Um ensino que tem muito a aprender

Nos últimos anos, o setor de educação pública batalhou, com êxito, para matricular a maioria das crianças nas escolas. Na Grande São Paulo, 4,1 milhões de alunos cursam escolas de ensino fundamental e médio. Expandiu o número de escolas públicas na periferia, paralelamente aos sistemas estaduais e municipais. O governo estadual, responsável pelo ensino público médio, absorve ainda dois terços das matrículas dos primeiros quatro anos do ensino fundamental e administra escolas na metrópole para 3 milhões de estudantes. Isso abrange cerca da metade das matrículas, que chegam a 6,1 milhões de alunos e 250 mil funcionários. Todas as crianças podem freqüentar o ensino fundamental até os 16 anos e, atualmente, a maioria o faz. O próximo desafio é dar educação de qualidade.Com notáveis exceções, a qualidade da instrução pública é baixa. Entre estudantes de 15 anos de 32 países que foram submetidos a testes de compreensão de leitura, em 2000, pela Organização da Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (Ocde), os brasileiros ficaram em último lugar. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) do Ministério da Educação não comprova progressos no aprendizado desde 1991. De cada 100 estudantes que iniciam o ensino fundamental, somente 59 o concluem.Apesar disso, comprovamos progressos em algumas das escolas visitadas na periferia de São Paulo. Importante notar que a maioria delas - ao contrário de muitas do Primeiro Mundo - não estava em decadência e geralmente opera em áreas onde não havia escolas 20 ou 30 anos atrás. Sua construção foi pressionada pelo crescimento de São Paulo. Em nossas visitas, observamos aspectos físicos, assim como a organização do sistema escolar e os trabalhos docente e administrativo.A Escola Parque Piratininga II é uma excelente escola estadual da comunidade pobre e assolada pela violência, em Itaquaquecetuba, extremo leste da metrópole. O salão de entrada está pintado de cor brilhante, decorado com trabalhos dos alunos; um recanto bem mobiliado, com cadeiras e mesa de junco, funciona como sala de espera. Nas paredes da sala dos professores, uma série de gráficos, um para cada classe, mostra as mais recentes avaliações de professores de cada matéria. Num relance, vêem-se as áreas de preocupação por classe e por disciplina. Bem ao alto, no lado oposto, estão os planos de trabalho de cada uma dessas áreas.A diretora Fátima Zein Casarini conta com indicadores de rendimento próprios, que são convincentes. O ensino é planejado e avaliado. Os novos professores são treinados para usar método de ensino interativo, aplicar projetos que atraem o interesse dos alunos e possibilitam trabalhos originais. Os dados sobre cada classe, com planos de ensino em andamento e cópia da ficha de cada aluno, ficam à disposição dos professores substitutos, para atualização até o retorno do professor efetivo. Semanalmente os professores, avaliam, com interesse, as sugestões de alunos depositadas numa caixa. A organização dos períodos por faixa etária torna o convívio mais harmônico e o uso do espaço, mais eficiente, com salas destinadas a matérias específicas. Os alunos são incentivados a permanecer na escola após o término das aulas.Os principais problemas são a grande rotatividade e as faltas dos professores. A maioria se desloca diariamente de outra região da cidade, sem incentivo para trabalhar na periferia. A diretora nos relatou que, lidando com tantos funcionários novos, despende muito tempo treinando-os para o método da escola. As salas de cada matéria são claramente identificadas, pela exposição de materiais de referência, como trabalhos de alta qualidade dos alunos, expostos com gosto artístico.Visitamos a biblioteca. É modesta, mas possui 6 mil livros, na maioria novos. Todos identificados por títulos, na lombada, e expostos de modo atraente. A biblioteca fica aberta, aos alunos e à comunidade, por todo o horário de aula. Os atendentes são voluntários, entre eles alunos mais velhos fora do período de aulas.Veja os principais pontos da análise:PRIMEIRA IMPRESSÃO APRENDIZAGEM MATERIAIS DIDÁTICOS ORGANIZAÇÃO DAS ESCOLAS SUPERVISÃO ESCOLAR MERENDA RECURSOS FINANCEIROS FUTUROLeia também: Itaquaquecetuba tem escola exemplar Um ensino que tem muito a aprenderEspecialista inglesa analisa escola pública brasileiraJane WrefordJane Wreford dirige a inspeção das autoridades escolares locais para a Comissão de Auditoria da Inglaterra

Agencia Estado,

12 de abril de 2003 | 22h52

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