Um jornalista preocupado com o ensino

Julio de Mesquita Filho pregava, desde a década de 1920, a reforma do ensino superior

José Maria Mayrink, de O Estado de S. Paulo,

23 de janeiro de 2009 | 16h23

O jornalista Julio de Mesquita Filho acabava de voltar do exílio em Portugal, para onde foi enviado após a derrota da Revolução Constitucionalista de 32, quando Armando de Salles Oliveira, seu cunhado e acionista de O Estado de S. Paulo, o convidou para participar da comissão encarregada de organizar o núcleo da Universidade de São Paulo (USP). Ele não era professor nem funcionário do governo, mas um intelectual que, desde 1925, quando publicou o ensaio A Crise Nacional, preocupava-se com as deficiências da educação e pregava a reforma do ensino superior.   Fundada em 25 de janeiro de 1934, a USP somava às unidades já existentes - como a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, a Escola Politécnica e a Faculdade de Medicina - a recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que nasceu de uma concepção nova, com o objetivo de formar homens capazes de pensar o futuro do Brasil. A esse núcleo se juntaram a Faculdade de Medicina Veterinária, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e vários institutos estaduais, como o Biológico, o Butantã e o Agronômico.   "Para ele (Armando de Salles Oliveira), como para os que o ajudaram a erguer essa imponente obra, uma universidade não era nem podia ser uma simples justaposição de faculdades e instituições", afirmou Julio de Mesquita Filho em dezembro de 1945, ao representar, em uma cerimônia de formatura, o fundador da USP, falecido sete meses antes. Para integrar os cursos e facilitar o convívio de professores e alunos, os fundadores planejaram construir a Cidade Universitária, projeto concretizado 20 anos depois.   Julio de Mesquita Filho partiu dessa concepção, das linhas gerais de um ideal que todos compartilhavam, quando decidiu buscar na França os primeiros professores da Faculdade de Filosofia. Ao conversar com Georges Dumas, da Sorbonne, ouviu dele um conselho que Teodoro Ramos, encarregado de fazer as contratações, adotaria como critério básico: em vez de trazer medalhões, a USP selecionaria jovens talentos que pudessem se beneficiar de sua experiência no Brasil.   Os professores estrangeiros vieram, principalmente, da França, onde Dumas indicou, entre outros, os nomes de Paul e Roger Bastide, Jean Maugüe e Pierre Monbeig, Fernand Paul Braudel e Claude Lévi-Strauss. Houve profissionais recrutados em outros países. Contratados para um período inicial de três anos, alguns permaneceram mais tempo no Brasil ou voltaram outras vezes, depois de terem retornado a seus países.   Julio de Mesquita Filho ficou amigo dos professores franceses, com os quais se reunia em sua casa ou em sua fazenda de Louveira para conversar sobre o trabalho e o futuro da USP. Pelo seu interesse e envolvimento no projeto, o jornalista foi escolhido para ser o paraninfo da primeira turma da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em janeiro de 1937.   No discurso que fez na cerimônia de formatura, relembrou os ideais de Armando de Salles Oliveira e resumiu os seus próprios conceitos sobre a educação. "Ensinar não é transmitir pura e simplesmente aquilo que se leu nos livros. Ensinar é alguma coisa mais, é acima de tudo contribuir para o progresso da disciplina que se pretende professar", afirmou. "Antes de tudo e acima de tudo, a uma faculdade superior incumbe a missão de fazer progredir a ciência, de formar e guiar pesquisadores", acrescentou, estendendo às demais unidades da USP o que pensava em relação à Filosofia.   O diretor do Estado, que se empenhou na reforma do ensino superior desde 1926, quando o jornal publicou uma série de entrevistas de Fernando de Azevedo sobre a educação, tinha uma visão global da situação. "É de capital importância para as nacionalidades a organização de um ensino secundário capaz de suscitar valores e capacidades em condições de constituir uma sólida elite dirigente", disse o jornalista no discurso de paraninfo.

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