Um curso de paz contra a violência nas escolas

A professora do ensino fundamental Elci Ferreira levou um susto ao ouvir de um aluno de apenas 13 anos uma confissão: ?Sou assaltante, sim." O garoto estudava na 4.ª série de uma escola do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Elci ficou muda. Passavam pela sua cabeça lições aprendidas em 30 anos lecionando em escolas públicas, muitas localizadas em bolsões de pobreza. "Você não pode reagir com críticas ou perderá para sempre a confiança dele", pensava.São lições como essa que Elci passa para 90 educadores das redes pública e particular no curso de Cultura para a Paz, promovido pela Unesco e Associação Palas Athena. Eles aprendem a tratar de questões como consumo de drogas e violência. O curso tem duração de um ano e é gratuito.O governo do Estado agora pretende estendê-lo para 6 mil escolas. O convênio ainda está em trâmite, mas a idéia é que as aulas façam parte do programa Escola da Família e sejam ministradas não apenas para professores, mas também para parentes de alunos.O governo já encomendou 45 mil exemplares da cartilha Paz como se Faz, que norteia o curso e foi escrita pela coordenadora do programa de Formação em Valores Humanos e Educação para a Paz, Laura Roizman, e pela fundadora da Palas Athena, Liz Diskin.ConflitosComo resolver conflitos, de que forma abordar um aluno consumidor de drogas, como agir em situações de preconceito ou lidar com questões como alcoolismo e violência em família são exemplos de temas trabalhados em classe. "A escola tem de se tornar resistente à violência", diz Laura. "O primeiro passo é torná-la atraente, abrir o diálogo para criar vínculos com os alunos e a família."Para Lia, dar chance para o aluno desabafar, fazer confissões, sem críticas, faz com que o professor possa entendê-lo melhor e apontar-lhe caminhos. "É o princípio dos grupos de anônimos. Muitos professores escondem o uso de drogas entre alunos porque têm medo. Mas quando você assume o problema e o coloca em discussão, tem possibilidade de mudar", diz. "Se, ao contrário, a escola simplesmente condena, às vezes até com a expulsão, elimina no aluno a possibilidade de se recuperar."Os educadores reconhecem que temas polêmicos costumam ficar de fora de sua formação. "Os alunos hoje demonstram uma agressividade gratuita e a droga é uma ameaça real. Mas a gente não aprende a enfrentar tais problemas nos cursos de pedagogia, por isso, às vezes, ficamos perdidos", diz a diretora da escola estadual Salvador Moya, Silvia Cassiani. "Com o curso, aprendi a ter uma nova conduta, a deixar que os alunos digam o que pensam e não apenas julgar, mas a me colocar no lugar deles."Sem julgarSueli Gil, professora da escola municipal de ensino fundamental Jackson de Figueiredo, no Tatuapé, também diz estar mais tolerante. "Não recrimino os alunos. Faço o caminho inverso, tento promovê-los." Para Elci foi justamente a ausência de julgamento que fez com que o aluno confessasse ser assaltante. Ele disse a ela que fazia parte de uma quadrilha de roubo de carros. Confessou que havia sido expulso de outro colégio, que fugira de casa e tinha ido morar na rua."Quando ele viu que a minha reação não havia sido negativa, passou a me confidenciar outras coisas", diz Elci. "E em vez de apontar seus erros, como muitos fazem, procurei valorizar a vida dele, fazer com que enxergasse os perigos e mostrar-lhe outros caminhos melhores."Em um ano de convívio, o adolescente largou o crime e voltou a morar com a mãe. "Percebi que tinha sido importante para ele quando, no dia dos professores, ele lavou todos os carros dos funcionários da escola para comprar um presente para mim", diz. "Hoje sei que um professor pode fazer grande diferença na vida de um aluno. A escola é, muitas vezes, a última chance de o adolescente encontrar outra possibilidade."

Agencia Estado,

25 de agosto de 2003 | 07h54

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