHAN ZIMMERMAN É PROFESSOR DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE NEW YORK. ESTE TEXTO FOI PUBLICADO NO WASHINGTON POST

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